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Quando a empregabilidade vira política de Estado — e o Brasil segue operando em silos

Em artigo, o superintendente do CIEE Rodrigo Dib defende que o Brasil olhe para a experiência da Índia na inserção de jovens no mercado de trabalho

Mumbai, na Índia: país passou a tratar empregabilidade — e não apenas vagas criadas — como critério estruturante do planejamento nacional (Norbert Seiler/EyeEm/Getty Images)

Mumbai, na Índia: país passou a tratar empregabilidade — e não apenas vagas criadas — como critério estruturante do planejamento nacional (Norbert Seiler/EyeEm/Getty Images)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 13h57.

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Por Rodrigo Dib*

A Índia deu um passo relevante no debate global sobre trabalho e educação.

No Orçamento 2026–2027, o país não abandonou a criação de empregos, mas reposicionou o eixo da política pública: passou a tratar empregabilidade — e não apenas vagas criadas — como critério estruturante do planejamento nacional.

O movimento está registrado de forma objetiva no Discurso Oficial do Orçamento apresentado pelo Ministério das Finanças indiano, que propõe a criação de um Education to Employment and Enterprise Standing Committee, um comitê permanente de alto nível para conectar educação, qualificação, mercado de trabalho, tecnologia e crescimento econômico, com atenção explícita ao impacto da inteligência artificial sobre o emprego e as habilidades futuras (Union Budget 2026–27, Índia).

Esse ponto é central: a mudança não nasce isoladamente nos ministérios setoriais, mas no coração do Estado, via orçamento, que na Índia funciona como instrumento de coordenação interministerial. Quando o orçamento define o eixo, os ministérios se alinham.

A escala da decisão indiana

A Índia está discutindo empregabilidade em um país com uma das maiores redes educacionais do planeta. Segundo dados oficiais do governo indiano (UDISE+ / Press Information Bureau):

● ≈ 248 milhões de estudantes na educação básica,
● ≈ 1,47 milhão de escolas,
● ≈ 9,8 milhões de professores.

No ensino superior, o All India Survey on Higher Education (AISHE) registra ≈ 43,3 milhões de estudantes matriculados. No mercado de trabalho, a Periodic Labour Force Survey (PLFS) indica:

● taxa geral de desemprego de 3,2% (15 anos ou mais),
● desemprego jovem (15–29 anos) de cerca de 10,2%.

Esses números ajudam a entender a urgência: mesmo com crescimento econômico e baixo desemprego agregado, a transição entre estudar e trabalhar segue sendo um gargalo estrutural para milhões de jovens. A resposta indiana foi tratar essa transição como infraestrutura nacional.

O que o Brasil faz — e onde está a diferença

O Brasil também opera em grande escala, mas com lógica fragmentada.

No Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2026, o Ministério da Educação deve concentrar cerca de R$ 233,4 bilhões, fortemente direcionados à educação básica e à complementação da União ao Fundeb.

A prioridade é acesso, matrícula e permanência escolar.

Já a política de trabalho se ancora no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Para 2026, o CODEFAT aprovou um orçamento de R$ 130,4 bilhões, dos quais:

● R$ 64,4 bilhões destinam-se ao Seguro-Desemprego,
● R$ 33,7 bilhões ao Abono Salarial.

Ou seja, trata-se de um fundo robusto, mas majoritariamente orientado à proteção de renda após o desemprego, e não à reorganização estrutural da transição educação–trabalho.

Os dados recentes do IBGE (PNAD Contínua) mostram avanços importantes:

● taxa média anual de desocupação de 5,6% em 2025,
● 103 milhões de pessoas ocupadas, recorde histórico.

Ainda assim, o sistema brasileiro não possui um eixo único de governança que conecte orçamento, educação, qualificação, tecnologia e demanda produtiva de forma contínua.

Cada área cumpre seu papel, mas a ponte entre elas depende de programas pontuais, articulações locais ou iniciativas de curto prazo.

Comitê que conecta versus responsabilidades dispersas

Na Índia, o comitê criado no orçamento tem atribuições claras, como:

● mapear lacunas de habilidades por setor,
● antecipar impactos da IA sobre empregos,
● propor ajustes curriculares,
● estruturar sistemas de “matching” entre formação, vagas e trabalhadores,
● tornar visível o trabalho informal para facilitar mobilidade e proteção.

No Brasil, não existe hoje uma instância com esse mandato transversal, ancorada no orçamento e com poder de coordenação sistêmica. A empregabilidade aparece como objetivo desejável, mas não como métrica central que organiza o Estado.

O que está em jogo

A diferença entre os modelos não é ideológica, mas institucional. A Índia tenta reduzir uma fricção histórica: o tempo e o custo entre aprender e gerar valor no trabalho. O risco desse caminho é conhecido — transformar formação em trilho excessivamente guiado, com perda de autonomia. Mas o país escolheu enfrentar o problema no centro do governo.

O Brasil corre o risco oposto: manter bons programas, bons orçamentos e indicadores agregados positivos, enquanto milhões de jovens continuam perdidos na transição entre escola e trabalho, pagando o preço da desarticulação institucional.

A pergunta que a Índia colocou no coração do orçamento — e que o Brasil ainda trata de forma lateral — é simples e incômoda: Estamos formando pessoas capazes de sustentar uma carreira ao longo da vida, ou apenas administrando etapas desconectadas do sistema?

Enquanto essa pergunta não virar eixo de Estado, seguiremos avançando — mas com desperdício de talento, tempo e potencial humano.

* Rodrigo Dib é especialista em carreira, mercado de trabalho e educação profissional, superintendente do CIEE e autor do livro “O mundo é seu, mas calma lá!”.

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