Contencioso tributário (Phillip Ingham/Creative Commons)
Redação Exame
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 15h13.
*Por Marília Soubhia, diretora tributária, membro do grupo "Mulheres no Conselho" e aluna do Advanced Program for Board Members (ABPW) da Saint Paul
As pessoas costumam ficar surpresas quando digo que sou formada em Direito e Filosofia e que faço cerâmica nas horas vagas. Me perguntam sempre como essas três coisas se conectam. A resposta está no centro da transformação que vejo no setor tributário: a necessidade de pensarmos além dos números.
Na semana passada, um jovem profissional me pediu orientação sobre automação na área. Minha resposta foi direta: pare de pensar como calculadora e comece a pensar como artista. O setor passou de uma área de execução para uma área de criação.
Nos últimos anos, a combinação entre automação, inteligência artificial e governança corporativa elevou o padrão de exigência para quem atua em tax. A execução mecânica de tarefas repetitivas está sendo substituída por análises complexas, interpretação de cenários e integração com as decisões de negócio.
A criatividade, antes associada apenas a áreas como marketing ou design, tornou-se uma competência indispensável também no tributário.
Ao longo da minha jornada em grandes corporações, sempre fui chamada para criar áreas tributárias do zero ou ressignificá-las. E ressignificar, para mim, significa co-criar e reinventar para alcançar um time de alto desempenho.
Em uma empresa multinacional que trabalhei, por exemplo, desenvolvi uma estrutura que começou com foco no Brasil e evoluiu para liderar operações em toda a América Latina.
O segredo foi aplicar uma metodologia simples, mas poderosa: right people, right place, doing the right thing. Reunir pessoas com formações diversas, como advogados, administradores, contadores e economistas, além de profissionais com background de música e design, gerou um ambiente fértil para inovação e colaboração.
Essa diversidade de perspectivas mudou a dinâmica da área. Soluções passaram a nascer do cruzamento de ideias improváveis, e o resultado foi um time mais engajado, produtivo e capaz de propor caminhos tributários criativos e sustentáveis.
Quando analiso um novo negócio, minha primeira pergunta nunca é “qual é a alíquota?”. É “qual é o objetivo?”. Para criar uma estratégia tributária eficiente, é essencial compreender profundamente o que a empresa busca alcançar, sempre aliado às regras de compliance e governança corporativa.
Segundo pesquisas de consultorias financeiras a que tive acesso, metade dos times fiscais estima gastar quase um terço da jornada em tarefas de baixo valor, como extração ou transformação de dados, enquanto mais da metade do esforço total ainda é consumida por rotinas operacionais.
Mas isso não significa o fim do profissional da área, é o início de um novo papel. A inteligência artificial abre espaço para que o profissional de tax se torne um tradutor estratégico entre o negócio e a legislação. É ele quem conecta decisões fiscais à performance corporativa, interpreta tendências regulatórias e comunica complexidades técnicas de forma que executivos tomem decisões mais seguras.
A área do TAX é plural por natureza. Assim como o barro que pode ser moldado em diferentes formas, sem perder sua essência, o tax se conecta com todas as áreas da companhia, do financeiro ao jurídico, do comercial ao marketing.
O próprio tax deve incorporar habilidades de outros setores, como comunicação, visão de negócios e criatividade. É essa capacidade de dialogar com muitas linguagens que torna o profissional contemporâneo mais completo, estratégico, preparado para compreender o processo como um todo, não somente a legislação.
Recentemente, levei essa filosofia um passo além ao criar um subdepartamento de Tax Transformation. Não se trata apenas de digitalizar processos, é uma mudança de mentalidade e atitude. Com o comitê de digitalização, conseguimos agregar KPIs financeiros à área de forma criativa, trazendo inovação e uma visão mais estratégica para o tributário.
Eu não vejo a inteligência artificial como uma ameaça, e sim como uma oportunidade. Acredito que a adoção da IA generativa trará uma transformação profunda ou revolucionária para as operações tributárias.
Essa visão reforça que a automação e a inteligência artificial vêm justamente para eliminar o que nunca deveria ser o foco do profissional tributário: a execução mecânica. Elas devolvem tempo e energia mental para o que realmente importa; pensar, analisar, conectar e comunicar com clareza.
Outro dado reforça essa visão: de acordo com a pesquisa EY Tax and Finance Operations 2024, 87% dos profissionais acreditam que a integração da IA generativa aumentará a eficiência e a eficácia das áreas de tax e finanças.
E é aí que o humano se torna ainda mais relevante,ao interpretar cenários, traduzir complexidades e alinhar decisões tributárias à estratégia do negócio. A tecnologia amplia o alcance; nós damos sentido.
O que mais me incomoda é a ideia de que técnica e criatividade são opostos. Na cerâmica, é o domínio da matéria, do barro, da temperatura, das reações químicas,que permite criar o inesperado. No tributário, é a mesma lógica: o domínio técnico é o alicerce; a criatividade, a centelha que transforma conhecimento em estratégia.
A verdadeira transformação não está apenas na tecnologia, mas na mente que a conduz. Profissionais que unem rigor e sensibilidade estão transformando o papel do tax nas empresas, de área de suporte para centro de inteligência e criação de valor. Porque, no fim, pensar com técnica e criar com propósito é o que sustenta toda obra,seja de arte, seja de negócio.
Liderar equipes tributárias é, no fundo, liderar o invisível: alinhar sensibilidades, aproximar realidades distintas e transformar normas em caminhos que façam sentido. É conduzir um grupo que pensa diferente, mas que se move junto, e encontrar beleza justamente nesse encontro entre técnica, intuição e propósito.
Talvez por isso a cerâmica nunca tenha sido apenas um hobby para mim. Porque existe algo profundamente simbólico em colocar as mãos no barro. Ele pede presença. Aceita o erro. Convida ao recomeço. Ensina que nenhuma forma se sustenta sem intenção, e que toda criação carrega a marca de quem a toca.
E é exatamente assim que vejo a liderança no tax: um gesto artesanal. Um cuidado que molda pessoas, processos e visões. Uma arte que combina firmeza e delicadeza para que cada talento encontre seu espaço e cada decisão encontre sua forma.
Marília Soubhia é diretora tributária com mais de 20 anos de experiência. Formada em Direito e Filosofia, é membro do grupo "Mulheres no Conselho" e está cursando o Advanced Program for Board Members (ABPW) da Saint Paul, com conclusão prevista para 2026.