‘Queremos ser líderes em eletrificação e ponto’, diz head da Volvo

Luis Rezende, responsável pela região da América Latina, contou com exclusividade os planos da marca para o Brasil
 (Volvo Cars/Divulgação)
(Volvo Cars/Divulgação)
Por Gabriel AguiarPublicado em 17/03/2022 15:18 | Última atualização em 19/03/2022 10:11Tempo de Leitura: 7 min de leitura

Esqueça a época na qual a Volvo era focada apenas em segurança: desde o fim do ano passado, a marca mirou também nos carros elétricos – com a chegada do XC40 e, agora, o novato C40. E parece que a estrategia já deu certo, porque a previsão de que quase metade das vendas sejam de opções “totalmente sustentáveis”.

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Durante a apresentação do SUV-cupê, na Cidade do México, Casual Exame conversou com Luis Rezende, head da empresa na região da América Latina, para conhecer os próximos passos do plano de renovação e eletrificação da Volvo. E, além disso, o executivo falou das expectativas para o mercado e a previsão do setor premium.

Leia a entrevista exclusiva a seguir

Você já conversou com Casual Exame a respeito das mudanças de posicionamento da marca e novas estrategias baseadas na eletrificação. E agora que elas parecem consolidadas, quais são os próximos passos da Volvo?

“Eletrificação é muito forte para nós. Acabamos de lançar nosso carro 100% elétrico [XC40 Recharge] no fim do ano passado e, agora, já estamos com nosso segundo carro 100% elétrico. ‘Ah, Luis, mas isso outras marcas também têm’. No volume que temos, não. Somos disparados a primeira marca [em vendas de elétricos] e nos tornamos referência.

Para mim, é motivo de orgulho dizer que o XC40, nosso carro de maior volume, será vendido apenas com opção 100% elétrica. E, a partir de agora, teremos pelo menos um lançamento 100% elétrico a cada ano, que chegam para ampliar a nossa gama, porque nada disso substitui os produtos que já temos e chegam como opções complementares.

Como uma marca que faz carros há quase 100 anos, com ícones de segurança, adotamos a bandeira de sustentabilidade pela qual também queremos ser conhecidos. Por isso, abandonamos o uso de couro, adotamos materiais recicláveis e nos comprometemos na COP26 a sermos 100% elétricos até 2030 e neutros em emissões de carbono até 2040.

Nós já temos uma ou duas fábricas que neutralizaram as emissões de carbono e fazemos pesquisas do uso do nosso escritório e de como os funcionários têm agido para alcançar nosso objetivo. E não é plantando árvore [em referência ao crédito de carbono]. É realmente mudando hábitos e atitudes. Me enche de orgulho, porque não é só storytelling”.

Nas apresentações, o executivos da Volvo dizem que a vice-liderança de vendas no segmento premium em 2021 foi uma consequência. Vocês têm planos de manter a posição ou brigar pelo primeiro lugar com novos modelos?

“Nós queremos ser líderes em eletrificação e ponto. Em relação à liderança total, a gente acredita que o consumidor premium vai entender que elétricos são produtos muito melhores e isso vai acontecer naturalmente. Mas, até lá, não abriremos mão da nossa estratégia de sermos elétricos. Então, o que temos forte é sermos a número 1 em eletrificação no país.

É claro que não vou alcançar preços para competir com marcas como Chevrolet e Ford nos níveis de entrada, caso eles tragam elétricos de entrada. Mas, entre os produtos premium e os concorrentes diretos, já somos líderes e queremos continuar. Essa é a nossa missão. Se isso não acontecer, apesar de falarmos que é uma consequência, nós ficaremos bem chateados”.

Quais são os maiores desafios para o mercado brasileiro? E como resolver?

“Nosso desafio, no geral, como mercado automotivo e não só como Volvo, é entender como será o câmbio, porque isso ainda é uma incógnita. E, antes, existia a pandemia da covid-19, que ainda não foi embora, e agora temos a Guerra na Ucrânia, que ainda não nos impactou, mas tem impactado alguns players. Eu li que a Volkswagen ‘ganhará’ carros que seriam vendidos na Rússia e foram direcionados a outros países. Isso vai desequilibrar o mercado novamente.

