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Por que os Houthis, aliados do Irã no Iêmen, não se juntaram à guerra?

Grupo armado é aliado ideológico do Irã, tem apoio financeiro do país, e estão em posição estratégica para potencialmente controlar o Mar Vermelho, importante rota marítima – mesmo assim, não há nada de novo no fronte iemenita

Protesto no Iêmen em março de 2025: ideologia, recursos e fragilidade política ajudam a explicar grupo não entrar na guerra do Irã (Anadolu/Getty Images)

Protesto no Iêmen em março de 2025: ideologia, recursos e fragilidade política ajudam a explicar grupo não entrar na guerra do Irã (Anadolu/Getty Images)

Publicado em 15 de março de 2026 às 08h01.

O Irã, como a principal potência islâmica xiita, uma escola muçulmana de minoria em comparação à ideologia mais comumente aderida sunita, construiu aliados pela região na forma de grupos armados que também seguem a interpretação xiita. Dentre eles, estão o poderoso Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen, envolvidos em um amplo conflito civil que assola o país há anos.

Após os ataques conjuntos de Israel e dos EUA, o Hezbollah rapidamente se juntou à guerra ao lado de seu patrocinador, resultando em ataques e incursões israelenses no Líbano. Mas os rebeldes Houthis, altamente armados, localizados em uma posição que permite ataques por toda a região e acesso às rotas marítimas no Mar Vermelho, não se mobilizaram.

Esse não foi o caso com outros conflitos. Uma parte importante do chamado Eixo de Resistência, uma coalizão de grupos islâmicos opostos ao ocidente, liderada e financiada pelo Irã, os Houthis reagiram violentamente ao conflito com a Palestina, entre 2023 e 2025. Altamente antagônicos a Israel, o grupo abriu fogo indiscriminadamente em navios internacionais que passavam pelo Mar Vermelho. Também conduziram extensos ataques com drones e mísseis contra Israel, o que resultou em uma forte retaliação por parte dos americanos contra o grupo.

Então, tendo em mente a natureza do conflito, iniciado pelos maiores rivais ideológicos dos Houthis, contra seu principal patrocinador, a ausência da participação do grupo levanta sobrancelhas. Até então, sua participação no conflito se limitou à retórica e grandes protestos denunciando os ataques. Analistas atribuem uma miríade de motivos para o silêncio das armas dos Houthis – de sua história à cultura política e religiosa do grupo, e acontecimentos recentes.

Veja alguns dos principais motivos que analistas julgam estar por trás da ausência dos Houthis no conflito contra os EUA e Israel:

Organização interna

Apoiadores dos houthis se reúnem durante um protesto em solidariedade ao Irã e ao Líbano, em meio ao conflito entre os EUA e Israel com o Irã, na capital iemenita, Sanaa. (Mohammed Huwais/AFP)

Apesar de serem um grupo xiita apoiado pelo Irã, a organização interna do grupo – tanto política quanto religiosa – apresenta algumas diferenças-chave que podem limitar sua participação no conflito e, no momento, se encontra fragilizada.

Ideologicamente, os Houthis pertencem a uma corrente de pensamento xiita diferente do Irã, e virtualmente endêmica ao Iêmen. O xiismo Zaydi, representado por cerca de 35% da população do Iêmen, é diferente do xiismo duodecimano, a principal linha de pensamento dessa denominação muçulmana, popular no Irã. A partir disso, e apesar de uma afinidade com o Irã, certas diferenças emergem: principal entre essas, os Houthis não reconhecem o aiatolá iraniano com o mesmo nível de autoridade que outros grupos, como o Hezbollah.

Além disso, a liderança Houthi recentemente sofreu fortes baixas, fragilizando a organização do grupo. Em agosto, ataques de Israel na capital do Iêmen, Sanaa, mataram pelo menos 12 membros sêniores da organização do grupo. Os mortos incluem o primeiro-ministro do governo iemenita liderado pelos Houthis, Ahmed al-Rahawi, e o chefe de gabinete, Mohammed al-Ghumari, essencialmente decapitando a liderança.

