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Por que a Fundação Dom Cabral aposta na longevidade para transformar os negócios

Desde 2020, escola de negócios produz estudos sobre envelhecimento e busca levar a discussão para a formação de executivos, do recrutamento ao desenvolvimento de produtos e serviços

Michelle Queiroz, coordenadora da frente de longevidade da Fundação Dom Cabral: Pesquisas sobre etarismo, diversidade geracional e novas demandas de consumo buscam ampliar a presença do tema nas decisões corporativas

Michelle Queiroz, coordenadora da frente de longevidade da Fundação Dom Cabral: Pesquisas sobre etarismo, diversidade geracional e novas demandas de consumo buscam ampliar a presença do tema nas decisões corporativas

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 16 de outubro de 2026 às 05h22.

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“Como que vamos nos mobilizar para uma transformação tão importante se sequer sabemos que ela está em curso?”, questiona Michelle Queiroz, professora da Fundação Dom Cabral. A transformação à qual ela se refere é o envelhecimento da população — uma mudança que, na avaliação da entrevistada, exige das empresas respostas que vão da contratação de profissionais à oferta de produtos e serviços.

Desde 2020, a escola de negócios conta com uma frente de conhecimento dedicada à longevidade, da qual Queiroz é coordenadora. O propósito é estudar como essa mudança afeta pessoas, organizações e sociedade e levar o conhecimento à formação de executivos, para que o tema passe a influenciar as decisões tomadas dentro das empresas.

A atuação começou com a produção de estudos em três pilares: pessoas, negócios e sociedade. No primeiro, estão questões como a exclusão de profissionais mais velhos nos processos seletivos e a convivência entre gerações no trabalho. No segundo, as demandas de consumo e as possibilidades de desenvolver produtos e serviços. O terceiro reúne diversidade etária, enfrentamento do preconceito de idade e o papel do investimento social das empresas.

A proposta não se restringe a preparar as organizações para atender quem já passou dos 50 ou dos 60 anos, mas a garantir que as demandas de quem se prepara para o futuro também sejam atendidas.

Queiroz diferencia a economia prateada, associada ao consumo da população mais velha, da economia da longevidade, que também inclui escolhas feitas ao longo da vida para o próprio envelhecimento. “Se eu hoje estou buscando um plano de previdência para pensar na minha aposentadoria futura, isso é economia da longevidade”, afirma.

Nos negócios, Queiroz identifica três formas de responder a essas demandas. A primeira reúne empresas que atendem diferentes faixas etárias e adaptam parte de seus produtos, serviços ou experiências para consumidores mais velhos. Ela cita o caso de um banco que criou um atendimento presencial específico para clientes com mais de 60 anos, na contramão do esforço do setor para transferir o movimento das agências para os canais digitais.

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A segunda é formada por empresas que nascem para atender exclusivamente essa população, como planos de saúde voltados aos 60+ e instituições de longa permanência, que oferecem moradia e cuidados para pessoas idosas. A terceira parte dos próprios consumidores: diante da falta de produtos adequados às suas necessidades, eles passam a empreender.

“Como o mercado não responde, eles vão lá e criam as suas próprias soluções”, afirma Queiroz.

A identificação de oportunidades comerciais, porém, não significa que as soluções cheguem a todos. Ao tratar das instituições de longa permanência, a entrevistada aponta a distância entre o custo de uma vaga particular e a capacidade de pagamento de boa parte da população. Para quem depende de outras alternativas, a oferta também é uma barreira. “As filantrópicas e as públicas não dão conta de atender a demanda”, diz.

As barreiras no mercado de trabalho

Além de olhar para o consumidor, a frente da Fundação Dom Cabral examina como as empresas lidam com o envelhecimento dos próprios profissionais. Nesse caso, segundo Queiroz, a primeira barreira aparece antes da contratação: ela afirma que os estudos já identificam exclusão em processos seletivos a partir dos 50 anos.

Para quem está empregado, os desafios atravessam a convivência entre gerações e chegam às regras que determinam o momento de deixar uma organização. A entrevistada questiona políticas que estabelecem a saída apenas pela idade, sem considerar as condições de quem pretende continuar trabalhando.

