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Executivo em tecnologia e consumo em empresas como Neogrid, Linx, TOTVS e Oracle. Hoje é conselheiro, advisor e investidor
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 10h18.
Em 2007, a pergunta que dominava as salas de reunião era "como colocar minha empresa na internet?". Em 2015, virou "como migrar para a nuvem?". Em 2026, a mais repetida é "como usar inteligência artificial?". Tenho a suspeita de que ela está tão limitada quanto as anteriores — e pelo mesmo motivo. Quem perguntava como entrar na internet estava otimizando o negócio que já tinha; quem construiu o comércio eletrônico fez uma pergunta diferente. Nenhuma revolução tecnológica ficou marcada pelo que destruiu. Todas ficaram marcadas pelo que tornaram possível construir.
Repare no padrão. A internet não ficou na história por aposentar o fax; ficou por criar o comércio eletrônico. O smartphone não ficou marcado por substituir a câmera digital; ficou por viabilizar Uber, iFood e Instagram. A nuvem não mudou o mundo por baratear servidores; mudou por permitir que Airbnb, Stripe e Nubank nascessem sem milhões em infraestrutura própria. Em nenhum desses casos a inovação veio de uma dor inédita — veio de uma plataforma que tornou economicamente viável resolver dores antigas de um jeito novo. A inteligência artificial segue o mesmo padrão, com uma diferença fundamental: as ondas anteriores baratearam armazenar, processar, distribuir e conectar. A IA barateia a própria inteligência.
E quando o principal insumo de uma economia deixa de ser escasso, não mudam apenas os processos. Mudam os mercados que podem existir.
Toda a teoria organizacional dos últimos cem anos foi construída sobre uma única premissa: inteligência humana é cara, lenta e escassa. Foi essa premissa que justificou departamentos especializados, camadas hierárquicas, fluxos de aprovação, consultorias e centros de serviços compartilhados. Pela primeira vez, ela deixou de ser verdadeira.
Imagine fundar uma empresa em 2026: você contrataria cinquenta analistas? Cinco níveis hierárquicos? Um departamento só para consolidar indicadores e outro só para produzir apresentações? Provavelmente não — então por que empresas maduras continuam fazendo exatamente isso? E o fenômeno não se restringe à tecnologia: imagine abrir uma clínica médica em 2030 — ela teria a mesma recepção, os mesmos auditores de faturamento, a mesma equipe administrativa de hoje? Por isso acredito que o maior impacto da IA não acontecerá dentro dos softwares — acontecerá dentro das empresas.
Se a tese parece teórica, o capital mais sofisticado do mundo já a transformou em cheque. Todos os anos, a Y Combinator publica uma chamada global apontando os problemas que considera as maiores oportunidades para a próxima geração de startups. Vale prestar atenção em quem fala: é a aceleradora por onde passaram Airbnb, Stripe, Coinbase, Dropbox e Reddit — mais de 5.600 empresas financiadas desde 2005, num portfólio que soma acima de US$ 600 bilhões. Poucos termômetros indicam melhor onde nascerá a próxima geração de gigantes.
Na edição mais recente, os temas parecem, à primeira vista, desconexos: um tutor de IA que ensina crianças como um professor particular de verdade; interceptadores de drones; compliance que acompanha mudanças regulatórias sozinho e substitui o departamento, não a planilha; sistemas operacionais para robôs e equipes híbridas; data centers em navios; verificação de identidade para um mundo em que uma única ligação com deepfake já custou US$ 25 milhões a uma empresa. Mas todos compartilham uma característica.
Nenhum desses negócios era economicamente viável há três anos.
A Y Combinator não publicou uma lista de ideias. Publicou um mapa das fronteiras abertas pela queda do custo da inteligência.
Enquanto isso, a maioria das organizações ainda faz a pergunta de 2007 em versão atualizada: como colocar IA no atendimento, no jurídico, na força de vendas. São iniciativas legítimas — e pertencem ao primeiro de três níveis de maturidade.
