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Xi Jinping quer laços com Rússia, mas sem afetar a China

Para a China, é crucial manter a relação com a Rússia sem entrar na mira das potências ocidentais como cúmplice da invasão

 (Mikhail Svetlov / Colaborador/Getty Images)

(Mikhail Svetlov / Colaborador/Getty Images)

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Estadão Conteúdo

5 de abril de 2022, 08h50

Escolas e maternidades em Kiev, Mariupol e outras cidades da Ucrânia ainda eram locais seguros para crianças, mães e grávidas quando os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reuniram-se a portas fechadas em Pequim, no dia 4 de fevereiro. Ao fim da reunião, uma declaração conjunta acendeu um alerta no Ocidente.

Pequim e Moscou anunciaram naquela sexta-feira uma parceria estratégica e diplomática “sem limites” e subiram o tom contra os EUA e a Otan, que naquele momento realizavam um boicote diplomático aos Jogos de Inverno de Pequim e confrontavam a Rússia por movimentações militares na fronteira com a Ucrânia.

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Vinte dias depois, tropas russas entravam em território ucraniano a partir de Belarus, a mando de Putin. Rapidamente, o conflito em solo europeu atraiu as atenções do mundo. Mas os olhares ultrapassaram os limites do eixo Kiev-Moscou e se estenderam até Pequim, numa tentativa de entender até onde o “parceiro” do Kremlin estaria disposto a se comprometer diante do novo cenário.

O que se viu da China desde então foram posições oscilantes, estrategicamente pensadas a partir de uma agenda de paciência e cautela, a fim de não comprometer seus objetivos econômicos e geopolíticos. Para Xi Jinping, era crucial manter a relação com a Rússia sem entrar na mira das potências ocidentais como cúmplice da invasão.

Conspiração

Há diversos exemplos dessa dicotomia. A China votou contra as sanções internacionais à Rússia, mas autoridades chinesas vieram a público pedir que “as duas partes” procurassem um caminho para a paz. Mas, ao mesmo tempo, diplomatas chineses e a imprensa estatal propagaram uma teoria da conspiração russa sobre laboratórios de armas biológicas financiados pelo Pentágono na Ucrânia.

A falta de uma posição decisiva da China alimenta teses sobre a inércia de Pequim. The Economist apontou recentemente que os chineses entendem a guerra na Ucrânia como parte de uma disputa geopolítica maior, em que se opõem China e EUA, e definirá a próxima ordem mundial. Neste contexto, uma derrota russa poderia ser entendida como um fracasso do plano chinês.

Além disso, o conflito também tem uma dimensão pessoal de Xi. Após a aproximação com Putin, uma derrota russa refletiria na imagem do presidente chinês em um ano decisivo, em que ele tenta garantir um terceiro mandato como chefe do Partido Comunista - votação da qual ele alterou as regras partidárias para poder concorrer. “Ele mal pode se dar o luxo de ser visto apoiando um perdedor”, disse a Economist.

Assim que a “parceria sem limites” foi declarada por Pequim e Moscou, especialistas apontaram que uma colaboração irrestrita entre os países era pouco provável - com muitos interesses específicos a serem contemplados, muitos deles divergentes.

Interesses 

Apesar de possíveis áreas de cooperação guardarem interesses mútuos, como nos setores energético, de tecnologia e bens de consumo, as estratégias geopolíticas guardam pouca convergência fora da oposição à Otan.

Jussi Hanhimaki, professor do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais de Genebra, alerta sobre os entraves de uma parceria militar entre russos e chineses. “Eles poderiam se tornar parceiros estratégicos no sentido militar, mas esta é uma faca de dois gumes, em se tratando de dois países compartilhando uma fronteira longa e muitas vezes contestada. O fato de a China ser economicamente mais poderosa e a Rússia ainda ter uma vantagem militar é uma assimetria problemática nesta relação”, afirmou Hanhimaki.

A assimetria mais clara da relação é econômica. Com um PIB de mais de US$ 14,72 bilhões, a China tem uma economia dez vezes maior que a Rússia - com PIB de US$ 1,483 bilhão em 2020, segundo o Banco Mundial.

