Celulares: pesquisadores apontam que o aparelho não costuma aparecer nos sonhos porque tem pouco peso emocional no inconsciente (Pixabay)
Redatora
Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 18h58.
Última atualização em 4 de fevereiro de 2026 às 18h59.
O celular virou um dos objetos mais presentes na rotina moderna, mas quase nunca aparece nos sonhos. A estranheza cresce quando se considera a frequência com que o smartphone é usado ao longo do dia. Mesmo assim, bancos de dados e especialistas indicam que o aparelho é raro no conteúdo onírico, levantando hipóteses sobre como o cérebro seleciona imagens e símbolos durante o sono.
Uma pesquisa do site Reviews.org feita nos Estados Unidos no ano passado mostrou que pessoas checam o celular, em média, 186 vezes por dia, o que equivale a uma olhada a cada cinco minutos enquanto estão acordadas. O mesmo levantamento apontou que 46% dos entrevistados se consideram viciados.
No Brasil, onde há mais celulares do que habitantes, um estudo de 2023 do Instituto Datafolha estimou que brasileiros passam 56% do dia em frente a telas de celular e computador. Ainda assim, o aparelho aparece pouco nos sonhos, mesmo com tamanha presença na vida cotidiana.
Uma das principais evidências vem do Sleep and Dream Database, banco que reúne relatos de sonhos obtidos por diferentes fontes, como voluntários, pesquisas científicas e registros históricos. Segundo a plataforma, apenas 0,99% dos quase 4,5 milhões de sonhos catalogados registram a palavra “phone” (telefone, em inglês) ou variações.
O psicólogo e pesquisador de sonhos Kelly Bulkeley, criador do banco, analisou a presença de tecnologia nos sonhos em um artigo de 2016. Na época, ele identificou que celulares apareciam em 3,55% dos sonhos entre mulheres e em 2,69% entre homens. Apesar de ainda ser um índice baixo, o percentual foi superior ao de itens como filmes, vídeos e televisão, que também surgiram com frequência limitada.
Bulkeley não apresentou uma explicação definitiva, mas destacou um contraste: meios de transporte costumam ser muito mais comuns nos sonhos do que tecnologias de comunicação. Para o pesquisador, isso pode ocorrer porque experiências ligadas a deslocamento têm impacto sensorial e físico mais intenso.
Na interpretação dele, carros, viagens e movimento afetam o corpo de forma mais direta e visceral, enquanto celulares, vídeos e computadores podem ser envolventes, mas não provocam o mesmo tipo de estímulo corporal. Essa diferença ajudaria a explicar por que alguns elementos do cotidiano se tornam mais frequentes nos sonhos do que outros.
Outra hipótese é defendida pela psicoterapeuta Brigitte Holzinger, diretora do Instituto de Pesquisa da Consciência e dos Sonhos, em Viena, na Áustria. Segundo ela, o celular pode não aparecer nos sonhos porque funciona mais como uma plataforma do que como um gatilho emocional em si.
A ideia é que emoções profundas tendem a surgir com mais força em experiências diretas — como interações presenciais — do que em situações mediadas por uma tela. O artigo exemplifica esse contraste ao comparar o impacto de ver algo nas redes sociais com o de presenciar a mesma situação pessoalmente, algo que costuma ser mais intenso do ponto de vista emocional.
A psiquiatra Sham Singh, da rede Winit, também apresentou uma explicação semelhante em 2025. Segundo ela, o telefone é um dispositivo usado de maneira consciente, mas com pouca carga simbólica, o que reduziria sua chance de aparecer nos sonhos.
Ela ainda argumenta que a tecnologia muda tão rápido que o subconsciente pode não ter tempo de incorporar esses objetos à “linguagem simbólica” típica do sonho. Nessa visão, os sonhos refletem emoções, desejos e medos — e objetos que não despertam sentimentos fortes teriam menos probabilidade de surgir com frequência.
Uma terceira explicação citada no texto vem da jornalista científica Alice Robb, autora do livro Why We Dream: The Transformative Power of Our Nightly Journey. Em entrevista ao site The Cut, ela relacionou o tema à “hipótese de simulação de ameaça”.
Essa teoria sugere que sonhar pode funcionar como uma forma de lidar com medos e ansiedades em um ambiente seguro, como se fosse um treinamento mental para situações estressantes. Dentro dessa lógica, os sonhos teriam sido moldados ao longo da evolução humana, o que faria com que temas ligados à sobrevivência aparecessem mais do que elementos recentes, como tecnologias modernas.
Robb também menciona que pessoas tendem a sonhar menos com leitura e escrita, por exemplo, e mais com situações como luta e perigo, mesmo quando isso não faz parte da vida real.
Apesar das hipóteses, o texto reforça que sonhos são complexos e não há uma explicação única capaz de servir para todos.
Conforme destaca a neurofisiologista William Dement, um dos nomes mais conhecidos da medicina do sono, o sonho permite que cada pessoa seja “insana, em silêncio e com segurança todas as noites", e talvez o celular simplesmente não seja um elemento central nesse cenário.