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Márcio Atalla: na era das canetinhas, desafio não é viver mais, mas com qualidade

Em entrevista à EXAME, especialista explica por que o avanço da medicina não é suficiente para garantir autonomia na velhice e aponta riscos do uso de medicamentos para perda de peso sem mudanças de hábitos

Márcio Atalla: especialista em saúde e movimento analisa os efeitos dos medicamentos para perda de peso e explica o que o Brasil pode aprender com a Coreia do Sul sobre qualidade de vida

Márcio Atalla: especialista em saúde e movimento analisa os efeitos dos medicamentos para perda de peso e explica o que o Brasil pode aprender com a Coreia do Sul sobre qualidade de vida

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 16 de outubro de 2026 às 15h47.

Última atualização em 16 de outubro de 2026 às 15h50.

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RESUMO +

Márcio Atalla, especialista em saúde e movimento, afirma que o envelhecimento saudável no Brasil exige políticas públicas para atividade física e cidades seguras. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados por Atalla, brasileiros passam, em média, os últimos 12 anos de vida com algum grau de dependência. Ele alerta que canetas emagrecedoras sem exercício podem agravar a perda de massa magra.

Em 1960, a expectativa de vida ao nascer no Brasil era próxima ao valor na Coreia do Sul: por aqui, a média era de 52,5 anos, e no país asiático, 53,8. Hoje, o brasileiro médio vive 76,6 anos, enquanto o sul-coreano chega a 84,4.

Mas o que difere os dois países e o envelhecimento das suas populações? O especialista em saúde e movimento Márcio Atalla explica que, desde 1970, o governo da Coreia do Sul implementou programas ligados à saúde e qualidade de vida. O trabalho incluiu obras de infraestrutura, como saneamento básico nas zonas rurais, a criação de pontes e melhorias na habitação, que não só evitaram a morte precoce como reduziram a mortalidade infantil.

"Em Seul, perguntei a um representante do governo quantos anos eles buscavam atingir. Ele explicou que aquele nunca foi o objetivo. A meta sempre foi reduzir o tempo de dependência na velhice", conta, em entrevista exclusiva à EXAME.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados por Atalla, os brasileiros passam, em média, os últimos 12 anos de vida com algum grau de dependência. Ou seja, parte do que é vivido após os anos produtivos pode ocorrer sob os efeitos de uma doença grave ou da necessidade de ajuda para atividades básicas, como comer, tomar banho ou ir ao banheiro.

"Cresce a média de pessoas que vivem mais, que chegam aos 70 ou 80 anos, mas estão vivendo esses anos com qualidade? No Brasil, a resposta é não", afirma Atalla. "Temos diagnósticos precoces, medicina preventiva e a cura para muitas doenças, mas não é o suficiente."

O especialista conversou com a EXAME sobre os desafios do envelhecimento da população, o avanço das canetas emagrecedoras, os efeitos do sedentarismo e a necessidade de políticas públicas que estimulem hábitos saudáveis. Para ele, o debate sobre longevidade precisa ir além da medicina e considerar como as cidades, o trabalho e o ambiente em que as pessoas vivem influenciam suas escolhas.

As canetas emagrecedoras podem comprometer o envelhecimento saudável?

O crescimento do uso de medicamentos injetáveis para perda de peso, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, representa uma nova ferramenta no tratamento da obesidade. Mas, para Atalla, os benefícios desses medicamentos não eliminam a necessidade de discutir as causas do ganho de peso.

"A gente deveria entender a obesidade e esse aumento das doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão como a consequência de alguma coisa. As canetas são espetaculares para tratar o problema que já existe", afirma.

Segundo o especialista, os medicamentos podem reduzir entre 40% e 60% a ingestão de calorias, dependendo do fármaco utilizado, contribuindo para a perda de peso. O problema, em sua avaliação, está na ausência de mudanças de comportamento durante o tratamento.

"É uma ferramenta poderosa. E, quando você usa bem a ferramenta, a tendência é conseguir um desfecho bom. Uma ferramenta boa, usada de maneira inadequada, acaba não tendo o mesmo efeito", conta.

Atalla cita dados segundo os quais menos de 10% das pessoas que utilizam esses medicamentos praticam atividade física. O cenário preocupa porque, durante o emagrecimento, a redução do peso não ocorre exclusivamente pela perda de gordura.

"Quando você emagrece, esses estudos têm mostrado que cerca de 40% do que você perde é massa magra. E massa magra não é só músculo, é osso também. É tudo aquilo que não é gordura", explica.

