Vale: 'Governo insiste em questões completamente fora do foco econômico'

Economista-chefe da MB Associados vê uma polarização crescente na relação de Bolsonaro com os demais poderes e pouco espaço para reformas nos próximos meses. A consequência: uma economia pior

O economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, está bastante pessimista sobre o futuro do governo Jair Bolsonaro (sem partido) nos próximos meses em virtude dos atos convocados por Bolsonaro neste feriado de 7 de Setembro.

Para Vale, há pouco tempo para avançar qualquer tipo de agenda reformista capaz de estimular o crescimento do PIB e, de alguma maneira, estancar a pressão sobre inflação e juros, em meio a um governo Bolsonaro "que ainda insiste em questões que fogem completamente do foco econômico". Leia na entrevista a seguir:

As manifestações de hoje podem ter algum tipo de reflexo na economia?

A gente já está vendo esse reflexo na economia já há alguns meses, desde que o Presidente virou Presidente. Há cada vez mais dificuldade de articulação da Presidência para avançar com as reformas que são necessárias, e isso vai acelerar e vai piorar agora. Lembra um pouco o que aconteceu no segundo mandato da Dilma Rousseff. Não estou necessariamente dizendo que vai ocorrer um impeachment, mas me parece que estamos encaminhando para isso depois das manifestações de hoje. Tudo isso tende a paralisar ainda mais um processo de reformas pois estamos já próximos à eleição. Temos um tempo muito curto para fazer mudanças de relevo.

E temos um governo que ainda insiste em questões que fogem completamente do foco econômico. Um exemplo veio ontem com a medida provisória para mudar parte do Marco Civil da Internet. É um cenário em que a paralisia econômica fica muito clara e evidente ao longo dos próximos meses. É um presidente que fica mais encurralado e, não sei se será como foi no caso da Dilma e Fernando Collor. Temos aqui um presidente que atira numa reação, não sabe reagir bem a esse tipo de momento. Lá na Dilma e no Collor, momentos políticos de estresse importantes que tivemos no passado, a gente tinha uma saída que acabou bastante bem organizada com Michel Temer e Itamar Franco. Agora temos uma incerteza muito grande. Agora pode vir um Hamilton Mourão perto da eleição. Mas o que isso pode significar? Tem um cenário que se abre com muita dificuldade à frente.


Economistas vêm batendo na tecla que a polarização política está, cada vez mais, impactando a retomada da economia brasileira. Os atos de hoje reforçam essa polarização? Como?

Certamente a polarização é muito negativa. Ela impede o que aconteceu em 2003, quando o petista Luiz Inácio Lula da Silva virou presidente e o PSDB e PFL, então partidos de oposição, votaram medidas importantes para a economia naquele momento, como uma reforma da Previdência. A gente cada vez mais vai ter dificuldade de ver esse processo acontecer. E, quando acontecem reformas, são reformas lideradas pelo Congresso, porque os Presidentes estão polarizados. A gente vê um enfraquecimento cada vez maior do Executivo. O Centrão tomou conta do Congresso e as reformas que estão saindo são longe de serem as melhores, como é o caso da reforma tributária por exemplo. Essa polarização só vai piorar, não é reformista, fica só no tom de atacar o outro lado, e não consegue arregimentar forças para avançar com as reformas que são necessárias. Então só tende a piorar daqui pra frente e só tende a piorar de 2023 para diante. Não estou conseguindo ver uma solução adequada nesse cenário tão polarizado entre direita e esquerda que estamos vivenciando hoje e com um centro tão apagado junto à população.

Como devem comportar-se os mercados e os investidores nos próximos dias à luz dos atos de hoje?

Se forem olhar só hoje os mercados até gostariam porque se parar para pensar não foi tanta gente assim, não foi conturbado — em particular em Brasília, onde poderia haver uma invasão da Câmara ou do STF e não aconteceu nada disso. Por enquanto foi mais tranquilo do que se imaginava. Nesse sentido, sendo pacífico como tem sido, a repercussão é positiva para amanhã.

O problema é o comportamento do Presidente daqui para frente. Ele vem subindo o tom a cada momento. Não dá sinal de reverter. Pelo contrário, está dando a entender que vai piorar a reação ao momento e de que vai usar a tentativa de angariar algum apoio às medidas mais restritivas que ele quer fazer. Não vai ter espaço pra isso, vai ficar mais isolado, com menos reformas. Tudo isso vai fazer com que, apesar de amanhã não ser tão negativo assim, a tendência é que os próximos dias vamos ter repercussões negativas.

Vamos ter impacto no crescimento, a inflação tende a acelerar com essa pressão toda em energia e câmbio, e um cenário mais grave de tudo é que o fiscal fica muito mal resolvido. A discussão dos precatórios podem não avançar como se imagina, a gente vai ter uma pressão grande no fim do ano com uma inflação mais elevada, que pressiona o salário mínimo e os gastos com funcionalismo público no ano que vem, ou seja, tem uma estrutura de gastos para o ano que vem que está bastante fragilizada. Acho que o governo agir dessa maneira coloca uma dificuldade muito grande de diálogo num curto espaço de tempo, dado que a gente já está em setembro.

A gente hoje está numa previsão de crescimento de 1,4% pra esse ano, mas muito provavelmente vamos revisar para baixo, IPCA de 8,3% para esse ano e 4,7% no ano que vem, com risco de ser pior, juros 8,5% para o ano que vem e com risco de ser pior.

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