Mauricio Giamellaro, CEO da Heineken Brasil: “O resultado financeiro é consequência de um ambiente saudável. Crescer sem esgotar as pessoas é possível, e necessário” (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter
Publicado em 16 de fevereiro de 2026 às 07h56.
“Líder tem que servir, não mandar.” A frase de Mauricio Giamellaro, CEO da Heineken Brasil, durante o podcast “De frente com CEO”, da EXAME, resume uma visão de liderança que vem ganhando força no mundo corporativo, e que, segundo ele, ainda está longe de ser regra.
Para o executivo que lidera a companhia desde 2019, o maior erro dos líderes hoje não está na estratégia ou na tecnologia, mas na desconexão com as pessoas. Em um momento em que a atualização da NR-1 passou a exigir das empresas maior atenção aos riscos psicossociais e à saúde mental no trabalho, colocar o time no centro das decisões deixou de ser apenas discurso inspirador e virou necessidade prática para sustentar resultados.
"Um bom líder tem que remover pedras do caminho do funcionário, e não colocar", diz Giamellaro.
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Na avaliação do CEO, a comunicação continua sendo a principal habilidade de liderança, mas não no sentido tradicional. Para ele, comunicar envolve escuta ativa, disponibilidade e clareza sobre propósito.
“Comunicar não é só falar. É falar, ouvir e estar presente. Muitas vezes o líder acredita que comunicou porque falou, mas a comunicação só existe quando a mensagem é compreendida”, afirma.
Quando as equipes entendem o porquê das decisões, Giamellaro afirma que o engajamento tende a aumentar.
“Isso vale especialmente em um contexto de transformações aceleradas, em que mudanças estratégicas e tecnológicas exigem adaptação constante dos profissionais”, diz.
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Outro ponto que ele destaca é a ideia de liderança como serviço, conceito que, segundo o executivo, ainda enfrenta resistência em algumas culturas corporativas.
“Muita gente acha que, quando vira líder, passa a trabalhar menos ou só a delegar. Eu acredito no contrário: o líder tem que remover obstáculos, simplificar processos e ajudar o time a performar melhor,” diz o CEO.
Essa postura, segundo Giamellaro, contribui para reduzir desgaste emocional, melhorar clima organizacional e aumentar a produtividade.
“Quando o líder se distancia demais ou se apoia só na hierarquia, ele perde conexão com o time. E sem conexão não existe engajamento”, diz.
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Coerência entre discurso e prática é outro ponto decisivo, diz o CEO da Heineken Brasil. Valores corporativos, segundo ele, só se consolidam quando a liderança os incorpora no dia a dia.
“Se você fala de respeito, eficiência ou equilíbrio, isso precisa aparecer nas atitudes. A equipe percebe rapidamente quando existe desalinhamento”, diz.
Essa consistência, segundo ele, fortalece a confiança e cria uma cultura mais sólida, fator considerado estratégico em ambientes competitivos e de alta pressão por resultados.
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A aposta em uma liderança mais humanizada levou a companhia a estruturar iniciativas internas voltadas ao bem-estar dos funcionários, incluindo programas de escuta contínua e ações focadas em engajamento. Na visão do executivo, cuidar das pessoas não é apenas uma questão reputacional, mas também um fator diretamente ligado ao desempenho do negócio.
“O resultado financeiro é consequência de um ambiente saudável. Crescer sem esgotar as pessoas é possível, e necessário”, afirma o CEO que apoiou a criação da “Diretoria da Felicidade”.
O executivo ainda reforça que felicidade no trabalho não significa ausência de cobrança, mas sim criar condições para que os profissionais entreguem resultados com equilíbrio, propósito e senso de pertencimento.
Com novas gerações chegando ao mercado, avanços tecnológicos e mudanças na relação com o trabalho, Giamellaro acredita que o papel do líder tende a evoluir cada vez mais para a construção de confiança e conexão.
“Não importa a geração: todo mundo quer respeito, propósito e um ambiente saudável. Quando o líder entende isso, os resultados aparecem.”
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