A preocupação está principalmente no que acontece depois da interrupção do tratamento. Sem atividade física, a recuperação do peso pode ocorrer acompanhada de uma composição corporal diferente daquela anterior ao emagrecimento.

"A pessoa perdeu gordura e perdeu músculo. Aí ela recupera. Porque é uma pessoa que não faz atividade física, ela recupera o quê? Gordura", afirma.

Na avaliação de Atalla, ciclos sucessivos de perda e recuperação do peso podem trazer consequências para a preservação da massa muscular e da saúde óssea, duas condições importantes para a autonomia na velhice.

"Quando a pessoa vai ficando nesse efeito sanfona, emagrece, engorda, emagrece, engorda, na verdade ela está com uma qualidade de osso muito ruim e vai perdendo músculo."

O especialista projeta que, sem uma mudança nos hábitos da população, o acesso crescente a esses medicamentos pode ampliar um problema de saúde pública nos próximos anos.

"Daqui a cinco, dez anos, num país pobre como o Brasil, ainda mais que isso vai ser disponibilizado aparentemente cada vez mais barato para muito mais pessoas, eu digo que a gente vai ter muito mais fratura, muito mais queda e um custo muito maior com esses anos de dependência", afirma.

Trata-se de uma projeção do especialista, e não de um resultado já observado. Atalla também reconhece que ainda existem questões sobre a duração dos tratamentos e os efeitos de seu uso prolongado que precisarão ser respondidas ao longo do tempo.

Ele ressalta que a crítica não é aos medicamentos em si, mas à possibilidade de que sejam vistos como substitutos de mudanças no estilo de vida.

"Tem essa coisa de caneta ser coisa de preguiçoso. Não. Ela tem seu uso e é importante. Mas não tem atalho. Tem coisas que não dá para terceirizar."

O brasileiro foi de 10 mil para 3 mil passos por dia, diz Atalla

Para explicar a relação entre o ambiente e o envelhecimento, Atalla recorre a uma comparação entre o comportamento dos brasileiros no fim da década de 1980 e o observado atualmente.

Segundo os números apresentados pelo especialista, naquele período, o brasileiro dava cerca de 10 mil passos por dia. Hoje, essa média seria de aproximadamente 3 mil passos.

A mudança não ocorreu necessariamente porque as pessoas passaram a rejeitar a atividade física, mas porque tarefas cotidianas deixaram de exigir movimento.

"Você tinha que ir ao banco, tinha que levantar para trocar o canal da televisão, levantar para atender o telefone. A gente dava 10 mil passos porque o meio ambiente era assim. Não porque falava: 'Vou ser saudável'", diz.

A redução da movimentação diária representa, segundo seus cálculos, uma diferença de aproximadamente 400 calorias no gasto energético cotidiano.

Ao mesmo tempo, o ambiente alimentar passou por transformações. A oferta de produtos de consumo rápido se expandiu para farmácias, estações de transporte público e outros espaços de circulação.

"O preço da caloria caiu muito, mas é uma caloria pobre, sem nutriente. Porque a caloria com nutriente custa caro. O que é oferecido rapidamente, o tempo inteiro, é uma caloria quase vazia", afirma.

Atalla relaciona essas duas mudanças ao crescimento do excesso de peso. De acordo com os dados citados por ele, em 1989, 13,9% da população brasileira estava acima do peso. Atualmente, o percentual estaria próximo de 70%.

"Você acaba, de um lado, comendo mais e, do outro, gastando muito menos. E vai caminhando para esse problema", diz.

Para ele, a dificuldade de mudar comportamentos também tem uma explicação biológica. Ao longo da evolução humana, o movimento esteve associado à sobrevivência, enquanto a economia de energia era necessária diante da escassez de alimentos.

O ambiente moderno, no entanto, tornou possível reduzir drasticamente o esforço físico.

"Eu tenho um cérebro que é programado para poupar energia, um corpo que foi programado para funcionar melhor com o movimento. E o ser humano foi tão eficiente em tornar esse meio ambiente confortável que hoje eu tenho um ambiente que me leva para o sedentarismo. Ele é perigosamente confortável."

A contradição ajuda a explicar por que recomendar exercícios não é suficiente para alterar o comportamento de uma população inteira.

"É a primeira geração na história da humanidade que vai ter que colocar atividade física de maneira consciente, e não induzida pelo meio ambiente", afirma.

