Macaco bonobo Kanzi: considerado o símio mais inteligente da história (Divulgação)
Redatora
Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 18h15.
O macaco bonobo Kanzi, um primata da família dos grandes símios, demonstrou capacidade de raciocinar sobre objetos imaginários em um experimento de “faz de conta”, segundo um estudo publicado na revista científica Science.
A pesquisa, conduzida pela bióloga brasileira Amália Bastos, da Universidade de St. Andrews, foi realizada poucos meses antes da morte de Kanzi, em março do ano passado, aos 44 anos.
O bonobo era conhecido por suas habilidades em cognição animal e por ter sido descrito como um dos símios mais inteligentes da história. Ao longo da vida, Kanzi aprendeu a se comunicar com cientistas ao reconhecer mais de 300 símbolos desenhados e cerca de 3.000 palavras faladas, de acordo com o estudo.
O trabalho descreve um experimento em três etapas com dois copos e uma jarra vazios. Primeiro, os pesquisadores simulavam o ato de despejar suco nos copos, em uma dinâmica semelhante a uma brincadeira infantil. Em seguida, faziam o gesto de “derramar” o conteúdo imaginário de um dos recipientes.
Na etapa final, Kanzi era solicitado a indicar qual copo ainda teria o suco imaginário. Segundo a pesquisadora, o macaco bonobo Kanzi apontava repetidamente o copo que não havia sido “derramado”, sugerindo que acompanhava a lógica da simulação e conseguia formar uma representação mental de um objeto ausente.
Os autores afirmam que lidar com situações imaginárias exige um tipo de abstração considerada central na cognição humana. Por isso, o resultado levanta uma questão relevante para pesquisas sobre evolução humana: se essa capacidade surgiu apenas em fases recentes da história do Homo sapiens ou se pode ter raízes mais antigas em primatas ancestrais.
No artigo, Bastos e o o pesquisador Christopher Krupenye argumentam que os resultados sugerem que a capacidade de formar representações mentais secundárias de objetos ausentes pode estar dentro do potencial cognitivo de pelo menos um primata enculturado, criado fora do ambiente selvagem.
Segundo os autores, essa habilidade pode remontar ao ancestral comum entre humanos e bonobos, estimado entre 6 milhões e 9 milhões de anos atrás.
Para evitar interpretações alternativas, os cientistas também realizaram testes paralelos descritos como “sondagens”. Em um deles, Kanzi recebeu a opção entre um copo vazio e outro com suco real e escolheu sempre o copo cheio, indicando que conseguia diferenciar bebida verdadeira de uma simulação.
Em outro teste, a equipe aplicou a mesma lógica do experimento, mas com potes e uvas no lugar de copos e suco. Kanzi também foi capaz de abstrair a presença da fruta, o que, segundo os autores, sugere que a habilidade não estava limitada a um único contexto.
O estudo também discute uma dúvida que ainda não foi totalmente resolvida. Kanzi foi o único símio voluntário possível para o experimento, já que era considerado o único macaco com capacidade de comunicação suficiente para interagir de forma sofisticada com pesquisadores.
Por isso, os autores levantam o debate sobre o papel da linguagem na capacidade de abstração. Uma parte dos especialistas defende que habilidades desse tipo dependem de linguagem como pré-requisito, enquanto outra linha sugere que elas podem existir sem treinamento formal.
A pesquisadora afirma que há relatos na literatura científica de chimpanzés selvagens com comportamentos que parecem envolver simulação, como fêmeas carregando galhos como se fossem filhotes.