Zebra fotografada por David Yarrow (David Yarrow/Divulgação)
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 17h34.
Confesso: o título é emprestado. O original é do neurocientista Robert Sapolsky, de Stanford, autor de Por que as zebras não têm úlceras?, um clássico sobre estresse. Eu só troquei a doença, porque a que mais aparece nas empresas hoje tem outro nome.
Essas reflexões nasceram de um projeto de inovação que a Winx está acelerando, dedicado a entender como carga, recuperação e ritmo afetam a capacidade das pessoas no trabalho. Ele tem me trazido muitos aprendizados e muitos insights. E alguns deles, confesso, apontaram direto para mim.
A imagem que Sapolsky usa é simples. A zebra está pastando, o leão aparece, e o corpo dela entra em modo emergência: adrenalina, cortisol, coração acelerado, toda a energia direcionada para correr. Minutos depois, tudo se resolve. Para a maioria dos animais, diz Sapolsky, o estresse é uma crise curta: "ou acabou, ou você acabou".
A zebra que escapa volta a pastar. Não fica remoendo a perseguição nem imaginando o leão de amanhã.
Nós somos diferentes. Conseguimos ligar o mesmo sistema de emergência só com um pensamento. O leão pode ser o e-mail das 23h, a reunião marcada sem pauta, o boato de reestruturação. O corpo não sabe se o leão é real. Ele simplesmente corre.
Essa é a parte difícil. Muita gente competente passa meses fugindo de um leão que já foi embora. Eu mesmo já fiz isso mais vezes do que gostaria de admitir, carregando para casa a tensão de uma negociação que já tinha terminado bem.
E aqui cada um tem sua parte: só a própria pessoa pode se perguntar, com honestidade, "o leão está aqui agora?". O corpo costuma avisar antes da cabeça. O sono piora, a paciência encurta, a sensação de estar sempre ligado vira rotina.
Mas não dá para colocar toda a conta no indivíduo. Se a empresa solta um leão novo a cada hora, discernimento pessoal ajuda, mas não resolve. A pessoa é responsável por perceber o leão. O líder é responsável por não criar leões que não existem e por avisar quando os reais foram embora.
O sistema de estresse é ótimo para emergências. O problema é quando ele fica ligado por semanas ou meses. Na prática:
• O sono piora, e é no sono que o corpo se recupera.
• A imunidade cai, e a pessoa adoece mais.
• O cérebro decide pior: mais reação, menos reflexão, menos criatividade.
Ou seja, a empresa paga caro duas vezes: na saúde das pessoas e na qualidade das decisões. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como resultado do estresse crônico no trabalho que não foi bem gerenciado. A palavra-chave é essa: gerenciado.
Quero deixar clara minha posição, porque ela é importante: eu não defendo menos exigência. Pessoas crescem em ambientes desafiadores. Ninguém se desenvolve na zona de conforto.
O esporte ensina isso melhor que ninguém. O atleta de alto rendimento treina pesado, muito pesado. Mas nenhum técnico sério esquece a outra metade da equação: o músculo não fica mais forte durante o treino, ele fica mais forte na recuperação. Carga sem recuperação não gera campeão. Gera lesão.
Nas empresas, a gente aprendeu a gerir muito bem a carga. A recuperação ainda é tratada como ausência. E recuperação não é "mandar a turma descansar". Ter tempo livre e recuperar energia não são a mesma coisa. Recuperação é um jeito de organizar o trabalho.
Algumas atitudes práticas que fazem diferença:
Declare o fim da crise. Quando o pico passar, diga com clareza que passou. Faça o balanço, reconheça o esforço e marque a virada. A zebra sabe que o leão foi embora porque vê o leão indo embora. A equipe precisa ouvir isso do líder.
Distribua a carga no tempo. Pico planejado é treino. Pico acumulado é desgaste. Evite empilhar entregas críticas na mesma semana e olhe o calendário do time como um técnico olha a temporada.
Varie o tipo de esforço. Depois de um projeto de alta tensão, o próximo desafio pode ser de outra natureza: aprender algo novo, criar, melhorar um processo. É o que o esporte chama de recuperação ativa. O atleta não para, ele troca de estímulo.
Faça rodízio de quem segura a urgência. Em todo time existe o "bombeiro fixo", aquele que sempre apaga o incêndio. Ele é valioso até o dia em que quebra. Revezar essa função protege a pessoa e desenvolve os outros.
Reduza a ambiguidade. Nada cria mais leão imaginário do que incerteza. Prioridades claras, mudanças comunicadas cedo e combinados explícitos devolvem energia sem que ninguém precise tirar um dia de folga.
Combine o que é urgente de verdade. Defina o que precisa de resposta imediata e por qual canal. O resto espera o dia seguinte. Mensagem noturna com "sem pressa" no final continua sendo um leão, só que educado.
E aqui preciso ser honesto: esse é exatamente o meu caso. Quantas vezes mandei uma mensagem à noite achando que o "sem pressa" resolvia tudo? Para quem recebe, o leão chegou do mesmo jeito. Estou aprendendo a me corrigir nisso, e confesso que ainda escorrego.
Pergunte sobre energia, não só sobre entregas. "Como está o projeto?" é importante. "Como está a sua reserva para as próximas semanas?" também. Quem acompanha só a carga, e nunca a recuperação, está pilotando com metade do painel. Essa também é uma pergunta que eu faço menos do que deveria.
As zebras não têm burnout porque vivem num mundo em que o leão aparece, mas também vai embora. Nós construímos organizações em que o leão nunca sai de cena, às vezes porque ele está lá, muitas vezes porque ninguém avisou que ele saiu.
Talvez a pergunta mais útil para qualquer líder amanhã de manhã não seja "quanto mais a equipe aguenta?", e sim: quantos leões na minha empresa já foram embora, e eu ainda não avisei ninguém?