A taxa de desemprego recuou para 5,2% em novembro de 2025, o menor nível em 25 anos; enquanto os homens praticamente retomaram o patamar de participação observado antes da pandemia, as mulheres seguem em desvantagem (Hero Images/Getty Images)
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Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 19h13.
Ampliar a participação feminina no mercado de trabalho pode se tornar um dos principais motores de crescimento econômico do Brasil nos próximos anos. A avaliação é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que estima que reduzir pela metade a diferença de participação entre homens e mulheres — hoje em torno de 20 pontos percentuais — até o ano de 2033 poderia adicionar cerca de 0,5 ponto percentual ao crescimento anual do País nesse período.
O diagnóstico publicado na última semana surge em um momento de recuperação do mercado de trabalho. A taxa de desemprego recuou para 5,2% em novembro de 2025, o menor nível em 25 anos. Ainda assim, enquanto os homens praticamente retomaram o patamar de participação observado antes da pandemia, as mulheres seguem em desvantagem. Para o FMI, num contexto de envelhecimento populacional, ampliar a força de trabalho é condição relevante para sustentar o ritmo de expansão da economia.
Para a economista Lorena Hakak, cofundadora e presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam), o principal entrave é estrutural. “Um dos principais entraves é a elevada alocação de tempo que as mulheres dedicam às atividades de cuidado e aos afazeres domésticos”, pontua.
Segundo ela, as brasileiras continuam sendo as principais responsáveis por crianças, idosos e pessoas dependentes, o que limita a disponibilidade para empregos formais, com jornadas extensas e maior remuneração. Nas grandes cidades, acrescenta, o tempo de deslocamento agrava ainda mais essa restrição.
Bolsa Família
O debate ganha contornos adicionais quando envolve o Bolsa Família. O relatório do FMI aponta que o programa não reduz sistematicamente a participação feminina no mercado de trabalho, exceto entre mães com filhos de até seis anos. Para Hakak, o resultado está ligado à divisão desigual do cuidado e à insuficiência de creches.
“No caso de mães com filhos de até seis anos, a insuficiência de vagas em creches e a baixa oferta de serviços de cuidado em tempo integral ampliam essa restrição”, diz. A economista ressalta que, quando há redução da oferta de trabalho, ela tende a ser pequena e concentrada em ocupações informais, geralmente de menor qualidade.
Outro fator relevante é a diferença salarial. Segundo o FMI, as mulheres recebem, em média, 22% menos do que os homens, mesmo após o controle por escolaridade, idade, raça, setor e cargo. Lorena Hakak observa que embora tenham mais anos de estudo, as mulheres permanecem concentradas em ocupações menos remuneradas ou com maior flexibilidade de horário.
“Essa segmentação ocupacional contribui para a persistência do diferencial salarial”, afirma. Além disso, elas seguem sub-representadas em cargos de liderança e posições de poder, onde os salários são mais elevados.
Para o organismo internacional, medidas como a ampliação do acesso a creches e serviços de cuidado, o aperfeiçoamento de regras de programas sociais e a implementação de forma efetiva da Lei da Igualdade Salarial podem criar um ambiente mais favorável à inserção feminina.