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O Dia da Terra de 2026, impulsionado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, é um convite direto às lideranças empresariais para uma nova economia (Freepik)
Redação Exame
Publicado em 22 de abril de 2026 às 09h30.
Última atualização em 22 de abril de 2026 às 09h38.
*Por Danielly Mello Freire, do Pacto Global Rede Brasil
O Dia da Terra deste ano encontra o Brasil em uma posição geopolítica de grande relevância e complexidade. Fomos sede da COP30 e, simultaneamente, permanecemos como palco de desafios e oportunidades singulares que a emergência climática impõe ao Sul Global.
A presidência brasileira da Conferência do Clima lançou seus “mapas do caminho”, documentos que miram pontos nevrálgicos como o afastamento progressivo dos combustíveis fósseis e a reversão e o combate ao desmatamento.
Contudo, para que a topografia real desses mapas se materialize, é fundamental alinhar uma escala temporal ambiciosa para o atingimento do Net Zero até 2050 e, sobretudo, reconhecer a interconexão das questões climáticas em uma única e intrincada multicrise planetária.
O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 já sinaliza uma mudança importante: o foco intenso na ação climática sistêmica.
A conversa, finalmente, se expandirá para além das toneladas de carbono ou hectares desmatados e se tornará um debate sobre a urgência de reparar e fortalecer nossa relação com o ecossistema global.
Enquanto o setor empresarial assimila os desdobramentos da COP em Belém, buscando formas de integrar as novas diretrizes, é essencial promover um diálogo que traga clareza ao reposicionamento global da pauta climática e ambiental.
Surge, então, a reflexão: como as empresas brasileiras podem se preparar para navegar esses mares, alinhando-se aos planos de navegação que serão propostos pela UNFCCC em conjunto com a Presidência da COP30?
Para que os mapas do caminho da COP30 se integrem de forma estratégica — com a descarbonização industrial caminhando lado a lado com a proteção florestal —, é preciso um olhar sistêmico. A ciência dos limites planetários, dos quais já extrapolamos sete das nove fronteiras, nos mostra, de forma inequívoca, que a crise humanitária não é dissociável da multicrise planetária.
Somos o principal vetor dessa extrapolação, e as populações que menos emitem são justamente as que primeiro sentem a sede e a fome dessa desordem. Por isso, faz-se cada vez mais necessário um olhar atento e orientado para a mudança.
Isso nos convida, como sociedade, a repensar economias e a reparar a relação humana com o clima para garantir justiça e sustentabilidade. Para o setor privado brasileiro, isso representa uma oportunidade estratégica, alinhada à agenda de negócios que já está posta na mesa.
Para que a transição energética seja verdadeiramente efetiva e justa, é crucial garantir que o afastamento dos combustíveis fósseis não deixe para trás comunidades extrativistas e periferias urbanas. Uma transição que resulte em uma economia verde excludente representaria um retrocesso nos objetivos de desenvolvimento sustentável.
O dia a dia dos pesquisadores de soluções para abastecimento de água potável em comunidades vulneráveis reforça a urgência de que a adaptação seja priorizada com a mesma intensidade da mitigação — e de que o setor privado pode atuar como agente transformador nessa frente.
É fundamental que a zeragem do desmatamento caminhe lado a lado com soluções que garantam a segurança hídrica da agricultura familiar e protejam as comunidades tradicionais e indígenas.
Por isso, a virada de chave para 2026 convida o setor privado a ir além do apoio a debates, tornando-se protagonista na execução de soluções adaptativas e de resiliência climática.
Felizmente, os ventos já sopram nessa direção. Iniciativas como o Movimento Ambição Net Zero, do Pacto Global da ONU, agora incluem em seus compromissos públicos a exigência de que a estratégia climática corporativa integre, de forma indissociável, uma transição de operações de baixo carbono justa.
Trata-se do reconhecimento de que a descarbonização não pode ser um processo puramente técnico; ela precisa ser, acima de tudo, um processo de reparação social.
E aqui permito-me evocar a sabedoria que emerge das confluências. O NAC (Núcleo de Ações Coletivas em Justiça Climática e Transição Justa), principal iniciativa do Pacto Global com o setor privado para esse fim, traz em sua própria identidade visual o desenho da confluência dos rios.
Este não é um mero detalhe estético. É o saber ancestral disseminado pelo mestre quilombola Nego Bispo, que nos ensina que os rios não se encontram para se sobrepor, mas para se fortalecer e seguir em frente, partilhando o leito.
As empresas brasileiras estão todas convidadas a integrar o traçado da redução de emissões com o curso d’água do combate à desigualdade. A plena efetividade da estratégia de desmatamento zero será alcançada quando confluir com a estratégia de justiça climática, evitando que esforços isolados se diluam no tempo.
Ou seja, é necessário que todos atuemos em conjunto.
O Dia da Terra de 2026, impulsionado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, é um convite direto às lideranças empresariais para o redesenho de economias, sistemas e modelos sociais inteiros.
Que possamos utilizar esses mapas para construir um plano de navegação no qual a economia circular, a agroecologia e os projetos baseados na natureza não sejam apêndices da pauta climática, mas sim direcionadores do destino da confluência para um planeta justo e habitável.
*Danielly Mello Freire é gerente de Clima do Pacto Global da Rede Brasil