Morcegos podem receber vacina por picada de mosquito ou água salgada
Redatora
Publicado em 17 de março de 2026 às 06h26.
Cientistas desenvolveram uma estratégia inusitada para imunizar morcegos contra doenças perigosas, como raiva e vírus Nipah, sem a necessidade de capturar os animais ou aplicar injeções. A proposta utiliza mosquitos infectados com patógenos geneticamente modificados ou uma solução salina com imunizante, que pode ser ingerida pelos mamíferos.
De acordo com o estudo, conduzido por pesquisadores chineses e publicado na revista científica Science Advances, o objetivo é criar formas não invasivas de vacinação em animais selvagens, reduzindo o risco de transmissão de patógenos para humanos e outras espécies.
Para desenvolver o método, os cientistas modificaram geneticamente o vírus da estomatite vesicular (VSV), um agente que normalmente provoca sintomas leves. Esse microrganismo foi utilizado como um tipo de vetor biológico, capaz de transportar pequenos fragmentos genéticos de vírus mais perigosos, como o da raiva e o Nipah.
A ideia é que o VSV estimule o sistema imunológico dos morcegos sem provocar enfermidades graves. Como esse agente pode ser transmitido por picadas de mosquito, os pesquisadores infectaram insetos com a versão alterada.
Assim, os morcegos poderiam desenvolver proteção de duas formas: ao serem picados pelos mosquitos ou ao consumir os insetos, já que muitas espécies se alimentam deles.
Para evitar que esses mosquitos se reproduzissem e disseminassem o vírus de forma descontrolada no ambiente, os cientistas utilizaram radiação para esterilizá-los.
Além da estratégia envolvendo insetos, os pesquisadores também testaram outra abordagem baseada no comportamento natural desses mamíferos. Morcegos costumam buscar fontes de sal na natureza, pois precisam de minerais como o sódio.
A equipe aproveitou esse hábito e criou uma mistura salina contendo o vírus modificado, permitindo que os animais recebessem o imunizante ao lamber a substância.
Experimentos realizados em laboratório com camundongos, hamsters e morcegos mantidos em cativeiro indicaram que os animais desenvolveram resposta imune contra os agentes testados.
Em uma etapa posterior, os pesquisadores levaram a solução salina para uma caverna habitada por morcegos. Para verificar se os animais estavam ingerindo a mistura, os cientistas adicionaram um antibiótico que funcionaria como marcador.
A análise das fezes coletadas mostrou que grande parte da população havia consumido a solução, o que indica que a estratégia pode funcionar também em ambientes naturais. Os exames também apontaram a presença de anticorpos contra o vírus da raiva.
Morcegos são reservatórios naturais de diversos agentes capazes de infectar humanos, incluindo raiva, Nipah e alguns coronavírus. Por isso, pesquisadores buscam maneiras de controlar essas doenças diretamente nesses animais, reduzindo o risco de transmissão para outras espécies.
Agora, a equipe pretende realizar testes de campo em escala maior, com medidas de segurança para impedir a dispersão descontrolada dos mosquitos utilizados no experimento.