Também existe um momento de inflação que mapeamos para entender onde vai parar, porque tem que parar em algum momento e não acho que é com o reajuste da Selic [taxa básica de juros]. Nós temos que entender a situação. Para mim, o macro ainda está complicado.

Quando vamos para o micro, falando dos nossos concorrentes, vejo que eles ainda estão tão fortes em eletrificação, com exceção da BMW, que está um pouco melhor no mercado brasileiro, mas que ainda não estão totalmente focados devido à produção local e outras frentes que eles têm. E aí vejo muita vantagem do nosso propósito, porque 43% das vendas já serão de elétricos, o que dá cerca de 3.500 carros ao ano. Isso é mais que o volume total de muitas marcas. É dizer que o XC40 continuará concorrendo com Audi Q3 e BMW X1, mesmo sendo totalmente elétrico”.

Vocês acertaram em decisões como não instalar fábrica no Brasil para se adequar ao Inovar Auto e apostar nos carros elétrico. Quais são as próximas tendências?

“Temos um acerto que é a centralização do estoque. Porque, hoje, o estoque é nosso. Não temos estoque difundido na rede de concessionárias. Como consumidor, poderia dizer: ‘poxa, mas preciso esperar 14 dias para receber meu carro’. Mas dá para esperar um pouco, porque o carro está no inventário. E é muito melhor o cliente levar um carro que realmente quer do que aceitar uma opção que não queria só porque o concessionário está empurrando.

Além disso, a negociação de preços é bem limitada, porque, no fim do dia, temos o preço tabelado e o cliente sabe qual é. Fazendo isso de forma orquestrada, nós trouxemos previsibilidade para os concessionários e para a empresa, assim como a garantia de preços justos para o consumidor. Porque não tem aquela história de comprar mais barato na loja A que que na loja B. São formas inovadoras de negociação que têm funcionado.

Eu também acredito que as próximas tendências serão compras diretamente online e coisas nesse sentido que virão; e conectividade entre carro, fabricante e provedores de carregamento, já que estamos trabalhando para tornar o ambiente muito mais integrado. Mas se não forem tendências e surgir alguma outra ótima ideia, seguiremos também, sendo bem transparente, porque é para aí que a tendência do consumidor vai”.

E como vê o potencial do mercado de luxo no Brasil? Continuará com bom fôlego pós-pandemia?

“Eu acredito que houve uma euforia, porque, em algum momento, surgiu o medo de falta de carro, enquanto desvalorização cambial atingiu cerca de 35%. Isso dava sensação de comprar mais barato que nos dois ou três meses seguintes. No começo, isso foi realista, mas depois já não era tanto. E a vantagem de trabalhar com mercado de América Latina é que eu já tinha vivenciado isso na Argentina e na Colômbia. Então, quando começou no Brasil, já sabíamos para onde iria.

É difícil falar de estabilização, porque o governo pode criar uma medida que agite ou que aqueça a economia de novo. O que existe é a restrição de produção global devido aos semicondutores, o que não deixa as marcas premium avançarem tanto.  Claro que se uma empresa tiver mais foco em um país específico, aí é diferente, como algumas fizeram na Colômbia. Mas, por outro lado, caíram em outros mercados. Nestes casos, se tratou de uma decisão estratégica e tudo bem.

No nosso caso, ainda acredito que haja demanda por novidades e tecnologias, mas não acho que será como nos últimos anos, principalmente em 2021. Sabemos que houve um acúmulo de renda durante a pandemia, o que é uma pena como pais e população, já que a desigualdade cresceu brutalmente, só que a tendência era ter mais pessoas dispostas a consumidor produtos premium. Mas acredito que não haverá grandes mudanças nos volumes de vendas. Para o ano que vem, nós precisamos saber de várias coisas, como eleições e até mesmo a Guerra na Ucrânia”.