A disparada do feijão

Entre Brexit, Cunha e Oi, o feijão foi um improvável protagonista da última semana. Seus fiéis consumidores vêm tendo de lidar com uma inflação que chegou a 33,49% entre janeiro e junho, segundo os últimos dados do IPCA-15. Em um ano, os preços subiram 58,6%, chegando aos 12 reais o quilo.

Assim, o feijão é vilão da inflação da vez. Algo semelhante ao que aconteceu com o tomate, que acumulou alta de mais de 120% em 2013. Acontece que com o feijão o buraco é mais embaixo. A situação se tornou preocupante a ponto de o presidente Michel Temer anunciar na quarta-feira 22 medidas de incentivo à importação de feijão.

O que explica a alta meteórica do feijão?

Um dos principais, fatores, segundo especialistas ouvidos por EXAME Hoje, é a perda de áreas de plantio para outros grãos, como soja e milho. De acordo com o professor Magno Patto Ramalho, da Universidade Federal de Lavras, esse é um processo natural e acontece porque essas outras culturas são mais seguras para o agricultor. “Os grandes produtores trabalham com oportunidade e vão para onde o risco é menor, com mercado de exportação garantido. Neste caso, milho com saca a 50 reais é melhor do que feijão a 500 reais”, diz.

Nos últimos anos, o feijão vinha se mostrando um mau negócio, sobretudo devido aos baixos preços. Resultado: a área destinada ao cultivo do produto na primeira safra da temporada 2015/2016 foi 9% menor do que no ano anterior.

Outro fator determinante é o clima. Neste ano, o fenômeno El Niño diminuiu o volume de chuvas no Centro-Oeste e aumentou a precipitação no Sul, atingindo com força os principais produtores de feijão do país – Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Goiás e São Paulo. Só o Paraná responde por 21,4% da produção nacional.

Ao longo de 12 meses, o feijão tem, basicamente, três safras: de novembro a abril, de abril a julho e de agosto a outubro. Nesse jogo de oportunidade, a primeira delas geralmente define a disposição dos produtores a investirem em feijão no restante do ano. Assim, se a primeira safra é ruim – como foi em 2015/2016 –, a cadeia produtiva sofre por um bom tempo.

Como funciona o mercado

Tradicionalmente, os países que mais consomem feijão são também os que mais produzem. É o caso do Brasil, maior consumidor e também maior produtor de feijão do mundo. No ranking do consumo, é seguido por Índia, China e México – também grandes produtores.

Dessa forma, os produtores locais trabalham em função da demanda interna. Até agora, em 2016, o Brasil exportou apenas 7.000 toneladas e faturou com isso 3,9 milhões de dólares. O caso do Brasil é ainda mais complicado, uma vez que a principal variedade de feijão produzida e consumida aqui – o carioca – não tem demanda no mercado internacional. Assim, em anos normais, produzimos exatamente a quantidade que consumimos – numa engrenagem que está bastante sujeita a desequilíbrios.

Com apenas mais uma safra a ser colhida em 2016, o resultado é que o total de feijão produzido deve ficar bem abaixo do necessário para o consumo pelo segundo ano consecutivo. A perspectiva da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, é que a produção seja de 2,9 milhões de toneladas – 6,1% menor do que no ano passado. A demanda, por consequência, também deve cair neste ano, saindo dos tradicionais 3,3 milhões de toneladas consumidas desde 2011.

O que fazer agora?

Uma das alternativas propostas pelo governo é aumentar a compra do produto de parceiros do Mercosul, como Paraguai, Bolívia e Argentina, e diminuir as tarifas de países como China e México.

Mas a medida do governo é apenas paliativa, e não deve ser suficiente para combater a alta dos preços. Isso porque o feijão carioca, que responde por 70% do consumo brasileiro, praticamente não é encontrado no mercado internacional.

Assim, a medida do governo serviria para aumentar, sobretudo, a importação de feijão-preto. Importar feijão-preto não é uma novidade no Brasil: todos os anos, o país compra entre 100.000 e 150.000 toneladas do produto. A Argentina, segundo maior produtor de feijão do Mercosul, destina ao Brasil 100% de sua produção de feijão-preto, de acordo com um levantamento do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

Mas além de ser consumido em grande escala apenas no Rio de Janeiro e no Sul do país, essa variedade do grão não vem sofrendo tanto com a inflação – até junho foi de “apenas” 18,8%.

De modo a assegurar que um desabastecimento como este não volte a acontecer, algumas ações governamentais poderiam ajudar. Para Alcido Wander, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, uma das soluções seria estabelecer um preço mínimo da saca de feijão, para incentivar os agricultores a apostar no produto.

Outra opção seria estocar parte dos grãos para tempos de crise. O estoque brasileiro do grão, que já foi de 686.000 toneladas em 2010/2011, não passa de 103.000 em 2014/2015, segundo a Conab. O pesquisador aponta que, hoje, estoques como esses vêm sendo feitos por intermediários – como os supermercados ou os fabricantes, que se aproveitam da alta dos preços para lucrar mais. A falta de recursos estatais impediu ambas as ações e não permitiu ao governo olhar mais atentamente para o mercado de feijão.

Nas próximas safras, a expectativa é de normalização da produção, uma vez que o valor está alto e os produtores voltarão a plantar. “Mas o preço não deve voltar a um patamar de 4 reais como vimos em anos anteriores”, afirma Wander. No geral, a delicada engrenagem do feijão deve voltar aos eixos – abrindo espaço para surgir um novo vilão da inflação.

(Carol Oliveira)

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