Gato: Pesquisas sugerem que a convivência com felinos ativa hormônios ligados ao vínculo social e auxilia na regulação emocional e do estresse (Nils Jacobi/Getty Images)
Redatora
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 07h10.
Gatos e humanos formam vínculos mais complexos do que se imaginava. Pesquisas recentes sugerem que a convivência diária pode influenciar o cérebro, o humor e o estresse das duas espécies. A ocitocina, hormônio associado ao afeto e à confiança, aparece como elemento central nessa interação.
A ocitocina aumenta durante comportamentos sociais positivos, como cuidado parental, contato físico e convivência próxima. Esse hormônio reduz o cortisol, principal marcador fisiológico do estresse, e ativa mecanismos de relaxamento no organismo.
Até pouco tempo, os efeitos da ocitocina eram mais estudados na relação entre cães e donos. Experimentos mostraram que brincadeiras rápidas aumentavam os níveis hormonais em ambos. Nos gatos, porém, esse processo só começou a ser detalhado mais recentemente.
Embora sejam mais discretos ao demonstrar afeto, os gatos também provocam respostas de conforto e companheirismo em seus tutores. Um estudo japonês de 2021, publicado na revista científica Animals, observou aumento de ocitocina em mulheres que acariciaram seus gatos por alguns minutos, em comparação com períodos de repouso sem o animal.
O ronronar e o toque podem desencadear esse mesmo efeito. De acordo com O estudo da revista Psychosomatic Medicine, pesquisadores já haviam registrado, em 2002, que o contato suave com o gato reduzia cortisol e ajudava a modular pressão arterial e dor.
Além disso, outra pesquisa recente identifica quando o hormônio do afeto aumenta na interação com gatos. Um estudo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science em 2025 mostrou que abraçar, acariciar ou deixar o gato se acomodar no colo elevava a ocitocina em humanos e felinos, desde que o contato não fosse forçado.
O estilo de vínculo do gato também influencia o processo. Gatos com apego seguro tendem a iniciar contato, permanecer próximos e apresentar maior aumento hormonal. Em contrapartida, felinos ansiosos já têm níveis altos antes do toque e podem se sobrecarregar com estímulos.
Já os gatos que evitam contato mantêm distância e não apresentam mudanças significativas.
Quando o contato é imposto, a ocitocina tende a diminuir em gatos ansiosos, indicando desconforto. A liberação do hormônio parece ocorrer quando a interação respeita o ritmo do animal.
Gatos não dependem de contato visual prolongado para criar laços. Eles utilizam sinais sutis, como a piscadela lenta, associada à segurança e confiança. O ronronar também participa da comunicação afetiva e pode modular frequência cardíaca e estado emocional em humanos.
Ao longo do tempo, esses pequenos episódios de afeto servem como amortecedor contra estresse e ansiedade, funcionando como uma forma de apoio social doméstico.
Estudos indicam respostas hormonais mais intensas em interações entre cães e humanos. Em um experimento feito pela BBC em 2016, os cães apresentaram aumento médio de 57% na ocitocina após 10 minutos de brincadeira, enquanto os gatos tiveram cerca de 12%.
Essa diferença pode estar ligada à evolução das espécies. Cães foram domesticados em grupos sociais, buscando contato visual e aprovação humana. Já os gatos derivam de predadores mais solitários e reservam comportamentos afetivos para situações específicas.
Com isso, a confiança felina não é automática. Ela tende a ser conquistada e mantida ao longo do tempo, sustentada por interações sutis e seletivas.