Gatos falam?: cientistas estudam a comunicação de gatos (Montagem EXAME/Exame)
Redação Exame
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 15h03.
Os gatos podem não falar como humanos, mas, para alguns donos dos pets, eles têm uma linguagem clara. Para a alegria dos tutores, a ciência mostra que os gatinhos definitivamente se comunicam de formas mais sofisticadas do que se imaginava.
Vocalizações como o miado e o ronronar carregam informações importantes sobre identidade, contexto social e até sobre a longa convivência dos felinos com pessoas.
Cientistas agora investigam até que ponto esses sons funcionam como uma espécie de “linguagem” individualizada.
Um estudo de Danilo Russo, Anja Birgit Schild e Mirjam Knörnschild, pesquisadores de universidades da Itália e da Alemanha, publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, mostra que sinais vocais de animais frequentemente codificam características como idade, sexo e condição física, além de trazerem “assinaturas individuais” únicas.
“O reconhecimento individual representa o nível mais sofisticado de reconhecimento em animais”, afirmam os pesquisadores no artigo. Segundo eles, esse tipo de diferenciação vocal tem papel central na evolução de processos sociais, como cooperação e aprendizado social.
No caso dos gatos domésticos (Felis catus), o interesse científico cresce porque a espécie passou por profundas transformações comportamentais desde a domesticação.
Antes mais solitários, os gatos se adaptaram à vida em grupos sociais próximos aos humanos.
“Gatos domésticos exibem um repertório vocal rico, que inclui vocalizações direcionadas tanto a outros gatos quanto a humanos”, escrevem os autores. Eles destacam que essa flexibilidade vocal ajuda os animais a “ajustar estratégias de comunicação e elicitar respostas de cuidadores”.
Entre os sons mais conhecidos estão o ronronar e o miado, distintos tanto na forma quanto na função.
O ronronar é definido como um som contínuo, de baixa frequência, produzido com a boca fechada durante a inspiração e a expiração. “O ronronar é frequentemente visto como um sinal afiliativo de baixa excitação, ligado ao contato social e ao vínculo”, explicam os cientistas.
Ainda assim, ele também aparece em contextos de estresse, dor ou solicitação de comida.
Já o miado é muito mais variável. Produzido com a boca aberta, ele pode mudar de tom, duração e melodia conforme a situação.
“Miados são relativamente raros nas interações entre gatos, mas comuns na comunicação entre gatos e humanos”, apontam os autores. Segundo o estudo, essa vocalização parece ter sido moldada pela convivência com pessoas, tornando-se uma ferramenta eficaz para chamar atenção ou pedir comida.
Para entender se esses sons carregam informações sobre a identidade de cada gato, os pesquisadores analisaram gravações feitas em 2020 e 2021, em casas e abrigos de Berlim.
Foram estudados miados e ronronares de 27 gatos domésticos, além de comparações com vocalizações de espécies selvagens, como o gato-do-mato e o guepardo. Os resultados mostram que ambos os sons permitem identificar indivíduos, mas com diferenças marcantes.
“Nossos resultados mostram claramente uma assinatura individual mais forte no ronronar do que no miado”, escrevem os pesquisadores.
Em análises estatísticas, até 85,5% dos ronronares foram corretamente associados ao gato emissor, contra cerca de 64% dos miados.
O achado surpreende porque o miado costuma ser visto como mais expressivo.
“Isso é algo contraintuitivo”, admitem os cientistas, já que os miados são considerados mais flexíveis e dependentes do contexto.
A explicação pode estar na anatomia: o ronronar parece refletir características físicas estáveis do trato vocal, enquanto o miado varia conforme emoção, aprendizado e interação com humanos.
A comparação com felinos selvagens reforça essa ideia. O estudo mostra que os miados dos gatos domésticos são muito mais variados do que os de espécies não domesticadas.
“A domesticação expandiu substancialmente a variabilidade dos miados”, afirmam os autores, sugerindo que a convivência com humanos favoreceu sons mais plásticos, capazes de provocar respostas específicas nas pessoas.
Os pesquisadores destacam que a comunicação dos gatos é moldada por duas forças distintas: de um lado, vocalizações estáveis, como o ronronar, que preservam fortes marcas individuais; de outro, sons flexíveis, como o miado, adaptados ao diálogo cotidiano com humanos.
“Mostramos que a domesticação remodelou a comunicação acústica dos gatos de maneiras complexas”, resume o artigo, abrindo caminho para uma compreensão mais profunda de como animais ajustam sua “linguagem” ao viver ao nosso lado.