ESG

Oferecimento:

LOGO SITE AFYA
LOGO SITE PEPSICO

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Brasil quer liderar a bioeconomia, mas biodiversidade ainda é prioridade para apenas 8% das empresas

Soluções baseadas na natureza podem responder por até 30% da redução das emissões até 2050: “Hoje, não se pode mais limitar o impacto de uma empresa ao carbono”, diz diretora do CEBDS

Amazônia concentra parte estratégica da biodiversidade brasileira, hoje no centro das discussões sobre clima, bioeconomia e financiamento verde (Leandro Fonseca /Exame)

Amazônia concentra parte estratégica da biodiversidade brasileira, hoje no centro das discussões sobre clima, bioeconomia e financiamento verde (Leandro Fonseca /Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 22 de maio de 2026 às 13h30.

Enquanto o Brasil tenta transformar a biodiversidade em motor de desenvolvimento, inovação e competitividade, o ativo natural mais rico do país ainda ocupa espaço limitado nas salas de reunião corporativas.

Segundo estudo da Amcham, a agenda aparece como relevante para apenas 8% das empresas brasileiras, atrás da inovação, governança, tecnologia e gestão de resíduos.

Neste Dia Mundial da Biodiversidade, celebrado em 22 de maio, o contraste ganha peso em um país que abriga cerca de 15% da biodiversidade mundial e busca liderar a bioeconomia e o combate à crise climática.

Se por um lado investidores, regulações e o mercado internacional começam a tratar natureza como parte econômica e financeira, a maioria do setor privado ainda concentra sua estratégia ESG apenas em emissões de CO2 e descarbonização.

“Hoje, não dá mais para limitar o impacto de uma empresa à métrica de carbono. Clima e natureza são dois lados da mesma moeda”, afirma Juliana Lopes, diretora de Natureza e Sociedade do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), à EXAME. 

Nos últimos anos, a agenda climática avançou mais rapidamente nos negócios impulsionada por métricas globais consolidadas, pressão de investidores e metas de descarbonização. A biodiversidade, porém, ficou para trás e em parte porque seus impactos e dependências são mais difíceis de mensurar.

“Biodiversidade é multifatorial e local”, resume Lopes. Diferentemente do carbono, que funciona como uma métrica global e comparável, os impactos sobre a natureza variam de acordo com cada território e atividade econômica.

Natureza entra no radar econômico

Por outro lado, esse cenário começa a mudar rapidamente. Na Europa, novas regras de reporte corporativo passaram a exigir divulgação de riscos ligados também à natureza e à biodiversidade. Já a TNFD, iniciativa internacional voltada à divulgação de riscos relacionados à natureza, surge como uma espécie de equivalente da TCFD para a agenda ambiental além do carbono.

Os avanços também ganham força no Brasil. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a adotar normas internacionais de reporte de sustentabilidade alinhadas ao IFRS e ao ISSB, incorporando riscos ligados ao clima e à natureza nas discussões corporativas.

Para a diretora do CBDES, essa mudança é especialmente relevante para uma economia altamente dependente dos ecossistemas naturais. 

“Os serviços ecossistêmicos sustentam nossa macroeconomia”, afirma. "Grande parte das atividades econômicas brasileiras depende de um regime de chuvas estável, que depende diretamente da integridade de biomas como Amazônia e Cerrado", complementa.

Além da pressão regulatória, cresce também a percepção de oportunidade econômica.

Estimativas apontam que soluções baseadas na natureza podem responder por até 30% das reduções de emissões necessárias até 2050, impulsionando mercados ligados à restauração florestal, agricultura regenerativa, créditos de carbono, bioinsumos e cadeias da sociobiodiversidade.

O desafio de financiar a bioeconomia

O mercado de carbono aparece hoje como um dos principais mecanismos para remunerar soluções baseadas na natureza, incluindo conservação, restauração florestal e uso sustentável de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, ganham espaço instrumentos complementares, como pagamento por serviços ambientais (PSA), bonds de biodiversidade e propostas internacionais voltadas à conservação, como o próprio Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), iniciativa encabeçada pelo Brasil na presidência da COP30.

Entre os gargalos, está o financiamento. Segundo estimativas internacionais, o déficit global de recursos para biodiversidade varia entre US$ 400 bilhões e US$ 700 bilhões por ano.

Nesse contexto, o governo lançou recentemente o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) com um aporte de R$ 350 milhões, com a proposta de transformar biodiversidade em vetor de desenvolvimento econômico e atração de investimentos.

Uma das apostas para destravar capital privado é o o Ecoinvest, iniciativa de blended finance ligada ao Plano de Transformação Ecológica.

O quarto leilão do programa, baseado nas diretrizes do PNDBio, buscou ampliar o financiamento de projetos ligados à bioeconomia e turismo sustentável na Amazônia, combinando recursos públicos, privados e capital internacional.

Desde 2023, o Ecoinvest já mobilizou mais de R$ 179 bilhões para projetos verdes.

Apesar dos avanços, especialistas avaliam que a biodiversidade ainda enfrenta um desafio central: sair do discurso ambiental e entrar definitivamente na agenda econômica.

Para o CEBDs, o ritmo da transformação é determinado por três C's: convicção, conformidade e competitividade. Na avaliação de Juliana, parte das empresas avança por propósito, outras por pressão regulatória e algumas apenas quando o mercado e os concorrentes começam a se mover.

A tendência é que a biodiversidade deixe de ser apenas uma pauta ambiental e passe a ocupar um espaço cada vez maior na estratégia, financiamento e competitividade das empresas.

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasBiodiversidadePreservação ambiental

Mais de ESG

Brasil pode enfrentar calor extremo por um terço do ano até 2075

90% dos projetos renováveis foram mais baratos que usinas fósseis em 2025

Diversidade: direitos, inovação e estratégia de negócio

Assim como Londres e Nova York, Belém terá Semana do Clima incluída no calendário anual