Essas perdas, talvez as mais intensas sofridas pelo grupo, trouxeram um cuidado adicional à tomada de decisões dos Houthis. Afinal, ainda defendem um governo frágil na capital contra grupos apoiados tanto pela Arábia Saudita quanto pelos Emirados Árabes Unidos. Isso contribui, segundo apuração da Reuters, a uma preocupação principal com sua agenda doméstica, que prioriza acima de conflitos externos. Observando retaliações israelenses contra o Hezbollah no Líbano, o grupo iemenita age com cautela – é difícil julgar quanto a mais de danos os Houthis, tanto de uma perspectiva política quanto física, são capazes de absorver.

Mesmo com as perdas, analistas acreditam que os Houthis ainda têm capacidade de ataque. Nessa semana, o chefe do grupo, Abdel-Malik al-Houthi, disse em um comunicado que “o Iêmen fica claramente do lado da República Islâmica do Irã e da população muçulmana iraniana”, enfatizando que “dedos estão no gatilho”, adicionando que a participação Houthi na guerra pode ocorrer a qualquer momento, dependendo dos desenvolvimentos. Apesar da aliança, armamentos e treinamento fornecidos pelo Irã, o grupo ainda nega ser um proxy iraniano.

Recursos, impacto e fragilidade política

SANAA, IÊMEN - A insurgência Houthi, apesar de aliada ao Irã, pode estar de mãos atadas e incapaz de se juntar ao conflito ( Mohammed Hamoud/Anadolu via Getty Images) (Anadolu/Getty Images)

Há muitos motivos por trás dos ataques conjuntos a Teerã. Principal entre eles parece ser a busca pela queda de um regime antagônico aos EUA e a Israel, mas o fato de o país providenciar recursos a diversos grupos insurgentes igualmente opostos à aliança dos países também pesa na balança. Ataques que visam limitar o fluxo desses recursos poriam em sério risco o arsenal dos Houthis e de outros grupos, que já são limitados.

Uma apuração do The National Interest, plataforma acadêmica onde diversos analistas contribuem com suas visões para acontecimentos globais, diz que os suprimentos iranianos aos grupos cairão drasticamente durante e após o conflito, e isso inclui componentes para projéteis de longa distância, capazes de infligir danos a Israel e bases americanas pelos estados do Golfo Pérsico.

“Os Houthis podem temer esgotar seus estoques atuais dessas armas contra Israel, sem um plano de reposição à vista”, diz o especialista em Oriente Médio e membro do Centro de Paz do Instituto Hudson, Nadav Samin, em sua contribuição para a plataforma.

Soma-se a isso uma noção de que uma intervenção pelo grupo provavelmente não teria impacto o suficiente para mudar o curso da guerra. Por mais que já tenham se mostrado mais do que capazes de atingir outros estados no Golfo, que são alvos principais de retaliações iranianas, as longas distâncias envolvidas em acertar alvos sensíveis em Israel e bases americanas que pontilham vastas áreas da região parecem, no momento, estar além das capacidades do grupo. Por outro lado, qualquer ataque, mesmo que de consequências meramente simbólicas, desencadearia retaliações consideravelmente maiores e mais intensas contra os Houthis, que são, comparativamente, alvos mais fáceis.

Por fim, os Houthis, que tomaram controle da capital iemenita de Sanaa após uma insurgência em 2014, ainda têm um controle frágil no poder. Enfrentam pressões políticas e militares de estados já estabelecidos adjacentes e seus proxies. Para se manterem no poder, uma nova guerra de escala consideravelmente maior do que o estado atual do grupo permite é algo a ser evitado.

Os Houthis aproveitam uma frágil trégua com a Arábia Saudita, que financia o governo internacionalmente reconhecido como legítimo do Iêmen, e suas forças armadas, e um passo em falso do grupo nessa situação sensível pode provocar o fim da trégua., e uma guerra de duas frontes para os Houthis.

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