Menos sono, mais calorias e um novo desafio para a longevidade

Outro fator apontado pelo especialista é a redução das horas de sono. Segundo Atalla, o brasileiro dorme, em média, uma hora e vinte minutos a menos do que há quatro décadas. Ele associa a mudança à expansão das possibilidades de entretenimento e à dificuldade crescente de estabelecer limites para o descanso.

"Se você volta no tempo 40 anos, o que tinha para fazer às nove da noite? Você tinha quatro, cinco canais de televisão e, às onze, acabava. Você tinha muito pouco entretenimento", afirma.

O impacto, segundo ele, vai além do cansaço no dia seguinte. Atalla cita dados que relacionam uma noite de sono ruim ao consumo de aproximadamente 350 calorias adicionais e a uma redução de 10% a 15% no movimento. Também aponta consequências sobre o humor, a irritabilidade e a capacidade de aprendizagem. "Isso com uma noite de sono. Agora imagina com a privação de sono constante."

O especialista chama a atenção para a capacidade do organismo de se adaptar a uma rotina de descanso insuficiente, o que pode fazer com que a pessoa deixe de perceber alguns efeitos imediatos da privação.

"Se você começar a dormir seis horas e acordar derrubado, daqui a dois, três meses, dormindo seis horas, vai acordar até que bem. Mas não é porque está acordando bem que está tudo certo. É porque você se adaptou", diz.

Na avaliação dele, a combinação entre sedentarismo, noites mal dormidas, alimentação excessiva, tabagismo e exposição à poluição contribui para acelerar o envelhecimento e comprometer a qualidade dos anos adicionais de vida.

Por que a política de longevidade precisa começar nas cidades?

A experiência de Atalla em Jaguariúna, no interior de São Paulo, entre 2016 e 2017, mudou sua percepção sobre o papel do poder público na promoção da saúde. Naquele período, o especialista conduziu uma intervenção voltada à mudança de hábitos da população. Segundo ele, a iniciativa alcançou 40% dos moradores em um ano.

"Eu aprendi muito mais do que ensinei. E a principal coisa que eu aprendi é que o Brasil tem que ser um país de municípios. É ali que as coisas acontecem", afirma. Um dos episódios que mais marcaram o trabalho foi o encontro com uma mulher que questionou as recomendações de atividade física diante da violência em seu bairro.

"Ela falou: 'Eu sou sua fã, porém você está muito errado. Você está estimulando o movimento aqui, e eu perdi um filho há três meses com uma bala perdida. Minha rua não tem iluminação. Como você quer que eu ande na rua?'" Para Atalla, o relato evidencia uma barreira frequentemente ignorada nas campanhas que responsabilizam exclusivamente os indivíduos por seus hábitos.

"Se você não resolve o problema do meio ambiente, da violência, não adianta. A primeira coisa é segurança. Tem que ser um ambiente seguro." A discussão envolve a forma como as cidades são planejadas, a disponibilidade de espaços públicos, a infraestrutura para caminhadas e a oferta de atividades físicas acessíveis à população.

Em sua visita à Coreia do Sul, Atalla observou a integração desses elementos às políticas de saúde. Segundo ele, áreas de circulação ao longo de um rio em Seul passaram a contar com espaços de caminhada, estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos, incluindo academias, clubes e postos de saúde.

A proposta, conforme o especialista, combina mudanças no ambiente urbano com incentivos para que os cidadãos participem de programas preventivos. Ele cita como exemplo mecanismos que facilitam o acesso a exames preventivos para pessoas engajadas nos programas de qualidade de vida. A lógica, segundo Atalla, é reduzir a necessidade de tratamentos mais caros no futuro.

"Quanto mais tempo de dependência ao final da vida, é um dinheiro que a gente não tem para pagar, seja pessoa física, seja governo. Uma política de saúde pública inteligente seria investir no estilo de vida da população."

O papel das escolas na formação de uma geração mais saudável

A mudança de comportamento, para Atalla, também exige que o estímulo ao movimento comece na infância.

O especialista cita experiências observadas em escolas da Finlândia, onde atividades físicas são incorporadas à rotina de aprendizagem, inclusive em disciplinas tradicionalmente ministradas dentro da sala de aula.

"Aula de matemática ao ar livre, com desenhos das formas na neve na aula de geometria. Além de criar o hábito, você tem o benefício de melhorar a concentração, a aprendizagem. A aula fica mais interessante", conta.

