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Quem vai se recuperar mais rápido do vírus: Europa ou EUA?

Coronavírus transformou o mundo em um laboratório de sistemas concorrentes, cada um com sua própria maneira de combater o vírus e mitigar danos econômicos

Após a devastadora crise financeira de 2008-09, os Estados Unidos se recuperaram muito mais rapidamente que a Europa. Muitos economistas dizem que, desta vez, a Europa pode levar vantagem.

As principais razões pelas quais os EUA se saíram bem foram a resposta rápida do governo e a natureza flexível da economia dos EUA, célere tanto para demitir trabalhadores como também para contratá-los novamente. A Europa, com seguridade social vinculada, tenta impedir que os trabalhadores sejam demitidos por meio de subsídios aos empregadores, dificultando a demissão e encarecendo a recontratação.

Mas esse é um tipo diferente de colapso, uma paralisação obrigatória em resposta a uma pandemia, reduzindo a oferta e a demanda simultaneamente. E essa diferença cria a possibilidade de que a resposta europeia, que congelou a economia, possa funcionar melhor desta vez.

"É um debate importante. Esta não é uma recessão normal, e há muita coisa que você não sabe, especialmente se o vírus voltar", disse Jean Pisani-Ferry, economista sênior da Bruegel em Bruxelas e do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington.

Até agora, o coronavírus transformou o mundo em um laboratório gigante de sistemas concorrentes, cada um com sua própria maneira de combater o vírus e mitigar seus danos econômicos. O contraste entre a Europa e os Estados Unidos é particularmente acentuado.

Grande parte da Europa recorreu a bloqueios rigorosos que, em sua maioria, combateram o vírus, mas limitaram a economia. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump priorizou a economia, mesmo com o grande número de infecções.

Em quase todos os países, os governos precisaram intervir com apoio, à medida que a ênfase mudava para a recuperação. O denominador comum é a dívida. O Fundo Monetário Internacional prevê que a dívida global aumentará este ano em 19 por cento em relação ao produto interno bruto.

Mas o contraste não se limita aos diferentes sistemas. Trata-se também de diferentes apostas sobre como a pandemia pode continuar – o que fará toda a diferença dependendo de quanto tempo o alívio do governo pode ser sustentado.

Já as abordagens diversas estão produzindo resultados diferentes, não apenas em relação às infecções e mortes – números em que os Estados Unidos são líderes mundiais –, mas também em empregos, com o desemprego subindo nos EUA enquanto permanece basicamente estável na Europa.

Os Estados Unidos garantiram uma distribuição antecipada de fundos para os contribuintes e apoio a empresas, mas estão deixando a realocação de empregos a cargo do mercado.

Os governos europeus, diante de uma paralisação artificial, em vez de uma crise fiscal tradicional, optaram por tentar "congelar" suas economias, na esperança de retomá-las rapidamente.

Eles apostaram em uma recuperação bastante rápida, optando por tentar preservar os empregos tanto quanto possível por meio de subsídios salariais, muitas vezes de até 80 por cento do salário, e para o trabalho de meio período.

Mas, se a pandemia continuar por muito tempo, ou se retornar em uma segunda onda prolongada, é improvável que os governos europeus ampliem esse apoio por muito mais tempo.

"Agora, todo mundo já está recuando um pouco. Alguns planos foram muito generosos e há uma questão de equilíbrio – você quer impedir fraudes e evitar que as empresas mantenham as pessoas em licença se não houver chance de recontratá-las", disse Pisani-Ferry.

Os gastos iniciais dos EUA foram enormes – até US$ 2,7 trilhões em março e abril (cerca de 13 por cento do produto interno bruto) para fornecer alívio econômico a indivíduos, empresas e estados. Foi o maior estímulo econômico da história americana. Também foi várias vezes maior do que o pacote europeu, que na França, por exemplo, foi de apenas dois por cento, disse Pisani-Ferry.

Ainda assim, "a resposta europeia foi melhor – mais simples e eficaz em matéria de uso de fundos públicos", afirmou.

A razão é o sistema de bem-estar social existente na Europa. Seus "estabilizadores automáticos" entram em ação para apoiar os pobres e desempregados, sem a necessidade, como nos Estados Unidos, de aprovar legislação para essa finalidade.

A resposta dos EUA foi um ataque amplo e não direcionado, com grandes quantidades de dinheiro distribuídas de forma rápida, mas indiscriminada, e, portanto, ineficiente. Isso ficou a cargo do Tesouro, que não tinha um sistema para fazer de forma diferente.

O ponto principal era colocar dinheiro no mercado para que este não se fechasse totalmente, para que a demanda dos consumidores continuasse. Mas o Tesouro acabou dando muito para aqueles que não precisavam – inclusive para muitas pessoas mortas – e para os empregadores que solicitassem ajuda, alguns dos quais nem mesmo precisavam dela.

Mas mesmo esses gastos enormes, em grande parte direcionados a indivíduos e não a empregadores, não impediram demissões em massa. Washington se apoiou no seguro-desemprego e aumentou esses pagamentos em US$ 600 por semana, algo que vai se esgotar no fim de julho. Sem qualquer certeza sobre o que vem a seguir, os consumidores hesitarão em gastar, retardando a recuperação.

O aumento do desemprego nos EUA foi cerca de cinco vezes maior do que na França, escreveu Pisani-Ferry em um artigo com Jérémie Cohen-Setton. "Como resposta imediata à crise, a abordagem francesa (e europeia) foi sem dúvida mais eficiente."

Mas essa generosidade europeia para sustentar o sistema existente pode retardar o crescimento do emprego em comparação com o sistema mais flexível e inseguro dos EUA, no qual é mais fácil contratar e demitir, argumenta Megan Greene, economista da Escola Kennedy de Harvard. "A flexibilidade do mercado de trabalho cria mais oportunidades para os trabalhadores dos EUA, geralmente levando a uma recuperação mais rápida após uma recessão", escreveu ela.

Isso ajudou os EUA a se recuperarem mais rapidamente nas recessões tradicionais, mas este é um tipo diferente de recessão, um congelamento repentino sem uma saída óbvia.

"Os Estados Unidos tiveram um estímulo fiscal muito maior, mas, como de costume, menos estabilizadores automáticos, de modo que a parte discricionária foi maior. Portanto, existe lá um debate mais amplo sobre quem está ganhando e quem está perdendo", analisou Lucrezia Reichlin, professora de economia da London Business School.

Muita coisa vai depender agora do curso que a pandemia seguir.

Sem dúvida, os europeus continuam a discutir ferozmente sobre o tamanho e a forma de seu fundo de recuperação do coronavírus e como ele será distribuído, mas agora não há dúvida de que o dinheiro virá.

Se a Europa tiver sorte e conseguir projetar um bloqueio amplo e abrangente, mas curto, esse dinheiro que chegar no ano que vem vai ajudar a economia a crescer, especialmente se a recuperação for lenta, fraca e prolongada.

Recentemente, Christine Lagarde, chefe do Banco Central Europeu, que propôs um programa para garantir a nova dívida pública, disse: "Provavelmente passamos do ponto mais baixo, mas, dadas todas as incógnitas, digo isso com certa apreensão."

Nos Estados Unidos, por outro lado, a incerteza da resposta do governo é em si um fator. "Apesar de ser um único país, os EUA estão saindo muito mais fragmentados do que a Europa", observou Reichlin.

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