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Em Saquarema, campeonato global de surfe transforma resíduos em proteção costeira

Programa de economia circular da WSL reutiliza materiais dos eventos para preservar a restinga da Praia de Itaúna desde 2019 e ganha escala na edição deste ano

Em 2025, cerca de três toneladas de resíduos foram coletadas durante a competição  (Divulgação)

Em 2025, cerca de três toneladas de resíduos foram coletadas durante a competição (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 3 de maio de 2026 às 17h00.

À primeira vista, a lona que serve de estrutura para um campeonato global de surfe pode parecer um descarte inevitável. Mas em Saquarema, no litoral do Rio de Janeiro, ela vira mourão de proteção de restinga.

A transformação do resíduo do evento em barreira contra erosão costeira é o centro de um programa de economia circular que a World Surf League (WSL) vem apostando no Brasil desde 2019 e que ganha escala na edição deste ano do Rio Pro, etapa do circuito mundial realizada na Praia de Itaúna.

A restinga é um ecossistema frágil e ao mesmo tempo essencial para o equilíbrio climático: age como estabilizador natural das dunas, protege o solo da erosão e abriga espécies endêmicas.

É justamente esse ambiente que os mourões produzidos a partir das lonas ajudam a preservar. A meta, segundo os organizadores, é cobrir pelo menos um quilômetro de vegetação costeira.

Mas a lona é só o começo. O programa de upcycling da WSL no Brasil já produziu mochilas, lixeiras, bancos de praça e abrigos de pontos de ônibus a partir de materiais descartados nos eventos.

Abraçadeiras de nylon viram quilhas de prancha e raspadores de parafina, com o objetivo de conectar o ciclo do resíduo diretamente à prática do surfe.

Na edição de 2025 do Rio Pro, os resultados deram escala ao modelo: cerca de três toneladas de resíduos foram coletadas durante a competição, com índice de reaproveitamento de 99%.

Segundo a marca, a iniciativa evitou a emissão de aproximadamente 3 mil kg de CO2 e gerou economia estimada em mais de 12 mil kWh de energia. Vidro, lonas, copos de papel e plásticos entraram no ciclo de reaproveitamento.

E em 2026, a expectativa é dar continuidade e escala a esse modelo, com metas de expansão das ações de circularidade e preservação costeira.

Para Ivan Martinho, diretor da WSL no Brasil, o objetivo é que o impacto não seja pontual. "O projeto é fruto de um compromisso contínuo com o meio ambiente, sempre buscando soluções que tenham utilidade prática para as comunidades locais", afirma.

Por que Itaúna virou laboratório de sustentabilidade no surfe

A escolha de Saquarema como laboratório dessa agenda não éà toa. A Praia de Itaúna tem uma das ondas mais potentes do Brasil e é palco fixo do circuito mundial, o que garante retorno anual ao mesmo ecossistema e permite pensar em legado e impacto de longo prazo.

Além das ações no local, o modelo se replica em etapas do Circuito Banco do Brasil de Surfe, que percorre cidades como Salvador, Garopaba, São Sebastião, Natal, Torres e Imbituba.

Em cada uma, cooperativas locais participam da gestão de resíduos e mutirões de limpeza de praia são realizados em paralelo às competições. Escolas públicas das regiões também integram o programa por meio de atividades educativas e de conscientização.

O impacto econômico também entra na equação da agenda de sustentabilidade. Em 2025, o Rio Pro movimentou cerca de R$ 179 milhões e gerou mais de 6 mil empregos em Saquarema.

A estimativa é que os números se repitam neste ano. Para a marca, o modelo é prova de que eventos esportivos podem e devem ser vetores de desenvolvimento local sem abrir mão de práticas ambientais rigorosas.

No fim, o surfe depende da saúde do oceano. Sem onda, não há esporte. Cuidar do ecossistema se torna questão de sobrevivência.

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