Na Coreia do Sul, ele também conheceu iniciativas para reduzir a dependência de crianças e adolescentes das telas, associando a limitação do uso da internet à oferta de atividades presenciais.

Para ele, restringir o tempo de tela sem disponibilizar alternativas de lazer tende a ser insuficiente.

"Não adianta chegar para uma criança de dez anos e falar que ela não pode brincar com o telefone por três horas. O que ela vai fazer? Não pode ir à rua porque é perigoso, o parque não tem estrutura, a escola não tem quadra."

Atalla defende que o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação atuem de maneira integrada, com políticas que ultrapassem os ciclos eleitorais. "A gente tem que ter uma política de saúde que não seja de governo, seja do estado", afirma.

Na avaliação do especialista, o modelo educacional brasileiro ainda precisa rever o espaço reservado à atividade física, inclusive com propostas que ampliem a participação de crianças com diferentes capacidades e interesses.

Condomínios para 50+ entram no radar

As transformações demográficas também estão abrindo espaço para novos negócios voltados à população com mais de 55 anos. Atalla afirma que vem conversando com empresas sobre a possibilidade de desenvolver um condomínio planejado para estimular hábitos saudáveis e preservar a autonomia dos moradores.

"Todos os dias sonho em montar um condomínio da longevidade, onde a pessoa que mora lá seja induzida a ter tudo isso de uma maneira orgânica", afirma.

A ideia é estruturar um espaço em que atividades físicas, alimentação e convivência social façam parte da rotina, sem depender exclusivamente de decisões individuais.

O especialista visitou um empreendimento voltado a pessoas com mais de 55 anos nos Estados Unidos, mas considera que o modelo poderia ser adaptado para estimular mais movimento. "Eu achei ruim, eu não moraria lá. É maravilhoso, mas, por exemplo, você tem primeiro e segundo andar. Para mim, seria tudo térreo", diz.

Em sua proposta, os carros ficariam estacionados na entrada, enquanto a circulação interna ocorreria prioritariamente a pé ou de bicicleta. As moradias seriam menores e os espaços compartilhados teriam maior importância. Restaurantes, hortas e áreas de convivência seriam outros componentes do projeto, que ainda está em fase de conversas com empresas, segundo o especialista.

A discussão sobre moradia se conecta à questão que orientou sua comparação entre Brasil e Coreia do Sul: não basta ampliar a expectativa de vida se os anos adicionais forem acompanhados por perda de autonomia.

Perguntas frequentes

Quantos anos os brasileiros vivem com algum grau de dependência? +

Os brasileiros passam, em média, os últimos 12 anos de vida com algum grau de dependência, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados por Márcio Atalla. Nesse período, doenças graves ou limitações podem exigir ajuda para atividades básicas.

As canetas emagrecedoras podem prejudicar o envelhecimento saudável? +

As canetas emagrecedoras podem comprometer a preservação da massa muscular e óssea quando usadas sem atividade física e mudança de hábitos, segundo Márcio Atalla. O especialista afirma que estudos indicam que cerca de 40% do peso perdido pode corresponder à massa magra.

Quantos passos o brasileiro dá por dia? +

O brasileiro dá atualmente cerca de 3 mil passos por dia, ante aproximadamente 10 mil no fim da década de 1980, segundo números apresentados por Márcio Atalla. De acordo com os cálculos do especialista, a redução representa uma diferença de cerca de 400 calorias no gasto energético diário.

Como a falta de sono afeta o peso e a saúde? +

Uma noite de sono ruim pode levar ao consumo de cerca de 350 calorias adicionais e reduzir o movimento entre 10% e 15%, segundo dados citados por Márcio Atalla. O especialista também associa a privação de sono a alterações no humor, na irritabilidade e na capacidade de aprendizagem.

Por que cidades seguras são importantes para a longevidade? +

Cidades seguras facilitam a prática de atividade física e ajudam a preservar a autonomia da população, afirma Márcio Atalla. Segundo o especialista, iluminação, espaços públicos, infraestrutura para caminhadas e atividades acessíveis são necessários para que recomendações de saúde possam ser adotadas.

Qual deve ser o papel das escolas no envelhecimento saudável? +

As escolas devem incorporar mais movimento à rotina das crianças, segundo Márcio Atalla. O especialista cita experiências da Finlândia que integram atividades físicas às aulas e defende uma atuação conjunta dos ministérios da Saúde e da Educação no Brasil.

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