Mitocôndrias: organelas de produção de energia celular viraram queridinhas ao serem associadas ao metabolismo e longevidade (Louisa Howard/Wikimedia Commons)
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Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 13h24.
Há muitos anos, a ciência conhece o papel das mitocôndrias: são estruturas que convertem os nutrientes dos alimentos que ingerimos em ATP, que é o combustível para a produção de energia dentro das células.
Nos últimos anos, porém, essas organelas conquistaram fama para além do meio científico ao serem associadas a questões de metabolismo e longevidade, segundo uma reportagem do New York Times.
De forma quase repentina, as mitocôndrias se tornaram "queridinhas" de livros sobre metabolismo e de um mercado de suplementos que prometem melhorar seu desempenho e, de certa forma, retardar o envelhecimento.
O interesse pelas mitocôndrias está ligado a funções que vão além da produção de energia e foca em sua contribuição para o sistema imunológico, para a comunicação entre órgãos e para a manutenção da atividade celular. Ou seja, são estruturas importantes para a saúde no geral.
Com o envelhecimento, as mitocôndrias caem em quantidade e qualidade. Na produção de energia, elas geram espécies reativas de oxigênio (ROS), que danificam as células. Ao mesmo tempo, os mecanismos de "limpeza" celular perdem eficiência, favorecendo o acúmulo de lesões e o declínio de suas funções ao longo do tempo.
Esse processo de degradação é apontado por alguns cientistas como um dos fatores para o desenvolvimento de doenças associadas ao envelhecimento, como Alzheimer e câncer.
"As mitocôndrias simplesmente desistem mais cedo do que outras partes da célula devido ao desgaste a que são submetidas", disse o Dr. Pinchas Cohen, reitor da Escola de Gerontologia Leonard Davis da Universidade do Sul da Califórnia, ao NYT. "Eles são o canário na mina de carvão da disfunção celular", acrescentou
Para parte dos especialistas, a disfunção dessas organelas é resultado, e não a causa, do envelhecimento. "O declínio mitocondrial está precipitando o envelhecimento, ou simplesmente temos tecido velho e doente, resultando em mitocôndrias doentes?", disse o Dr. Vamsi Mootha, da Faculdade de Medicina de Harvard.
Apesar das incertezas, existe um consenso quanto aos fatores que influenciam a saúde das mitocôndrias. Por exemplo, a prática regular de exercícios físicos: estudos com biópsias musculares mostraram aumento no número e na qualidade das mitocôndrias após programas de pelo menos oito semanas de treinamento.
A alimentação também é outra questão importante — afinal, é dela que as mitocôndrias retiram sua principal matéria-prima, que são os nutrientes. Uma dieta equilibrada, com presença de carboidratos ricos em fibras e gorduras de boa qualidade, favorece o funcionamento dessas organelas, segundo os especialistas ouvidos pelo NYT.
O sono também está relacionado à manutenção das mitocôndrias saudáveis. Durante o descanso noturno, ocorre parte da eliminação de componentes danificados ao longo do dia, mecanismo imprescindível para preservar a função celular.
Já as soluções divulgadas no mercado de bem-estar têm base científica limitada, segundo o NYT. Suplementos que prometem aumentar os níveis de NAD+, molécula ligada ao metabolismo celular, apresentaram resultados em estudos com animais, mas sem conclusões sólidas em humanos.
Outras práticas como banhos de gelo, saunas e terapias com luz vermelha, apresentadas como formas de "ativar" as mitocôndrias, têm a mesma limitação: a maior parte das evidências vem de pesquisas em animais ou em células em laboratório, sem comprovação clara de benefício para pessoas.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado no periódico The EMBO Journal indicou que nem toda alteração na função mitocondrial é necessariamente negativa.
De acordo com a pesquisa, um leve estresse nas mitocôndrias pode acionar respostas adaptativas da célula e ativar o sistema imune inato, o que, em modelos experimentais, esteve associado ao aumento da longevidade e à maior resistência a doenças.
No entanto, a disfunção intensa e prolongada pode levar ao colapso desses sistemas e ao avanço dos danos celulares e, consequentemente, colaborar para o surgimento de doenças.
Ainda não há resultados confirmados em humanos, mas os autores reforçam que estímulos moderados, como o exercício, tendem a ter efeito protetor, enquanto sobrecargas contínuas de estresse podem contribuir para o envelhecimento.