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Agência
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 17h03.
Hospitais na China passaram a usar inteligência artificial (IA) na triagem de pacientes e na análise de exames. O movimento ganhou força com os grandes modelos de IA.
O Hospital Tsinghua Changgung de Pequim opera um sistema de triagem por IA. No miniaplicativo do hospital no WeChat, o usuário insere sintomas. A IA realiza perguntas e indica o setor mais adequado. Ao digitar “dor no quadrante superior direito do abdômen”, a IA perguntou sobre padrão dos sintomas e presença de febre, náusea ou vômito. Após o questionário, recomendou hepatologia.
“O hospital desenvolve um modelo de IA para gestão de doenças hepáticas. A versão inicial já opera no miniaplicativo, faz pré-triagem baseada em sintomas e sugere encaminhamentos com boa precisão”, disse Yang Ming, chefe da Hepatologia do Hospital Tsinghua Changgung de Pequim. Segundo ele, o sistema cruza sintomas e exames laboratoriais para orientar a triagem.
Médicos relatam que aumentou o número de pacientes que chegam com orientações obtidas por IA. “Alguns usam IA antes da consulta para organizar ideias e vêm com raciocínio mais claro”, afirmou Chen Xiuyuan, vice-chefe da Cirurgia Torácica do Hospital Popular da Universidade de Pequim. Os pacientes utilizam grandes modelos para obter explicações preliminares e possíveis caminhos diagnósticos a partir de histórico e exames.
Yang Ming avalia que esse comportamento funciona como “educação prévia em saúde”, o que facilita a compreensão das decisões e melhora a comunicação durante a consulta.
A IA também atua no apoio diagnóstico. Radiologistas citam ganhos na detecção de nódulos muito pequenos. “Para nódulos menores que 5 mm, a taxa de detecção humana é baixa, enquanto a IA aumenta a sensibilidade”, disse Wang Yi, chefe da Radiologia do Hospital Popular da Universidade de Pequim.
O uso de reconstrução tridimensional (3D) reforça esse processo. “Se compararmos a cirurgia a dirigir, a tomografia é como um mapa de papel; com reconstrução 3D por IA, temos um mapa eletrônico mais preciso”, afirmou Chen Xiuyuan. O algoritmo funciona no hospital há anos e permite visualizar estruturas pulmonares complexas com maior acurácia anatômica.
No planejamento cirúrgico, ortopedistas também relatam ganhos. Li Haifeng, vice-chefe da Cirurgia de Artroplastia do Hospital Geral do Exército Popular de Libertação, explicou que, antes, a equipe preparava vários tamanhos de próteses para evitar incompatibilidades. “Hoje, a IA analisa a tomografia e prevê o tamanho da prótese com base em bancos de dados, o que reduz desperdícios.”
Zhang Yunzeng, vice-chefe da Cirurgia Torácica II do Centro Clínico de Saúde Pública de Shandong, afirmou que a IA reduz o volume de triagem de imagens e libera médicos para análises integradas, planos personalizados e casos complexos.
O avanço gerou perguntas recorrentes: a IA substituirá médicos? Os profissionais afirmam que a IA é ferramenta auxiliar e não substitui decisões clínicas.
“Recomendo IA para compreender a doença, não para executar as sugestões”, disse Li Xiaohong, chefe da Gastroenterologia do Hospital Oriental da Universidade de Medicina Chinesa de Pequim.
Yang Ming afirmou que modelos de triagem dependem da qualidade das bases de dados. Wang Yi destacou que “os conteúdos são lógicos e estruturados, mas a aplicabilidade a cada paciente exige avaliação clínica”. Para leigos, avaliar deficiências é difícil.
Especialistas relatam que relatórios extensos por IA aumentam a ansiedade. “A IA lista muitas possibilidades e isso induz pânico, mesmo quando hipóteses não têm relevância clínica”, disse Li Haifeng. Li Xiaohong reforçou que “muitas doenças são multifatoriais”, e que apenas sintomas descritos raramente bastam para um diagnóstico.
Yang Ming citou um caso: paciente com transaminases elevadas, histórico de hepatite B, esteatose, consumo recente de álcool e uso de estatinas. “A IA pode sugerir antivirais com base na hepatite B e ignorar álcool e medicamentos, o que distorce a recomendação.”
Na radiologia, Zhang Yunzeng reforçou que apenas IA pode ignorar lesões iniciais ou atípicas se não houver avaliação multidimensional. Li Xiaohong resumiu: “Modelos grandes liberam mãos, não substituem cérebros.” Zhang Yunzeng acrescentou que a medicina envolve apoio psicológico, o que a IA não oferece.
A comunidade científica discute alucinações da IA — quando o sistema inventa conteúdos. “Às vezes a IA comete erros curiosos”, disse Zhang Daoqiang, diretor do Instituto de IA da Universidade Aeronáutica e Astronáutica de Nanjing, citando confusões entre ruídos e lesões e referências fictícias. Segundo ele, reduzir falhas exige melhorias em dados e algoritmos, com controle de qualidade e robustez em ambientes reais.
Qin Jie, professor da mesma universidade, defende a explicabilidade. “A IA é uma caixa-preta. Precisamos explicar o caminho da decisão para apoiar julgamentos.” Ele citou combinações entre modelos gerais e cenários verticais (“generalistas + especialistas”), Wang Yi reforçou que “IA é ferramenta, não atalho”.
Especialistas defendem integração de dados, padrões técnicos e sistemas de avaliação. Juristas também analisam impactos. Ma Yide, da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, afirmou que a responsabilidade civil é complexa e que será necessário aperfeiçoar leis, mecanismos de responsabilidade, segurança de dados e ética.
A Administração Nacional de Produtos Médicos da China classifica softwares médicos baseados em IA como dispositivos médicos, sujeitos a registro e fiscalização. Yang Ming afirmou que “pacientes não têm responsabilidade legal ao usar IA; médicos, sim”, e defendeu uso dentro do marco legal, com segurança de dados e ética, para que a tecnologia sirva à essência da medicina.