Cães de Chernobyl: análise do genoma identificou genes candidatos relacionados ao reparo do DNA, controle de tumores e resposta inflamatória (Dimitar DILKOFF / AFP/Getty Images)
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Publicado em 4 de novembro de 2026 às 15h05.
Quase quatro décadas após o desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, cães continuam vivendo e se reproduzindo na região contaminada. Agora, um estudo sugere que parte da explicação para essa sobrevivência pode estar no DNA dos animais.
A pesquisa, publicada em setembro na revista científica Genes, analisou o genoma de cães que vivem na Zona de Exclusão de Chernobyl, na Ucrânia.
Os cientistas identificaram diferenças genéticas entre populações próximas e investigaram possíveis mecanismos de adaptação às condições ambientais. Entre os resultados estão 1.138 regiões genômicas com alterações marcantes e 247 genes candidatos à seleção positiva na população próxima à usina.
Uma das principais questões investigadas era a origem das diferenças genéticas entre os cães da região. Os pesquisadores buscaram entender se essas características surgiram por fatores como isolamento geográfico e cruzamentos entre parentes ou se estavam relacionadas à adaptação ao ambiente.
Para isso, compararam o DNA de cães que vivem nas proximidades da usina com o de animais da cidade de Chernobyl e das Ilhas Galápagos. A análise revelou que os cães das Galápagos apresentam maior semelhança genética com populações da Europa continental do que os cães da usina com aqueles da cidade de Chernobyl.
O resultado chama atenção uma vez que as duas populações ucranianas vivem a poucos quilômetros de distância. Segundo a interpretação apresentada na pesquisa, as condições ambientais podem ter contribuído para a diferenciação genética observada.
A investigação identificou genes candidatos associados a processos biológicos importantes para a proteção celular.
Entre os mecanismos analisados estão:
Essas funções podem ajudar a compreender como os animais respondem a condições ambientais adversas. A hipótese apresentada é que características genéticas favoráveis tenham sido transmitidas entre gerações, contribuindo para a sobrevivência das populações.
No entanto, a identificação desses genes não demonstra, isoladamente, que os cães desenvolveram resistência à radiação.
O acidente de 1986 liberou materiais radioativos e contaminantes tóxicos no ambiente. Apesar dessas condições, populações de cães permaneceram na região e continuaram se reproduzindo ao longo de mais de 35 gerações.
Uma das hipóteses investigadas é que as pressões ambientais tenham favorecido indivíduos com determinadas características genéticas.
Nesse cenário, animais com maior capacidade de enfrentar condições adversas poderiam ter sobrevivido e transmitido essas características aos descendentes.
Esse processo, conhecido como seleção natural, pode contribuir para mudanças genéticas ao longo das gerações. Com isso, a pesquisa busca compreender até que ponto esse mecanismo explica as diferenças encontradas entre as populações de Chernobyl.
Além de investigar a sobrevivência dos animais, os pesquisadores apontam possíveis contribuições para estudos sobre saúde humana. Os cães domésticos são considerados sentinelas biológicas porque compartilham ambientes e determinadas respostas metabólicas com os seres humanos.
Por isso, compreender as alterações genéticas observadas em Chernobyl pode fornecer pistas para pesquisas sobre os efeitos da exposição prolongada a contaminantes. Entre as áreas de interesse estão a oncologia comparada e o estudo das respostas biológicas a condições ambientais extremas.
As descobertas também podem contribuir para investigações sobre os limites da adaptação de organismos expostos a acidentes industriais, nucleares e outras formas de contaminação.