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O Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas localizadas a até 500 metros de rios e outros cursos d'água em 40 anos (Lucas Ninno/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 8 de outubro de 2026 às 16h28.
O Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas a até 500 metros de rios entre 1985 e 2025, segundo o levantamento MapBiomas divulgado nesta quinta-feira, 8. No período, a agropecuária cresceu 110% e passou a ocupar 48,9% do bioma, enquanto o Matopiba concentrou 65,7% da perda ocorrida na última década.
O Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas localizadas a até 500 metros de rios e outros cursos d'água entre 1985 e 2025. A redução representa 26,9% de toda a perda de cobertura natural registrada no bioma nas últimas quatro décadas e coloca em evidência a transformação de áreas importantes para a proteção dos recursos hídricos.
Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada nesta quinta-feira, 8, que analisa as mudanças na cobertura e no uso da terra no Brasil ao longo de 41 anos.
No período, o Cerrado perdeu, em termos líquidos, 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa, uma redução de 34%. Ao mesmo tempo, a área destinada à agropecuária cresceu 110% e passou a ocupar quase metade do bioma.
A redução da vegetação também atingiu as faixas mais próximas dos cursos d'água. Em áreas situadas a até 30 metros dos rios, a cobertura nativa diminuiu 13,9% desde 1985. Em 2025, pastagens e lavouras ocupavam juntas 18,2% dessa faixa.
A transformação dessas áreas pode ter consequências que vão além da perda de biodiversidade. A vegetação nas margens dos rios exerce funções relacionadas à conservação do solo, à retenção de sedimentos e à manutenção das condições dos cursos d'água.
"A vegetação próxima aos rios ajuda a proteger o solo, reduzir a erosão e evitar que sedimentos cheguem aos cursos d’água. A redução dessa cobertura pode aumentar o assoreamento, afetar a qualidade e a disponibilidade da água e deixar a paisagem mais vulnerável a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas", explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas.
Segundo a pesquisadora, a análise considerou todos os rios e cursos d'água mapeados, independentemente da largura, para identificar as transformações no uso do solo em suas margens.
Em 2025, o Cerrado ainda mantinha 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa a até 500 metros dos rios. Essa área correspondia a 36,7% de toda a cobertura natural remanescente do bioma.
As bacias do Alto Tocantins e do Araguaia registraram as maiores reduções de vegetação nativa na faixa de até 500 metros dos cursos d'água.
No Alto Tocantins, a cobertura natural nessas áreas passou de 9,7 milhões de hectares, em 1985, para 6,8 milhões em 2025. No Araguaia, caiu de 7,8 milhões para 5,1 milhões de hectares.
Juntas, as duas bacias perderam aproximadamente 5,7 milhões de hectares, o equivalente a 41% da redução de vegetação nativa registrada nas proximidades dos rios de todo o Cerrado.
A bacia do Médio São Francisco também apresentou redução expressiva, de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares no mesmo intervalo.
O cenário ganha relevância pela função hídrica do Cerrado, onde nascem rios de seis grandes bacias hidrográficas brasileiras.
Para Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas, acompanhar essas mudanças permite compreender melhor as condições das áreas de preservação permanente (APPs), espaços protegidos pela legislação ambiental, e das matas ciliares, formações vegetais presentes nas margens dos cursos d'água.
"Avaliar as mudanças na cobertura e no uso da terra no entorno imediato dos rios, que são áreas prioritárias para a conservação, é essencial para entender a condição das nossas áreas de preservação permanente (APPs) e das matas ciliares, fornecendo subsídios valiosos para orientar políticas de conservação dos recursos hídricos e potencializar a construção de corredores ecológicos em cada bacia", afirma.
A redução da vegetação nativa ocorreu paralelamente à expansão das atividades agropecuárias.
Em 1985, pastagens e áreas agrícolas ocupavam 46,7 milhões de hectares do Cerrado. Em 2025, essa extensão chegou a 97,9 milhões de hectares, crescimento de 110%.
Com isso, a agropecuária passou a ocupar 48,9% dos 200,4 milhões de hectares do bioma, enquanto a vegetação nativa ficou restrita a 49,6% de sua extensão.
Entre os tipos de cobertura natural, a formação savânica foi a mais afetada, com redução de 34 milhões de hectares, ou 41% da área registrada em 1985.
A agricultura, isoladamente, avançou 24,7 milhões de hectares nas últimas quatro décadas e alcançou 29,7 milhões de hectares em 2025. Nesse mesmo ano, o Cerrado concentrava 49,2% de toda a área cultivada com soja no Brasil.
Os dados mostram, porém, que a dinâmica de ocupação do território mudou ao longo do tempo.
Até 2005, a principal transformação observada em todo o bioma era a substituição da vegetação nativa por pastagens. Nos anos mais recentes, a expansão agrícola passou a apresentar padrões distintos entre as regiões.
Nos estados do Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, predominou a conversão direta de vegetação nativa em agricultura entre 2015 e 2025.
Nos demais estados com presença do Cerrado, por outro lado, ganhou espaço a transformação de antigas pastagens em lavouras.
Essa diferença aparece nos números: 81,4% das conversões de vegetação nativa para agricultura no período ocorreram no Matopiba. Já 78% das transições de pastagem para agricultura foram registradas fora da região.
Embora o desmatamento tenha ocorrido em diferentes regiões do Cerrado ao longo das últimas quatro décadas, os dados indicam uma concentração crescente das perdas no Matopiba.
Entre 1985 e 2025, a região respondeu por 37,3% da redução de vegetação nativa do bioma. Quando a análise considera apenas a última década, de 2015 a 2025, sua participação sobe para 65,7%.
