Simetria e harmonia facial são características cada vez mais medidas e pontuadas por algoritmos de looksmaxxing (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 13h27.
Aplicativos de análise facial se tornaram um novo capítulo da cultura de autoaperfeiçoamento estético que circula nas redes sociais. Batizado de looksmaxxing, o movimento parte da ideia de que a atratividade pode ser medida cientificamente, com cada característica do rosto avaliada e comparada a padrões de simetria e proporção. A partir dessas notas, plataformas indicam desde mudanças no visual até procedimentos estéticos, cirúrgicos ou não.
Entre os nomes que mais ganharam força está a Qoves, empresa que soma mais de um milhão de inscritos em seu canal no YouTube e vende relatórios personalizados de até 30 páginas. O serviço básico, batizado de análise não cirúrgica, custa US$ 150, o equivalente a cerca de R$ 800. Quem quer recomendações envolvendo cirurgia paga um adicional de US$ 180, algo próximo de R$ 970. Há ainda a opção de entrega expressa, cobrada à parte.
Os laudos da Qoves avaliam separadamente formato de nariz, olhos, queixo, orelhas e mandíbula, além de classificar o rosto em uma escala de traços considerados masculinos ou femininos. As sugestões variam de preenchimento facial e aplicação de botox a procedimentos mais invasivos, como rinoplastia, blefaroplastia e implantes no queixo. A empresa também recomenda produtos de skincare, maquiagem e ajustes na sobrancelha, unindo indicações estéticas a um catálogo de serviços vendidos pela própria marca.
Concorrentes menores seguem lógica parecida com preços mais baixos. A Epica, por exemplo, foca em planos de pele e maquiagem voltados ao público feminino e direciona usuárias a links de afiliados de cosméticos. A plataforma pede que o usuário fotografe o rosto e devolve, em segundos, uma pontuação de saúde da pele, calculada por um algoritmo cuja metodologia a empresa não divulga publicamente.
Interface da Qoves mostra mapeamento facial em 3D com pontos de análise de pele e sugestões de tratamento personalizadas (Reprodução )
O apelo desses serviços está justamente na linguagem técnica, que cita estudos acadêmicos e pesquisadores para reforçar a legitimidade das análises. Pesquisadores da área de psicologia da atratividade, no entanto, apontam que boa parte da literatura científica sobre o tema é heterogênea e não permite generalizações amplas sobre o que define um rosto atraente em diferentes populações e contextos culturais.
Também existe debate sobre como esses algoritmos lidam com diversidade étnica. Embora empresas do setor afirmem considerar traços específicos de cada grupo demográfico, materiais promocionais frequentemente reproduzem padrões de beleza associados a referências eurocêntricas, como nariz fino e olhos grandes com pálpebra dupla, independentemente da origem da pessoa analisada.
Qoves e Epica restringem o uso a maiores de 18 anos, mas a verificação de idade se limita à confirmação de uma caixa de seleção no cadastro, sem qualquer validação adicional. Isso abre espaço para que adolescentes acessem relatórios voltados a um público adulto, em um momento de formação de autoimagem já marcado por forte exposição a redes sociais e comparação constante de aparência.
Especialistas em saúde mental também chamam atenção para o impacto desses relatórios em pessoas com histórico de transtornos alimentares ou dismorfia corporal. Ainda que os formulários de cadastro perguntem sobre esse tipo de condição, a resposta depende exclusivamente da autodeclaração do usuário, sem qualquer filtro externo capaz de impedir o acesso de quem está em situação de vulnerabilidade.
O crescimento do setor acompanha a expansão mais ampla dos procedimentos estéticos nas últimas duas décadas, período em que botox, preenchimentos e cirurgias plásticas se tornaram cada vez mais presentes no cotidiano e nas redes.