Ciência

Como professores usam TikTok para ensinar dentro (e fora) da sala de aula

Pesquisa entrevistou professores que produzem conteúdo e descobriu que vídeos curtos aproximam docentes e estudantes

'TeachTok': professores que produzem conteúdo para as redes sociais conseguem maior conexão com os alunos, diz pesquisa (Li Hongbo/VCG via Getty Images/Getty Images)

'TeachTok': professores que produzem conteúdo para as redes sociais conseguem maior conexão com os alunos, diz pesquisa (Li Hongbo/VCG via Getty Images/Getty Images)

Maria Eduarda Lameza
Maria Eduarda Lameza

Estagiária de jornalismo

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 05h00.

Última atualização em 3 de fevereiro de 2026 às 17h46.

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O TikTok deixou de ser apenas uma plataforma de entretenimento e passou a funcionar como porta de entrada para o aprendizado de milhões de jovens. É o que aponta a pesquisa “Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem”, do Reglab, divulgada nesta terça-feira, 3.

O Reglab é um centro de pesquisas independente que, a pedido do TikTok Brasil, estudou como professores têm usado a plataforma de vídeos curtos para se conectar com seus estudantes e com outros docentes.

Esse nicho da rede focado em conteúdos de aprendizagem é conhecido como "Teachtok". Segundo dados da pesquisa, mais da metade dos adolescente entre 13 e 17 anos está na plataforma. Desses, 72% utiliza o aplicativo para pesquisas escolares. O estudo ainda levantou que a #Edutok tem quase 200 bilhões de visualizações. 

Pedro Henrique Ramos, CEO do Reglab, explica que o objetivo da pesquisa foi investigar como os professores usam o TikTok como uma "extensão da sala de aula."

"Nosso foco não foi em influenciadores de educação, então pessoas que trabalham unicamente nas redes sociais, mas em profissionais que estão dando aula e que também utilizam o TikTok como uma extensão do trabalho ou até uma segunda fonte de renda", afirma Pedro. 

Para isso, os pesquisadores utilizaram duas metodologias. Em um primeiro momento, levantaram todas as informações possíveis sobre o tema e, em seguida, entrevistaram esses professores em profundidade.

Foram entrevistados sete profissionais das redes pública e privada que lecionam no ensino fundamental, médio e em cursinhos pré-vestibulares e que já produzem conteúdo a alguns anos, mas não são muito famosos.

"Queríamos ouvir quem está na linha de frente para entender, a partir das histórias e práticas desses professores, como o TikTok tem sido utilizado como ferramenta de apoio à aprendizagem no Brasil", pontua Gustavo Rodrigues, gerente de políticas públicas do TikTok.

E acrescenta: "A plataforma funciona como uma extensão simbólica da sala de aula: um espaço que aproxima docentes e alunos, inspira novas formas de ensinar e cria pontes com os repertórios culturais dos jovens. Com base nos achados da pesquisa, pretendemos continuar fortalecendo nossos esforços contínuos de valorização dos conteúdos educativos que circulam cada vez mais na plataforma".

Apesar da amostragem de entrevistados ter perfis diferentes, o resultado foi muito semelhante. Todos acreditam que os vídeos são uma extensão do trabalho, que não substitui a sala de aula mas promove a aproximação com os jovens por meio da linguagem digital. 

"Os professores perceberam que, hoje, para ser relevantes em sala de aula, também precisam ser relevantes nas redes sociais", diz o diretor.

Scroll Learning: o aprendizado incidental

A pesquisa também identificou o fenômeno do Scroll Learning. Isabela Afonso Portas, uma das autoras do estudo, esclarece que esse termo foi cunhado para descrever o aprendizado que acontece de forma despretensiosa durante a rolagem do feed.

Diferente de redes sociais como o Youtube, em que o usuário encontra determinado conteúdo por meio da busca, isto é, já há uma intenção inicial de consumi-lo, em plataformas de vídeos curtos como o TikTok, ainda que exista o algoritmo, os conteúdos são descobertos de forma acidental.

"O entretenimento acaba sendo uma porta de entrada para uma descoberta, para ampliar o repertório. A aprendizagem por rolagem não é uma aprendizagem formal, uma aprendizagem que vai gerar uma análise crítica ou completa, mas vai despertar a curiosidade", reforça Pedro Ramos.

