O naufrágio do pensamento

The Shipwrecked Mind: On Political Reaction
Autor: Mark Lilla. Editora: New York Review Books
Páginas: 168

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Joel Pinheiro da Fonseca

Para a maioria de nós, o progresso é uma constante. Temos acesso a mais bens e serviços do que nossos pais tinham com a nossa ideia, e esperamos que nossos filhos vivam em um mundo ainda melhor. O mesmo vale para o campo da liberdade política e direitos. Pouco a pouco, esperamos ou torcemos, o mundo irá se adaptar a democracia, direitos humanos e liberdades individuais. Há uma série de obstáculos no caminho – autocracias como Rússia e China, fundamentalismo religioso, riscos ambientais -, mas se fizermos tudo certo (e com alguma ajuda de providenciais avanços tecnológicos) nossa ordem social triunfará sobre as alternativas.

Pelo menos foi isso que, de maneira talvez um pouco imprecisa mas verdadeira, ocorreu no Ocidente desde pelo menos a Revolução Francesa (ou a Revolução Gloriosa, ou a Reforma Protestante, ou a Magna Carta, ou o Cristianismo, etc.). Estado laico, direitos iguais e democracia têm se tornado a norma e, para a maioria de nós, isso foi e continua a ser um grande avanço.

Mas nem para todos. Para um tipo de pensador – de uma corrente minoritária mas sempre relevante – o que o Ocidente experimentou nos últimos séculos não foi progresso, e sim um acúmulo de equívocos e perversidades que nos levará fatalmente à catástrofe: ao totalitarismo e à destruição da sociedade. Em vez de seguir as ondas enganadoras do suposto progresso, deveríamos olhar para trás e aprender com o mundo que abandonamos.

Para esses autores, vivemos num grande naufrágio civilizacional. E eles são justamente o tema de The Shipwrecked Mind (a mente afundada), do cientista político e professor da Universidade Columbia, Mark Lilla. Essa coletânea de artigos serve como um contraponto de um livro anterior de Lilla, The Reckless Mind (a mente temerária), em que ele analisou intelectuais à esquerda e à direita que se deixaram seduzir e apoiaram ativamente as piores tiranias do século 20.

Os autores reacionários que Lilla tem em mente neste volume – pensadores como Eric Voegelin, Leo Strauss e Franz Rosenzweig – não defenderam totalitarismos. Pelo contrário, foram críticos deles, mas apostando não nas democracias liberais de seu tempo e sim em modelos e mentalidades antigos, nostálgicos de tempos remotos. A partir da Revolução Francesa, esse tipo de pensamento se tornou muito comum na pena de autores que lamentavam como toda a ordem medieval havia sido virada de ponta-cabeça.

A narrativa básica da mente reacionária é tediosamente semelhante. Alguma ruptura na harmonia sagrada de outrora provoca uma série de degenerações que vão culminar, no mais das vezes, nos horrores do campo de extermínio nazista ou do gulag. Ajuda o fato de a maioria deles ter vivido nessa primeiro metade do século 20, quando as certezas liberais e iluministas do século anterior foram duramente questionadas e pareciam fadadas à lata do lixo da história. Em outros casos, a catástrofe nada mais é do que a vida vazia e sem sentido do consumismo contemporâneo (a tese é brilhantemente resumida pelo título de um dos ensaios: From Luther to Wal-Mart).

Voegelin talvez represente essa visão de mundo em estado puro. A modernidade, segundo ele, cortou a relação da sociedade com uma ordem sagrada, transcendente a ela própria. Ao fazer isso, naturalmente tende a apostar numa salvação que venha do próprio mundo, e portanto num Estado redentor que se coloca no lugar de Deus. Embora não fosse um crente (era judeu de origem mas longe de ser ortodoxo), julgava que submeter a ordem social às demandas de uma transcendência – e essa sempre vem na forma de mitos particulares – era a única capaz de produzir uma sociedade harmônica e verdadeiramente saudável.

Contudo, aponta Lilla, de onde Voegelin tirou que na Idade Média a vida humana era mais harmônica? Não há nenhuma base histórica para o que ele afirma. A ideia de que no passado as pessoas viviam uma vida mais completa, num todo coeso, é ilusória; é ela própria um mito moderno.

No caso de outros pensadores, o problema estava mais em seus seguidores do que neles próprios. Leo Strauss, por exemplo, enfatizava a necessidade de o filósofo respeitar a religião da sociedade em público, porque entende a importância dela para manter a ordem social e os valores que ele próprio busca. Na cabeça de seus pupilos mais exaltados – que viriam a formar parte importante dos formuladores da doutrina neo-conservadora – isso se traduzia em tentar promover a religião nacional (no caso, a democracia liberal com estofo judaico-cristão) dentro e fora das fronteiras. Como costuma ocorrer, esses pretensos salvadores do Ocidente deram com os burros n’água em suas aventuras pelo Oriente Médio.

No final das contas, a mentalidade reacionária é o outro lado da moeda da mentalidade revolucionária. Ambos não podem aceitar o status quo; ele é por demais corrupto e injusto. Só que ao invés de sonhar com uma utopia futura, olham para um passado idealizado igualmente fantasioso. E ela não se confunde com o conservadorismo – também uma reação à Revolução Francesa – que aceita o mundo como ele é e busca avanços incrementais, na margem, cético quanto a mudanças bruscas e à possibilidade de melhora (ou piora) substancial da humanidade.

Seja como for, em tempos de volta do populismo e de ameaças existenciais ao Estado liberal moderno – como no terrorismo islâmico fundamentalista ou na alt-right -, é sempre bom conhecer melhor esses pensadores que, quando todos viam progresso, só se perguntavam o que é que tinha dado errado.

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