No primeiro nível, a empresa insere IA nos processos existentes: chatbot, copiloto, resumo automático. O ganho é real, porém incremental e efêmero, porque o concorrente compra a mesma ferramenta amanhã. No segundo, a empresa redesenha os processos: elimina etapas, aprovações e camadas que só existiam porque inteligência era cara — aqui começa a vantagem competitiva. No terceiro nível constroem-se negócios que antes não podiam existir: é o que chamo de empresas nativas em inteligência, assim como a nuvem gerou uma geração de empresas nativas digitais. Os próximos unicórnios nascerão nesse terceiro nível — e é exatamente para ele que a Y Combinator está olhando.
O teste para saber em que nível você está cabe em uma pergunta: se a IA sempre tivesse existido, desenharíamos esse processo da mesma forma? Essa pergunta não otimiza; reconstrói. Eu a faço ao meu próprio ofício. Depois de participar de mais de quarenta operações de M&A, sigo intrigado que uma due diligence ainda mobilize dezenas de especialistas durante semanas para revisar contratos e cruzar passivos que agentes já conseguem monitorar continuamente.
O mesmo vale para os conselhos de administração: hoje passamos semanas preparando materiais para discutir slides no dia da reunião; em poucos anos, cada conselheiro talvez chegue acompanhado de um agente que acompanhou a companhia o trimestre inteiro — e a conversa começará onde hoje termina. E há um efeito ainda maior: quando o custo da inteligência despenca, o não-consumo vira mercado. A imensa maioria das pessoas e das pequenas empresas nunca teve professor particular, advogado dedicado ou analista próprio. Não são processos esperando automação; são mercados inteiros esperando uma nova arquitetura.
E como serão as empresas nativas em inteligência? Não é preciso futurologia; basta seguir a lógica econômica. Serão menores em pessoas para a mesma receita — não por corte, mas por desenho. Terão menos camadas, porque parte relevante da gerência média sempre existiu para transportar informação entre o topo e a base, e informação agora flui sozinha. As áreas cuja função central é consolidar, conferir e formatar — relatórios, conciliações, controles — serão as primeiras a mudar de natureza. Já as funções que ganharão importância são as ancoradas naquilo que agentes não carregam: julgamento sob ambiguidade, relações de confiança e responsabilidade pelo resultado. Não serão versões enxutas das empresas atuais; serão outra espécie organizacional.
Passamos um século desenhando empresas para economizar inteligência. As próximas vencedoras serão desenhadas para usá-la em abundância.
Já escrevi neste espaço que a IA está criando um novo tipo de comprador: agentes que compram de outros agentes. Acrescento agora outra convicção: ela também está criando um novo tipo de empresa. As organizações que liderarão esta década não serão as que aprenderem mais rápido a usar inteligência artificial — serão as que tiverem coragem de abandonar processos, organogramas e modelos de negócio concebidos para um mundo em que inteligência era cara, lenta e escassa. Para o executivo, a implicação é desconfortável: o maior risco competitivo não é a startup que faz o que a sua empresa faz, mais barato. É a que faz o que a sua empresa nunca pôde fazer. Durante vinte anos, a inovação foi guiada por uma pergunta: "que problema ainda não foi resolvido?". A próxima década pertencerá a quem fizer a outra: o que acabou de se tornar possível?
Primeiro, faça o inventário dos projetos de IA da companhia e classifique cada um nos três níveis. Se tudo estiver no primeiro, vocês estão financiando eficiência — não futuro.
Segundo, dediquem uma sessão inteira à pergunta mais desconfortável desta década: se pudéssemos desenhar esta empresa do zero, sabendo tudo o que a IA tornou possível, ela se pareceria com a empresa que temos hoje? Reconstruam o que não passar no teste — a coragem exigida é a de eliminar, não a de otimizar.
Terceiro, reservem parte do orçamento — ou da agenda de M&A — para o terceiro nível: qual mercado ficou possível pela primeira vez para a sua empresa, e quem vai construí-lo primeiro — vocês ou um fundador de 25 anos com meia dúzia de agentes?
Talvez o maior erro estratégico da década seja usar a inteligência artificial para preservar empresas desenhadas para um mundo em que ela não existia.