Economia

O blá-blá-blá da política

Livro: Enough Said: What’s Gone Wrong with the Language of Politics Autor: Mark Thompson. Editora: St. Martin’s Press. 352 páginas ——————— Joel Pinheiro da Fonseca Já é um clichê reclamar da polarização do discurso e das rivalidades políticas. Em geral, um clichê repetido por pessoas que fazem de tudo para comprová-lo. Poucos, contudo, se dão ao […]

RONALD REAGAN E MARGARET THATCHER: líderes dos anos 80 foram responsáveis pelo discurso político recheado de certezas morais, segundo CEO do New York Times / Keystone/ Hulton Archive/ Getty Images (Keystone/ Hulton Archive/Getty Images)

RONALD REAGAN E MARGARET THATCHER: líderes dos anos 80 foram responsáveis pelo discurso político recheado de certezas morais, segundo CEO do New York Times / Keystone/ Hulton Archive/ Getty Images (Keystone/ Hulton Archive/Getty Images)

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Da Redação

Publicado em 4 de fevereiro de 2017 às 06h02.

Última atualização em 22 de junho de 2017 às 18h03.

Livro: Enough Said: What’s Gone Wrong
with the Language of Politics
Autor: Mark Thompson.
Editora: St. Martin’s Press. 
352 páginas

———————

Joel Pinheiro da Fonseca

Já é um clichê reclamar da polarização do discurso e das rivalidades políticas. Em geral, um clichê repetido por pessoas que fazem de tudo para comprová-lo. Poucos, contudo, se dão ao trabalho de analizá-lo e de fazer um diagnóstico do empobrecimento do discurso público. Mark Thompson, ex-diretor geral da BBC e atual CEO do New York Times, cumpre com louvor essa tarefa.

Em Enough Said: What’s Gone Wrong with the Language of Politics (“Basta: o que deu errado com a linguagem da política”, numa tradução livre), Thompson argumenta e documenta muito bem o quanto caímos em termos de retórica. O pecado original, como não poderia deixar de ser para um progressista inglês, foi cometido por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que trouxeram um tipo de certeza moral e autoafirmação para o discurso que teria tirado a atenção das propostas.

Mais de 30 anos depois, o cenário é irreconhecível. Memes, slogans e expressões que pervertem totalmente o sentido da realidade tomaram o lugar do debate de ideias. Mesmo a mídia agora parece trabalhar apenas para gerar polêmicas vazias, sem dar aos entrevistados a chance de expor seu pensamento.

Um novo valor está em voga no campo político: o “autenticismo”. As pessoas querem que seus políticos pareçam pessoas reais, autênticas. E isso vem antes da exigência de que falem a verdade, mesmo porque no tempo que uma inverdade é devidamente pesquisada e corrigida, muitas outras já foram afirmadas. As pessoas querem se conectar com alguém como elas, que encarne o bom senso, que tenha mais instinto das coisas do que recite estatísticas com ar de superioridade.

É tudo verdade. O discurso político está realmente degradado e a atmosfera polarizada só contribui para isso, como vemos abundantemente ilustrado no Brasil. Caberia, contudo, talvez um reconhecimento mais claro de que a velha retórica também tinha seus pecados. E se a população não atura mais o velho discurso político, ela pode ter uma boa dose de razão. Com toda sua pastosidade e opacidade, talvez fosse menos diretamente mentiroso, mas era também desonesto em sua maneira de pinçar a realidade e fazer afirmações vazias.

É também impossível não notar que Thompson tem um claro viés para a esquerda. Ele em nenhum momento examina as construções verbais e ‘spins’ que a esquerda progressista dá às pautas que considera importantes. O mais próximo que chega disso é sua crítica mordaz à retórica de Tony Blair em defesa da guerra do Iraque, mas aí temos justamente a esquerda ‘neo-liberal’ defendendo uma causa notoriamente ligada à direita americana.

Se o fizesse, teríamos um fato incômodo: mesmo causas boas acabam sendo defendidas de maneiras desonestas e, em muitos casos, essa é a única maneira de levá-las adiante. O jogo da política jamais abre mão da desonestidade, ainda que ela tenha ficado mais evidente e mais literal hoje em dia. É confortável pensar que a mentira serve apenas às bandeiras que consideramos más. Mas essa é certamente apenas mais uma mentira — e especialmente danosa. Porque é graças a ela que não percebemos que nossa participação política — ao se considerar intrinsecamente superior — é ela própria polarizadora e cega.

No final das contas, Thompson não é capaz de oferecer uma solução para o problema, nem mesmo um caminho. Sim, os políticos “deveriam” tratar o eleitorado como adulto, os jornalistas “deveriam” dar mais espaço para as ideias dos entrevistados. Mas qual o valor dessa normativa se os políticos constatam ganhos reais em suas chances justamente ao agir da maneira oposta? Como mudar isso se os jornalistas têm mais cliques justamente interrompendo, “lacrando” e gerando polêmica?

De uma forma ou de outra, uma certa seriedade que esperávamos de nosso discurso público foi perdida. A qualidade da informação e da linguagem piorou, embora a quantidade de pessoas que agora pode participar dessa troca tenha aumentado exponencialmente. Talvez estejamos simplesmente enfrentando o eterno trade-off entre quantidade e qualidade.

E talvez não seja algo exatamente novo. O próprio Thompson se inspira em seu livro no ensaio clássico de George Orwell, A política e a língua inglesa, de 1946, que continha o mesmo tipo de alerta quanto ao abuso da língua para fins políticos. Se olhamos mesmo para o passado recente, o século 20 antes da Segunda Guerra, vemos um clima político altamente demagógico também, com líderes populistas apelando aos sentimentos mais básicos do povo, usando as novas tecnologias do rádio e da televisão para falar direto com o eleitorado. Só não sei se esse paralelo, que nos indica que nossa situação não é inédita, é lá muito animador.

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