“Nós ainda temos várias empresas que estipulam: ‘Olha, se você tem 65 anos, você tem que sair e acabou’”, afirma.

Na abordagem apresentada por Queiroz, a preparação para a aposentadoria precisa dar espaço também à discussão sobre transições de carreira. Sair de uma empresa não significa necessariamente encerrar a vida profissional: pode representar uma mudança de atividade ou a busca por outra forma de trabalhar.

As condições para fazer essa escolha, contudo, variam. Quem acumulou recursos pode procurar uma ocupação por interesse ou propósito. Para quem não tem segurança financeira, continuar trabalhando é uma necessidade.

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“Às vezes, a renda é o principal motivador da continuidade do trabalho”, diz. “E nós não estamos dando oportunidade para isso acontecer.”

Dentro das organizações, os estudos também discutem práticas para aproximar profissionais de diferentes idades, como mentorias e grupos de trabalho entre gerações. A proposta é criar espaços de colaboração, em vez de tratar as diferenças apenas como fonte de conflito.

A desigualdade também envelhece

O terceiro eixo da FDC Longevidade leva a discussão para a sociedade e para o investimento social das empresas. Uma das pesquisas relaciona essa atuação à diversidade, com recortes sobre pessoas negras, pessoas com deficiência e a população LGBTQIA+.

“A idade é o único marcador universal que nos conecta”, afirma Queiroz. Isso não significa, ressalta, que as condições de envelhecimento sejam iguais.

Entre as diferenças que ela destaca está a responsabilidade pelo cuidado. A entrevistada chama atenção para a pressão sobre mulheres que acompanham filhos, pais e outros familiares ao longo da vida, muitas vezes com pouco espaço para as próprias necessidades. “Isso tira espaço de autocuidado dessa mulher”, diz.

Queiroz usa a própria rotina como exemplo da chamada geração sanduíche, formada por pessoas que cuidam simultaneamente de filhos e de familiares mais velhos. Ela relata dividir a atenção entre o filho de 11 anos e o pai de 75, ambos com demandas de acompanhamento e consultas.

Nesse contexto, viver mais e viver com qualidade não são questões equivalentes. Na avaliação da entrevistada, é preciso considerar como a carga de cuidado afeta a possibilidade de uma mulher cuidar da própria saúde e se preparar para o envelhecimento.

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A renda impõe outro limite. A especialista inclui saúde, aprendizagem e segurança financeira entre as dimensões que deveriam ser trabalhadas ao longo da vida, mas reconhece que a recomendação encontra pouco espaço quando a preocupação imediata é garantir alimentação e pagar as despesas do mês.

“Onde é que entra essa pauta?”, questiona, ao descrever a situação de quem está lutando para sobreviver. Para ela, a preparação para a longevidade depende também de políticas públicas e da atuação de empresas e organizações da sociedade civil que permitam ir além das necessidades mais urgentes.

É nesse ponto que o investimento social entra na agenda da Fundação. Os estudos abordam o direcionamento de recursos para o envelhecimento e os mecanismos de incentivo fiscal voltados à área.

Da pesquisa à formação de gestores

Para levar essas discussões às decisões empresariais, a Fundação incorporou uma disciplina de longevidade ao seu programa de desenvolvimento de executivos. Também realizou um evento sobre o tema no mestrado e disponibiliza pesquisas gratuitamente.

Segundo Queiroz, a expectativa é que os participantes dos programas usem esse conhecimento para rever práticas nas organizações em que trabalham. A formação não se restringe, portanto, a apresentar a mudança demográfica, mas procura conectá-la a questões como seleção de profissionais, desenvolvimento de produtos e investimento social.

“É assim que acreditamos que podemos, dentro desse espaço que é uma escola de negócios, fomentar conhecimento e colocar esse conhecimento nas nossas soluções educacionais”, afirma.

Ao avaliar a última década, a entrevistada reconhece o surgimento de mais organizações da sociedade civil, programas públicos e iniciativas empresariais dedicados à população mais velha.

“O debate cresceu. Antes, contávamos no dedo a quantidade de empresas anunciando programas e ações específicas para a população idosa”, diz. Sua avaliação sobre o alcance dessas mudanças, porém, é menos favorável. “Mas, perto do tamanho do nosso país, ainda é muito pouco.”

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