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O que realmente define o preço de um uísque — e não é só a idade

A maioria dos uísques antigos muito raros não são comprados para que sejam bebidos. Eles são adquiridos para fazer parte de uma coleção

Valorização de garrafas: não há uma grande demanda por blended uísques de entrada (Mauricio Porto/Divulgação)

Valorização de garrafas: não há uma grande demanda por blended uísques de entrada (Mauricio Porto/Divulgação)

Publicado em 8 de agosto de 2026 às 09h10.

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"Estes aqui estão guardados há mais de quarenta anos", declarou o Sr. Roberto, claramente orgulhoso. "Eu queria vender, você compra?" Apertei os lábios e virei a cabeça meio de lado, meio que tentando antecipar para o senhorzinho minha reação. Uma que ele não ia gostar.

Aquela situação, inclusive, era bem esquisita. O Sr. Roberto primeiro me contatou por telefone, dizendo que tinha uma coleção de uísque que queria vender. "Me encontra no Caledonia um dia" – retruquei, naquele estilo meio “um dia a gente combina”.

Em menos de quarenta e cinco minutos, ele estava lá. O porta-malas do Logan cheio de uísque. Pinwinnie, Black & White, White Horse, dois Johnnie Walker Red Label. Um Glenfiddich Pure Malt, cujo rótulo certamente já havia visto dias melhores. E uns três Logan Deluxe. Os Logans no Logan.

Deixe-me alternar para o discurso indireto, para fins de síntese. Disse a ele que as garrafas não valiam tanto quanto ele imaginava, que ele devia beber mesmo, porque uísque raro é diferente de uísque antigo. Ele insistiu. Eu disse que não queria mesmo. Ele deu um soquinho no porta-malas para fechar, semblante claramente contrariado, e foi embora.

Mas esse problema não é só do Sr. Roberto. É de muita gente. Uísque antigo não fica, automaticamente, mais valioso. Para explicar esse conceito, geralmente, para fins didáticos, faço paralelo com carros. O Logan do Sr. Roberto, quando ficar mais velho, não vai valer mais. É um carro comum. É diferente de algo que já era raro e exclusivo, e tornou-se mais, com o passar dos anos.

É curioso dizer isso, e até meio contraintuitivo, mas a maioria dos uísques antigos muito raros não são comprados para que sejam bebidos. Eles são adquiridos para fazer parte de uma coleção. Assim como provavelmente carros muito valiosos, que raramente são dirigidos. Eu sei, filosoficamente é uma desvirtuação da essência. Paciência.

Então, apenas uísques extraordinários, com real valor de colecionismo, realmente raros e desejados, tendem a valorizar. Uísques mais simples, que eram amplamente comercializados, não têm qualquer valor de colecionismo. É uma questão simples de economia, considerando oferta e procura. Um uísque somente se valorizará se a oferta for menor do que a busca por ele.

Assim, não há uma grande demanda por blended uísques de entrada, que eram largamente comercializados e consumidos no passado. Não é um item colecionável para a maioria das pessoas. Além disso, há muito mais garrafas do que colecionadores interessados em adquiri-las. É o caso, por exemplo, das centenas de Chivas 12, White Horses (até certa idade), Buchanan’s, Ballantine’s, Johnnie Walkers e Pinwinnies antigos à venda por aí.

A constatação mais perversa é também a mais óbvia. A lenda daquele uísque milionário, guardado sem que ninguém soubesse, na cristaleira do avô, é, de fato, uma lenda. Quem tem garrafas realmente valiosas geralmente sabe que as tem, porque elas estão lá de propósito. Óbvio que, vez ou outra, acontece algo mágico, mas é a exceção que somente confirma a regra.

Minha dica, para os arqueólogos de cristaleira, talvez pareça pessimista e ríspida. Mas, na verdade, é motivada pelo mais puro otimismo. Beba. Experimente. Compre um correspondente atual daquela garrafa e compare. Chame os amigos e tirem conclusões. A garrafa vai contar uma história que tem muito mais valor do que qualquer montante monetário que você receberá por ela. E, se tiver em dúvida, a gente combina de um dia desses de se encontrar lá no Caledonia.

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