Ciência

Fotossíntese no escuro: descoberta na Califórnia pode mudar busca por ETs

Nas profundezas do sistema de cavernas Carlsbad, cientistas recentemente descobriram micróbios capazes de adquirir energia da luz de maneira semelhante às plantas – só que no escuro total

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Um grupo de cientistas, focado no estudo de microrganismos subterrâneos, encontrou recentemente, nas profundezas do sistema de cavernas americano de Carlsbad, na Califórnia, em meio à escuridão, uma parede que respondeu à luz das lanternas com um brilho verde-iridescente intenso.

Sob análise mais cautelosa, os pesquisadores Hazel Barton e Lars Behrendt, reportando suas descobertas à BBC, descobriram que o brilho se dava devido a uma colônia de micróbios chamados cianobactérias um tipo de bactéria capaz de transformar luz em energia – que havia se estabelecido nas regiões mais escuras do sistema de cavernas.

Na superfície, essas bactérias adquirem sua energia por meio de fotossíntese, processando a luz do sol capturada por células chamadas de clorofila em uma reação química, de maneira semelhante a plantas, no mesmo processo que faz com que plantas tenham a cor verde.

O encontro inesperado de uma colônia tão grande de cianobactérias no escuro total foi surpreendente – todavia, esse tipo de bactéria é capaz de alterar o tipo de clorofila em seus corpos, a fim de se adaptar a diferentes tipos de luz.

A luz, uma forma de energia, existe em um espectro, que em si é determinado pelo tamanho das ondas de energia que viajam pelo espaço. A luz visível emitida pelo Sol que nós percebemos representa apenas uma parte desse espectro. Nossos olhos são incapazes por si só de perceber a presença de luz ultravioleta ou infravermelha, por exemplo, mas outros seres vivos evoluíram em função desses outros tipos de luz. As cianobactérias encontradas na caverna, por sua vez, adaptaram sua clorofila para absorver luz infravermelha.

"A rocha calcária que compõe a caverna absorve quase toda a luz visível, mas para a luz infravermelha, as cavernas são praticamente um salão de espelhos", diz Barton à BBC. E, de fato, quando os pesquisadores mediram a quantidade de radiação infravermelha nos cantos mais escuros do sistema de cavernas, eles descobriram que a concentração de radiação nessa parte do espectro era de cerca de 695 vezes maior do que nos níveis superiores, mais próximos da superfície.

Entusiasmados, os pesquisadores buscaram vida semelhante em outros percursos menos explorados do sistema de cavernas, e em cada caso encontraram o mesmo tipo de cianobactérias sobrevivendo apenas por fotossíntese. "Mostramos que eles não apenas vivem lá embaixo, mas também realizam fotossíntese em um ambiente completamente protegido, onde provavelmente permaneceram intocados por 49 milhões de anos", diz Behrendt, também para a BBC.

Vida no espaço

Por mais que tenha sido inesperada, a existência desses organismos já era documentada desde o fim do século XIX. Sabe-se que, além de serem capazes de conduzir fotossíntese por meio de luz ultravioleta, esses organismos também conseguem alterar rapidamente o tipo de clorofila em seus corpos, sendo capazes de sobreviver em ambientes tanto com luz visível quanto apenas com radiação infravermelha.

Essas descobertas repercutem com as formas que a vida poderia encontrar em outros planetas, já que a vasta maioria das estrelas no nosso universo são as chamadas “anãs vermelhas”, e, por consequência, a vasta maioria de planetas rochosos como a Terra, orbitam estrelas desse tipo, que emitem radiação infravermelha.

A nova perspectiva pode mudar a busca por vida extraterrestre, que foi focada até então principalmente na procura de sistemas semelhantes ao nosso, com água líquida, que orbitam uma estrela emitindo luz no espectro visível e com temperaturas que nós consideraríamos propícias para a vida.

À luz disso, os pesquisadores propuseram à Nasa que trabalhassem juntos a fim de encontrar os limites absolutos onde a vida que depende de fotossíntese pode viver. Isso envolveria expedições para as cavernas mais profundas e escuras, para medir exatamente o mínimo de luz infravermelha que esses organismos precisam para sobreviver. Essa informação, por sua vez, poderia remodelar e ampliar o escopo de nossas buscas por vida fora da Terra.

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