Em entrevista à EXAME, o gerente de políticas públicas da companhia também detalha como o scroll learning se tornou um grande aliado da plataforma, e adianta que a fórmula já está inerente ao DNA do TikTok.

"O aprendizado acontece de forma natural no TikTok. A plataforma sempre foi um espaço de descoberta, e o scroll learning mostra que esse processo começa de forma espontânea: o usuário chega em busca de entretenimento e, ao longo da experiência, encontra conteúdos educativos e científicos que despertam a curiosidade e ampliam repertórios".

Para Gustavo Rodrigues, esse modelo de aprendizagem pode proporcionar experiências diferenciadas e trazer melhores desempenhos na hora do vestibular.

"A pesquisa do RegLab mostra, inclusive, que esses encontros inesperados com temas educativos podem funcionar como gatilhos para trocas mais significativas e maior engajamento em sala de aula.
Essa dinâmica é potencializada por recursos como o Feed STEM, um espaço dedicado a vídeos de alta qualidade sobre ciência, tecnologia, engenharia e matemática, que já vem ativado por padrão para jovens de até 16 anos. Além disso, a curadoria em momentos-chave, como o ENEM, que em 2025 multiplicou por seis o volume de publicações sobre o exame e acumulou impressionantes 3,8 bilhões de visualizações no Brasil de janeiro até outubro, evidencia a relevância da plataforma na jornada de aprendizagem".

Nova sala de aula, novos desafios

O principal desafio citado pelos professores entrevistados é a dificuldade de transformar a linguagem docente tradicional ao dialeto típico dos jovens no mundo digital.

Existem ainda os empecilhos técnicos. Se nas salas de aulas ou professores trabalham com livros, lousa, giz e apresentações em Power Point, no TikTok é preciso utilizar microfones e câmeras, além de saber gravar e editar.

A professora de História Anelize Vergara utilizava o TikTok apenas como consumidora até que, em 2024, começou a produzir conteúdo para dialogar com outros docentes. Seu engajamento cresceu e, hoje, a principal fonte de renda de Anelize é seu trabalho nas redes sociais com a venda de conteúdos formativos para professores. Ela também leciona em um cursinho pré-vestibular popular.

Para ela, o maior desafio é adaptar a didática. "Conseguir ser didática e aprofundar o conteúdo sem ser rasa, trazendo seriedade e base em fontes, mas sem perder a linguagem da internet", diz a professora.

Apesar das dificuldades, Anelize reconhece que, com as redes sociais, é possível se aproximar de seus alunos e colegas por meio do que eles consomem. "Consigo trazer assuntos para a sala de aula que estão circulando nas redes sociais, usar ganchos, falar sobre temas que estão em alta, comentar sobre influenciadores ou pessoas que eu sei que os meus alunos acompanham". 

""Não existe mais a possibilidade de educadores estarem distantes das redes sociais. Isso não significa que todos precisem produzir conteúdo, mas sim sobre estar conectado, atualizado, entender as discussões e compreender como as redes funcionam.""Professora Anelize Vergara

Diante deste cenário desafiador para o ensino, Gustavo Rodrigues enfatiza que o TikTok está tirando do papel algumas iniciativas para dar tração a conteúdos educacionais dentro da plataforma, de modo que as publicações consigam visibilidade orgânica.

"A educação já é uma frente viva e orgânica da plataforma, sustentada por uma comunidade que cresce a cada ano. Desde o lançamento do Feed STEM em 2023, já foram publicados mais de 10 milhões de vídeos sobre o tema globalmente. No Brasil, essa força se reflete em hashtags como #Edutok, com bilhões de visualizações, e #AprendaNoTikTok, com centenas de milhares de publicações.
Também investimos em workshops, eventos e guias para ajudar os criadores a entender as melhores práticas da plataforma e aprimorar suas habilidades".

E acrescenta: "Contamos com o Programa de Recompensas para Criadores, que incentiva a produção de vídeos mais longos e de alta qualidade. Hoje, esse programa representa 34% de todo o valor pago a criadores globalmente e 46% entre criadores de alta qualidade".

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