Ciência

Corrida contra o Alzheimer: como a China quer liderar a cura da doença

Com população envelhecendo rapidamente, país investe em medicamentos, cirurgias experimentais e diagnóstico precoce para enfrentar explosão de casos até 2050

Alzheimer: planos da China para acelera a corrida global contra a doença (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Alzheimer: planos da China para acelera a corrida global contra a doença (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 07h30.

A China se prepara para enfrentar uma das maiores crises de saúde pública de sua história: o avanço acelerado da doença de Alzheimer. Atualmente, quase 30% das pessoas com Alzheimer ou outras formas de demência vivem no país, segundo análise publicada na revista científica Nature, com base em dados epidemiológicos recentes.

De acordo com estimativas citadas e estudos demográficos chineses, o número de casos pode chegar a 66 milhões até 2050. Outras projeções acadêmicas indicam que o total pode ultrapassar 100 milhões, dependendo da evolução das taxas de diagnóstico e do envelhecimento populacional.

Diante desse cenário, o governo chinês incluiu o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas em planos nacionais de saúde até 2030, com foco em ampliar o rastreio, o diagnóstico precoce e o tratamento da demência. A estratégia envolve expansão de ensaios clínicos, fortalecimento de biobancos genéticos e financiamento a pesquisas básicas e aplicadas.

O impacto do envelhecimento na China

Em 2021, cerca de 17 milhões de pessoas na China conviviam com Alzheimer ou demências relacionadas, segundo relatório citado pela revista científica. O envelhecimento acelerado da população — resultado do aumento da expectativa de vida e da queda na taxa de natalidade — amplia o impacto social e econômico da doença.

Dados demográficos oficiais chineses indicam que a população em idade ativa vem diminuindo, enquanto cresce o número de idosos dependentes de cuidados prolongados. Especialistas afirmam que essa combinação pressiona os sistemas de saúde e assistência social, tornando o Alzheimer uma prioridade estratégica de política pública.

Investimento em pesquisa

A China ampliou seus investimentos em ciência e tecnologia nos últimos anos. Segundo dados oficiais do governo, o país destinou mais de US$ 90 bilhões à pesquisa básica e aplicada em 2024. Embora o financiamento específico para Alzheimer represente uma fração desse total, pesquisadores afirmam que os recursos destinados à área vêm crescendo de forma consistente.

Uma das estratégias destacadas por cientistas internacionais é o incentivo ao retorno de pesquisadores chineses que atuavam no exterior. Colin Masters, neuropatologista da Universidade de Melbourne, afirmou à Nature que há um movimento significativo de cientistas retornando a centros como Pequim, Xangai e Guangzhou.

Instituições como o Laboratório Oujiang, em Wenzhou, receberam financiamento bilionário de governos locais para pesquisa em saúde cerebral e medicina regenerativa, segundo informações divulgadas por seus próprios dirigentes e reportadas pela imprensa científica.

Análise de dados do Scopus mostra que a China se tornou o segundo país com maior número de publicações científicas sobre Alzheimer, atrás apenas dos Estados Unidos.

Novos medicamentos e ensaios clínicos

Entre as frentes de pesquisa estão medicamentos que atuam no receptor TrkB, ligado ao fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Pesquisadores da Universidade de Tecnologia Avançada de Shenzhen relataram à revista avanços em compostos experimentais que buscam proteger neurônios e reduzir marcadores associados à doença.

Outro candidato em testes clínicos é o DI-3-n-butilftalida (NBP), derivado do aipo chinês. Estudos pré-clínicos e ensaios randomizados publicados no periódico indicaram melhora cognitiva em pacientes com comprometimento leve associado ao Alzheimer.

O crescimento da pesquisa clínica é documentado por registros de ensaios analisados por pesquisadores internacionais: o número de estudos ativos sobre Alzheimer na China passou de nove em 2021 para mais de 100 em 2024.

Pesquisas sobre o sistema glinfático — mecanismo descrito inicialmente por cientistas da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos — também ganharam espaço na China. Equipes da Universidade Jiao Tong de Xangai e do Hospital Qiushi, em Hangzhou, vêm testando procedimentos voltados à melhoria da drenagem linfática cerebral.

Após relatos de uso indiscriminado da técnica, a Comissão Nacional de Saúde da China restringiu a aplicação de determinadas cirurgias até que estudos clínicos formais comprovem segurança e eficácia, segundo comunicado oficial citado pela imprensa científica.

Diagnóstico precoce e genética

A detecção precoce é outra frente estratégica. Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong criaram biobancos com dados genéticos de milhares de indivíduos de ascendência Han, historicamente sub-representados em bancos internacionais.

Estudos publicados identificaram variantes associadas ao gene TREM2, relacionadas ao aumento do risco e à progressão mais rápida da doença. A mesma equipe relatou o desenvolvimento de um painel sanguíneo com cerca de 96% de precisão para identificação do Alzheimer, segundo resultados apresentados em pesquisas ainda em processo de revisão científica.

Especialistas internacionais afirmam que a identificação de biomarcadores capazes de detectar alterações até 15 anos antes dos sintomas clínicos pode transformar a abordagem atual, que ainda depende majoritariamente do diagnóstico em estágios moderados ou avançados.

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