Mercado de Trabalho: setores apontam que tem milhares de vagas abertas que não são preenchidas (Jorge Rosenberg/Reuters)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 11h12.
Em 2025, o Brasil viveu um cenário de desemprego em queda, desaceleração da informalidade e taxa de ocupação próxima do recorde histórico. O Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer acima do previsto inicialmente pelo mercado. Mas nas empresas, especialmente no comércio, na construção e na indústria, o relato foi — e ainda é — outro: “não consigo contratar ninguém”.
A sensação generalizada de falta de mão de obra não parece se comunicar com os números da economia. E foi esse o ponto de partida para um estudo feito por Daniel Duque, pesquisador do FGV IBRE, que mapeou as causas do paradoxo.
O setor de supermercadistas é um dos principais exemplos dessa falta de mão de obra. No ano passado, foram mais de 350 mil vagas abertas que não foram preenchidas. Esse cenário ampliou as discussões sobre uma possível mudança na jornada de trabalho no país, em tramitação no Congresso, com o fim da escala 6x1.
A escassez, mostra o estudo, não vem de um só fator, mas da combinação de três tendências: o avanço demográfico, a alta rotatividade e a transformação tecnológica nos vínculos de trabalho.
“Essa sensação de ‘escassez’ não é necessariamente um fenômeno de uma causa só”, escreve Duque no estudo. “Ela pode ser o resultado de vários mecanismos atuando ao mesmo tempo, alguns conjunturais e outros profundamente estruturais.”
O levantamento mostra que menor quantidade de jovens à disposição para trabalhar, mais pessoas trocando de emprego e uma população ocupada que trabalha menos horas do que poderia são alguns dos motivos.
No início do estudo, Duque enfrenta o fator talvez mais debatido politicamente sobre mercado de trabalho: o Bolsa Família. A análise, por meio da metodologia de diferenças em diferenças (DiD), mostrou que, entre jovens homens do Norte e Nordeste, houve redução na formalidade e participação do mercado de trabalho, mas também efeitos positivos como aumento na matrícula escolar.
"Aparecem efeitos colaterais potencialmente desejáveis, como aumento de matrícula escolar em grupos jovens, sugerindo que essa renúncia pode envolver escolhas intertemporais e não apenas desestímulo puro. Vale notar, ainda, que poucos beneficiários do Bolsa Família alguma vez estiveram empregados na indústria", diz.
Já o segundo ponto — e o mais relevante — é a demografia. Segundo o pesquisador, o Brasil está encolhendo onde antes crescia: na base jovem da força de trabalho.
"Isso impacta fortemente o comércio e a indústria, que operam a porta de entrada para adolescentes e jovens adultos", afirma Duque.
O levantamento feito pelo economista mostra que apenas o efeito da mudança demográfica explica quedas relevantes na oferta de mão de obra de 2012 a 2025. A indústria, por exemplo, teve redução de 0,34% no potencial de ocupação explicada apenas por fatores etários. No comércio e reparação, o percentual chega a 0,56%.
"A transição demográfica cria um tipo de escassez nacional e duradora que, mesmo com políticas públicas ou ciclos econômicos mudando, o tamanho dos cortes dos jovens não volta no curto prazo", diz.
Para Duque, o governo brasileiro precisa começar a discutir políticas pró-natalidade, "que o mundo desenvolvido já tem feito há décadas", para resolver o longo prazo da tendência observada no estudo.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que em 2024 o número de nascimentos caiu 5,8%, cerca de 146 mil registros a menos do que o ano anterior. Com isso, a taxa de natalidade do Brasil atingiu o maior percentual negativo dos últimos seis anos.
Outro fator é a rotatividade, que permanece alta mesmo com desemprego baixo. Dados da PNAD apontam que, entre 2022 e 2024, cresceu o número de pessoas trocando de emprego em curtos intervalos. Isso pressiona o custo de reposição de mão de obra e dificulta o preenchimento de vagas.
Além disso, aumentou a rotatividade entre trabalhadores de maior escolaridade, o que afeta setores mais técnicos e complexos, como a indústria.

O pesquisador também investigou o fenômeno do trabalho por aplicativo. Segundo Duque, os aplicativos não “roubam” trabalhadores do mercado formal, mas funcionam como um canal complementar de inserção e ajuste, especialmente em áreas urbanas conectadas, como São Paulo.
A avaliação é que, em vez de atrapalhar, o trabalho via apps, como transporte e entregas, ajudou a manter níveis de ocupação e renda em alta para grupos mais vulneráveis — e com menor volatilidade. Isso sugere que as plataformas funcionam mais como amortecedores de transição do que como causadoras de escassez.
Trabalho por aplicativo: estudo sugere modalidade ajudou a manter níveis de ocupação e renda em alta para grupos mais vulneráveis (iFood/Divulgação)
Outro dado levantado pelo economista foi sobre as horas trabalhadas, que mostra que o Brasil enfrenta uma escassez de tempo produtivo. Em comparação internacional, o país aparece com carga horária semanal inferior ao esperado para sua renda per capita e estrutura etária.
“O Brasil aparece trabalhando menos horas do que seu nível de desenvolvimento e sua demografia sugeririam, tanto para homens quanto para mulheres", diz.
Toda essa combinação apontada pelo economista forma uma equação inédita. Uma escassez que não se resolve apenas com vagas abertas, mas com reformas estruturais.
“Mudanças institucionais e tecnológicas precisam ser lidas junto com o comportamento de oferta de trabalho no nível intensivo (horas), não só no extensivo (participar ou não participar)”, afirma.