Carreira

A resposta do Inteli para a falta de engenheiros no Brasil

Inspirada no Vale do Silício, universidade sem fins lucrativos propõe projetos reais e IA para enfrentar um gargalo histórico do país

Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual: em Davos, ele apresentou a estratégia do Inteli para formar líderes em tecnologia

Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual: em Davos, ele apresentou a estratégia do Inteli para formar líderes em tecnologia

Gabriella Sandoval
Gabriella Sandoval

Editora de projetos especiais

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 06h08.

Última atualização em 21 de janeiro de 2026 às 13h14.

*De Davos, na Suíça

“O Brasil não tem engenheiros suficientes.” A frase, ouvida repetidas vezes por Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, em conversas com investidores no Vale do Silício, está longe se ser uma provocação. Dos 8 milhões de universitários do país, apenas 150 mil — ou 1,8% — cursam engenharia ou ciência da computação.

O déficit de profissionais técnicos virou um obstáculo estrutural para a produtividade, a inovação e o crescimento econômico do Brasil. Um estudo da consultoria McKinsey mostra que, até 2030, o país terá um gargalo de 1 milhão de profissionais de tecnologia.

Foi justamente para enfrentar esse desafio que Sallouti se uniu a André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual, para criar o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), uma universidade privada, sem fins lucrativos, que tem como objetivo formar líderes capazes de transformar o país por meio da tecnologia.

O planejamento começou há oito anos. Foram três anos desenhando o modelo educacional e cinco de operação até a primeira turma se formar, em 2024. A ambição é construir uma das melhores universidades da América Latina e do mundo.

“Um dia, alguém criou Harvard, MIT, Stanford. Essas instituições se tornaram maiores do que seus fundadores. Esse é exatamente esse o nosso objetivo com o Inteli”, afirmou Sallouti durante o painel “O papel do setor privado na preparação da força de trabalho para o futuro”.

O encontro aconteceu nesta terça-feira na Brazil House em Davos, na Suíça. Idealizado pelo BTG Pactual e patrocinada por empresas brasileiras, o espaço foi criado para representar o Brasil durante o Fórum Econômico Mundial.

“Hoje, dos 8 milhões de universitários no Brasil, apenas cerca de 150 mil estão em engenharia ou ciência da computação. O país vai enfrentar um déficit enorme de engenheiros”
Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual

Uma universidade desenhada para o mundo real

Durante o painel, Sallouti explicou que o Inteli não se propõe a formar apenas engenheiros tradicionais. Seu currículo combina engenharia, negócios, gestão e liderança. A lógica parte de uma constatação do mercado: empresas contratam por hard skills, competências técnicas, mas demitem por soft skills, habilidades comportamentais.

Não à toa, comunicação, trabalho em equipe, gestão de conflitos e autoconhecimento fazem parte da formação desde o primeiro ano. O resultado aparece cedo. A evasão é de 5,3%, muito abaixo da média nacional, que supera 30%. Além disso, no terceiro ano da graduação, 96% dos alunos já estão trabalhando.

“Prometi aos pais que seus filhos não teriam problemas de empregabilidade — e os números confirmam isso. Nossos alunos já trabalharam com Ambev, Dell, Volkswagen, Falconi, CVM, hospitais, ONGs e startups. Eles já entregaram mais de 740 protótipos, geraram patentes e venceram hackathons internacionais, incluindo competições de IA generativa”, orgulha-se Saloutti.

“Para sermos uma universidade de ponta, precisamos dos melhores talentos — e eles nem sempre nascem em famílias que podem pagar uma universidade privada”
Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual

Talento existe; oportunidade, nem sempre

O Brasil tem talento distribuído de forma relativamente homogênea pelo território. As oportunidades, não. Esse desequilíbrio orienta uma das decisões centrais do Inteli: todo aluno aprovado entra, independentemente da renda familiar.

Hoje, mais de 50% dos estudantes recebem algum tipo de bolsa — o maior programa do gênero no país. A política não é apenas filantropia. “Para sermos uma universidade de ponta, precisamos dos melhores talentos — e eles nem sempre nascem em famílias que podem pagar uma universidade privada”, afirma o CEO do BTG Pactual. As bolsas podem cobrir mensalidade, moradia, alimentação, transporte, inglês e computador.

Roberto Sallouti, um dos fundadores do Inteli: universidade sem fins lucrativos, aposta no project-based learning, aprendizado prático por meio de projetos

Outra barreira a ser transposta é a diversidade. A engenharia brasileira tem, em média, 15% de mulheres, um dado que o Inteli encara como oportunidade de mudança. O BTG Pactual, por exemplo, financia 200 bolsas, metade delas direcionada preferencialmente a estudantes negros, enquanto Sallouti, por sua vez, financia outras 40 bolsas voltadas a mulheres.

A instituição caminha para alcançar 50% de alunas — algo inédito no país. Mantém ainda intercâmbio com 15 países e já enviou estudantes ao Technion, instituto de tecnologia de Israel, e ao CERN, laboratório europeu de física de partículas.

“Um dia, alguém criou Harvard, MIT, Stanford. Essas instituições se tornaram maiores do que seus fundadores. Esse é exatamente esse o nosso objetivo com a Inteli”
Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual

Capitalismo, ética e regra clara

Do ponto de vista de aprendizagem, o Inteli assume posições pouco usuais no ambiente universitário brasileiro. Defende a economia de mercado como motor do crescimento sustentável, mas com limites éticos e compromisso ambiental. A ideia de um “capitalismo melhor” aparece com frequência no discurso institucional.

Entre os diferenciais acadêmicos estão o project-based learning, aprendizado baseado em projetos, e a relação com a inteligência artificial. O Inteli usa a tecnologia no ensino e oferece cursos para professores aprenderem a adotar a IA como ferramenta pedagógica.

O campus da Inteli fica na Cidade Universitária, em São Paulo, no primeiro prédio construído ali, em 1920, hoje totalmente renovado. São 10 mil metros quadrados, no limite da capacidade.

As salas são hexagonais, colaborativas e digitais. Não há papel. Professores acompanham o desempenho dos alunos em tempo real, o que permite intervenções rápidas antes que dificuldades se transformem em evasão. Todo o modelo foi desenhado para colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem.

O objetivo final é paradoxal: tornar os fundadores irrelevantes. “Quando a instituição estiver forte o suficiente para caminhar por conta própria, teremos cumprido nossa missão”, afirma Sallouti. “Nesse momento, talvez reste apenas uma placa no campus”, diz ele. Mas ficará como legado uma universidade capaz de formar os líderes tecnológicos do futuro.

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