Tempo de viagem e qualidade do serviço são fatores decisivos para fortalecer o transporte coletivo nas cidades (iStock/Thinkstock)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 10h00.
Última atualização em 25 de setembro de 2026 às 13h11.
Por Leticia Pineschi Kitagawa
Todos os anos, no dia 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro recoloca a mobilidade urbana no centro do debate público. A proposta parece simples: deixar o automóvel em casa e escolher outro meio de deslocamento. A decisão envolve uma equação mais ampla, formada por tempo de viagem, previsibilidade, conforto, segurança, custo e confiança no serviço.
A escolha pelo transporte coletivo começa antes do embarque. O passageiro compara alternativas e avalia qual oferece a melhor combinação entre eficiência e conveniência. Quando o ônibus demora o dobro do tempo do automóvel, apresenta intervalos imprevisíveis ou exige conexões pouco integradas, a escolha pelo carro se torna consequência de uma lógica objetiva. A consciência ambiental ganha força quando encontra uma alternativa capaz de atender à rotina das pessoas.
Essa constatação transforma o sentido do Dia Mundial Sem Carro. A data pode funcionar como um teste da qualidade da mobilidade urbana oferecida pelas cidades. Para que o transporte coletivo seja competitivo, o operador precisa investir em renovação de frota, tecnologia, planejamento baseado em dados, regularidade, conforto e qualidade no atendimento. O poder público precisa garantir faixas exclusivas, prioridade semafórica, terminais integrados, fiscalização efetiva e segurança jurídica para investimentos. Os benefícios alcançam toda a cidade.
Segundo o ranking da TomTom Traffic Index, publicado há 15 anos, o motorista de São Paulo gastou em média 132 horas em congestionamentos durante o horário de pico em 2025. Esse tempo se transforma em frete mais caro, entregas atrasadas, menor produtividade e trabalhadores submetidos a maior desgaste. A lentidão também afeta diretamente os ônibus.
Quando ficam presos no tráfego, perdem velocidade e exigem mais veículos em circulação para manter a frequência. O resultado é o aumento do custo operacional e a pressão sobre tarifas e subsídios.
O espaço viário completa essa equação. Um ônibus pode transportar dezenas de pessoas ocupando uma fração da área necessária para deslocá-las em automóveis individuais. Priorizar o transporte coletivo representa uma decisão de eficiência urbana e melhor utilização de um recurso escasso: a via pública.
Essa agenda alcança especialmente quem depende do ônibus todos os dias. Para esse passageiro, o tempo perdido, a espera prolongada e a baixa frequência afetam o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer. Quando o transporte público funciona, comunica respeito por meio de informação confiável, acessibilidade, segurança, limpeza e previsibilidade.
O Dia Mundial Sem Carro deve orientar decisões ao longo de todo o ano. Prioridade viária, dados operacionais, contratos orientados por desempenho, integração tarifária e previsibilidade de investimentos formam uma agenda permanente.
A escolha pelo transporte público se fortalece quando o serviço oferece tempo, segurança e confiança. Para que mais pessoas deixem o carro em casa, a cidade precisa construir uma alternativa que mereça essa escolha.
*Leticia Pineschi Kitagawa é Diretora-Geral da ABRATI e sócia da Viação Sampaio, uma das empresas do Grupo Guanabara.