Nesse intervalo mais recente, o Cerrado perdeu 10,5 milhões de hectares de vegetação nativa, dos quais aproximadamente 6,9 milhões estavam nos estados do Matopiba.
A região, ao mesmo tempo, ainda concentrava 47,7% de toda a vegetação nativa remanescente do Cerrado em 2025.
Os números evidenciam uma diferença na dinâmica territorial do bioma: enquanto parte das áreas agrícolas se expande sobre pastagens já existentes, no Matopiba a abertura de novas áreas de cultivo permanece associada principalmente à conversão de vegetação nativa.
As mudanças na cobertura do Cerrado também aparecem na escala municipal.
Em 1985, a agropecuária era a cobertura predominante em 41% dos municípios com área no bioma. Em 2025, essa proporção chegou a 61%. Ao todo, 301 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como principal cobertura de seu território inserido no Cerrado.
O número de municípios com menos de 20% de cobertura natural subiu de 154 para 381 no período. Em sentido contrário, aqueles que mantinham mais de 80% de vegetação nativa diminuíram de 624 para 225.
As diferenças também são observadas entre os estados. Dos 13 com território no Cerrado, apenas seis mantinham mais da metade de sua área no bioma coberta por vegetação nativa em 2025.
O Piauí apresentava a maior proporção, de 78,2%, enquanto São Paulo registrava a menor, de 14,7%.
Na divisão fundiária, 77,7% da perda de vegetação nativa ocorreu em áreas privadas com registro georreferenciado, ou seja, com limites territoriais identificados por coordenadas geográficas.
Já as áreas protegidas ou de uso coletivo, que incluem terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, ocupavam 7,5% do Cerrado em 2025, mas reuniam 13,9% da vegetação nativa remanescente.
Nesses territórios, a perda acumulada desde 1985 foi de 500 mil hectares.
Além da expansão agropecuária, o levantamento identificou alterações em outros tipos de cobertura e uso do solo.
Os campos alagados e áreas pantanosas perderam 1,4 milhão de hectares entre 1985 e 2025, redução de 18%. Do total convertido, 76,2% passou a ser ocupado por pastagens ou agricultura.
A diminuição desse tipo de cobertura ocorreu em 69,2% dos municípios do Cerrado.
A silvicultura, atividade de cultivo de árvores para fins produtivos, também ampliou sua presença. Sua área passou de 600 mil para 3,9 milhões de hectares, crescimento de 511% nas quatro décadas, acima da variação percentual registrada na agricultura, de 490%.
Somente desde 2005, a extensão destinada à silvicultura mais que dobrou. No Paraná, a atividade já ocupava 23,7% da porção estadual inserida no Cerrado, a maior proporção entre os estados do bioma.
A mineração teve expansão de 516% desde 1985 e alcançou 61.743 hectares em 2025. Das áreas convertidas para essa atividade, 69,6% eram anteriormente cobertas por vegetação nativa.
A atividade também apresenta concentração territorial: dez municípios respondiam por 68% de toda a área minerada do Cerrado, com destaque para Nossa Senhora do Livramento e Poconé, ambos em Mato Grosso.
Já a área urbanizada chegou a um milhão de hectares, acréscimo de 600 mil hectares em relação a 1985. Brasília concentrou 6,8% desse aumento.
Considerando a principal cobertura anterior das novas áreas urbanizadas em cada município, a vegetação nativa apareceu como origem predominante em 45,3% deles, seguida pelas pastagens.
O levantamento também identificou a ocupação de áreas do Cerrado por empreendimentos de geração de energia solar e eólica.
Em 2025, as usinas fotovoltaicas ocupavam 14.215 hectares no bioma, o equivalente a 31,9% de toda a área destinada a essas instalações no Brasil.
Desse total, 5.964 hectares estavam cobertos por vegetação nativa em 2016.
Os parques eólicos, por sua vez, ocupavam 2.180 hectares do Cerrado em 2025, correspondentes a 7,6% da área nacional dessas instalações. Desse total, 1.224 hectares tinham cobertura nativa em 2016.
Os dados mostram que a expansão da infraestrutura de geração renovável também ocorreu, em parte, sobre áreas anteriormente ocupadas por vegetação natural, acrescentando outra dimensão às transformações do uso da terra no bioma.
O Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas localizadas a até 500 metros de rios e outros cursos d'água entre 1985 e 2025, segundo o MapBiomas. A redução equivale a 26,9% de toda a perda de cobertura natural do bioma no período.
As bacias do Alto Tocantins e do Araguaia perderam juntas cerca de 5,7 milhões de hectares de vegetação nativa perto dos rios, segundo o MapBiomas. O volume representa 41% da redução registrada nessas áreas em todo o Cerrado.
A perda dessa vegetação pode aumentar o assoreamento, afetar a qualidade e a disponibilidade da água e ampliar a vulnerabilidade a secas e chuvas intensas, explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas. A cobertura também ajuda a proteger o solo, reduzir a erosão e reter sedimentos.
A área ocupada por pastagens e agricultura cresceu 110%, de 46,7 milhões de hectares em 1985 para 97,9 milhões em 2025, segundo o MapBiomas. A agropecuária passou a ocupar 48,9% do Cerrado.
O Matopiba respondeu por 65,7% da perda de vegetação nativa do Cerrado entre 2015 e 2025, segundo o levantamento. Dos 10,5 milhões de hectares perdidos na década, cerca de 6,9 milhões estavam em Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A agropecuária tornou-se a cobertura predominante em 61% dos municípios com área no Cerrado em 2025, ante 41% em 1985, segundo o MapBiomas. Ao todo, 301 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como principal cobertura de sua área no bioma.