Ao mesmo tempo, a Rússia ainda mantém uma superioridade militar comparativa - apesar dos gastos militares chineses terem ultrapassado o orçamento russo para o setor. Além da superioridade em equipamentos militares convencionais (como número de tanques e artilharia móvel), Moscou ainda dispõe do maior arsenal nuclear do mundo, segundo a Arms Control Association.

Vantagem

Na avaliação de Vladimir Gel’man, professor da Universidade de Helsinque e pesquisador do Centro Finlandês de Estudos Russos e do Leste Europeu, o poder militar garantiria pouca ou nenhuma vantagem estratégica à Rússia dentro de uma relação de cooperação irrestrita.

“O tamanho da economia chinesa é cerca de dez vezes maior que o da Rússia. É por isso que é difícil discutir tanto a cooperação livre quanto a competição entre dois países. Creio que a Rússia seja fornecedora de petróleo e gás da China e, muito provavelmente, compre alguns bens e serviços chineses. Mas essa cooperação pode ser impulsionada pela China, com a Rússia desempenhando o papel de uma espécie de ‘parceiro júnior’”, disse.

Objetivo

Ocupar um papel minoritário, contudo, não parece ser o objetivo final de Putin, que tem se esforçado em criar uma realidade de poder fragmentada e multipolar na Eurásia.

Se a declaração de 4 de fevereiro não guardava nenhuma indicação específica sobre uma cooperação militar sino-russa, os comunicados de Moscou e Pequim são nítidos com relação ao principal elo entre os dois países: a oposição aberta à Otan.

“As partes se opõem à maior expansão da Otan, pedem à aliança do Atlântico Norte que abandone as abordagens ideologizadas da Guerra Fria, respeite a soberania, a segurança e os interesses de outros países, a diversidade de seus padrões civilizacionais e histórico-culturais, e trate o desenvolvimento pacífico de outros Estados de forma objetiva e justa”, dizia o documento.

Soldados ucranianos caminhando entre equipamentos militares russos destruídos após uma batalha na cidade de Trostyanes, região de Sumy

Soldados ucranianos caminhando entre equipamentos militares russos destruídos após uma batalha na cidade de Trostyanes, região de Sumy (Estado Maior das Forças Armadas da Ucrânia/AFP)

Analistas foram unânimes ao declarar o antagonismo ao Ocidente como o principal ponto de convergência entre os países. No entanto, mesmo esse aspecto foi relativizado após a invasão da Ucrânia. As pesadas sanções econômicas e financeiras aplicadas à Rússia - comparadas por Putin a uma declaração de guerra - praticamente bloquearam a economia russa.

Ativos no exterior foram congelados, oligarcas e o alto escalão do governo foram proibidos de manter negócios em uma série de países e o banimento do sistema Swift (que permite a troca de informações bancárias e transferências financeiras entre as instituições) praticamente inviabilizou o acesso do país a moedas estrangeiras fortes, como o dólar e o euro.

Ameaças

Além das medidas contra a Rússia, os EUA e outras das principais economias do mundo ameaçaram estender as sanções a empresas e países que continuassem a negociar diretamente com Moscou - o que fez soar um alerta em Pequim sobre a possibilidade de se tornar o próximo alvo.

O ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, listou quatro motivos pelos quais a China não seria capaz de salvar a economia russa, entre eles, a integração do país a economia global.

“Mesmo que a China não tenha aderido às sanções, o país é profundamente integrado à economia mundial. Isso significa que bancos e outras empresas chinesas, da mesma maneira que as corporações ocidentais, poderão adotar autossanções - ou seja, ficarão relutantes em fazer negócios com a Rússia por medo de reações negativas de consumidores e agências reguladoras nos mercados mais importantes”, disse o economista.

Alerta

Em paralelo, a revista britânica The Economist noticiou que dirigentes de empresas chinesas estão com um alerta ligado em razão das sanções econômicas. “Os bancos chineses poderiam reforçar o financiamento do comércio denominado em yuan com a Rússia usando o Cips, o sistema de pagamentos transfronteiriços da China”, escreve a Economist. “Mas as empresas chinesas estão atentas ao risco para suas reputações em outros mercados mais importantes, caso se acumulem na Rússia. E os credores chineses correm o risco de serem atingidos por sanções.”

Ao contrário do mundo rachado pela cortina de ferro, certas vezes a ideologia precisa dar espaço a questões mais pragmáticas no mundo globalizado.