Estudo mostra o que pombos revelam sobre dopamina e vício em celular (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
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Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 06h50.
Os pombos usados em um experimento de psicologia nos anos 1970 ajudam a explicar por que tantas pessoas hoje têm dificuldade de reduzir o uso de celulares, redes sociais e aplicativos.
De acordo com o New York Times, o estudo observou que, diante de um sinal que indicava recompensa, os animais passaram a priorizar o estímulo visual em vez da própria comida.
Na prática, o psicólogo Robert Boakes, da Universidade de Sydney, percebeu que o comportamento não era motivado por “gratificação instantânea”, mas por um mecanismo que intensifica desejo e expectativa.
O mesmo princípio aparece no uso moderno de telas, marcado por notificações, ícones e alertas que funcionam como gatilhos.
O fenômeno foi chamado de “rastreamento de sinal”, quando o animal se fixa no sinal associado à recompensa e passa a repetir o comportamento, mesmo que isso prejudique sua necessidade real.
No estudo, pombos famintos foram colocados em uma caixa comprida e aprenderam que uma luz piscando em uma extremidade indicava a chegada de comida na outra ponta. No início, as aves ficavam perto do alimento, mas, com o tempo, a luz se tornou o principal foco.
Em alguns casos, os pombos passaram a bicar o sinal milhares de vezes por hora. A atenção era tão absorvida pela luz que alguns animais deixavam de se alimentar, mesmo com comida disponível.
O comportamento chamou atenção porque a luz não era a recompensa em si, mas apenas um aviso de que ela poderia surgir.
Neurocientistas apontam que smartphones e aplicativos repetem esse padrão ao transformar sinais em estímulos constantes. Ícones coloridos, pontos vermelhos, vibrações, toques e alertas funcionam como indicadores de possível recompensa, como uma mensagem, curtida ou resposta.
Em vez de oferecer satisfação, esses sinais aumentam a vontade de checar a tela. A repetição cria um ciclo de expectativa e busca por novidades, que pode ocorrer mesmo quando a pessoa tem outras necessidades mais importantes no momento, como descanso, foco ou interação presencial.
Esse tipo de estímulo é reforçado pela imprevisibilidade. Nem toda checagem traz uma recompensa, o que pode manter o comportamento ativo por mais tempo.
Pesquisas em neurociência indicam que a dopamina está ligada à motivação e ao desejo, e não apenas ao prazer. Isso significa que o cérebro pode ser atraído por sinais que sugerem recompensa, mesmo sem experimentar satisfação real depois.
Na prática, o sistema dopaminérgico pode ser ativado por estímulos que preveem algo importante, como pertencimento social. Por isso, o celular se torna um objeto de alta atração, mesmo quando o uso repetido não melhora o humor nem reduz ansiedade.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam que passam tempo no celular sem perceber e, ao final, não se sentem mais descansadas ou satisfeitas.
Especialistas sugerem que limitar o tempo pode não ser suficiente se o dispositivo continuar disponível o tempo todo. A recomendação é reduzir a exposição aos sinais que acionam o impulso, criando regras práticas no cotidiano. Veja algumas delas:
A lógica é diminuir o poder do estímulo constante e ampliar oportunidades de recompensa fora das telas, principalmente em fases de desenvolvimento.