O reality show reflete comportamentos que podem comprometer a saúde mental nas organizações (Gshow /Divulgação)
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Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Por Pablo Funchal*
A nova edição do Big Brother Brasil volta a oferecer algo que vai além do entretenimento: um retrato condensado de como culturas tóxicas se formam, se fortalecem e também se deterioram em sistemas sociais intensivos.
Em poucas semanas de convivência forçada, sob pressão constante e alta exposição emocional, o programa funciona como uma espécie de laboratório social acelerado.
Ainda que mediado pelas intervenções da produção e orientado ao entretenimento, e não a uma pesquisa antropológica formal, o reality simula comportamentos culturais que, nas organizações, poderiam levar meses ou até anos para emergir.
Assim como em outras edições, um ponto que se pode observar no programa é que culturas tóxicas raramente nascem de um único evento.
Elas se constroem, quase sempre, pela repetição de comportamentos que passam a ser tolerados, normalizados ou até reforçados pelo grupo.
Ironias recorrentes, exclusões sutis, agressividade velada, silenciamentos e desqualificações aparentemente pequenas ganham força quando não encontram limites claros. Com o tempo, deixam de ser exceções e se transformam em padrão.
Outro aspecto revelador é o impacto desproporcional que um único indivíduo pode exercer sobre o clima emocional coletivo.
Quando comportamentos negativos partem de alguém com poder simbólico, carisma ou validação social, a tendência é que se espalhem rapidamente.
O grupo passa a se ajustar, muitas vezes por autoproteção, e a confiança entre os participantes se fragiliza. O resultado é um ambiente defensivo, marcado por tensão constante, alianças instáveis e baixa colaboração.
Quando esse comportamento central é interrompido, seja por responsabilização, mudança de postura ou afastamento do convívio, o sistema tende a se reorganizar.
Ambientes antes carregados de hostilidade dão lugar a interações mais abertas, cooperativas e seguras.
Essa mudança rápida deixa claro que culturas não são estruturas rígidas: elas são altamente sensíveis às influências que ocupam posições-chave dentro do sistema.
Nas empresas, essas dinâmicas tendem a ser menos explícitas do que em um reality show, mas não menos nocivas.
As culturas tóxicas se manifestam por meio de microgestão excessiva, favoritismo e pressão emocional disfarçada de cobrança por resultados.
A ausência de escuta genuína, falta de reconhecimento ou medo constante de errar também são sinais claros. Esses fatores, quando ignorados, comprometem engajamento, produtividade e saúde mental, muitas vezes de forma silenciosa e progressiva.
O que se observa no BBB encontra respaldo direto em dados do mundo corporativo.
Uma pesquisa do Boston Consulting Group (BCG), realizada com 28 mil trabalhadores em 16 países, incluindo o Brasil, mostra que contextos saudáveis ampliam significativamente os níveis de motivação e bem-estar.
Ambientes organizacionais saudáveis aumentam a retenção de talentos em até 3,9 vezes.
A segurança psicológica e a qualidade relacional, portanto, não são temas subjetivos ou "comportamentais demais", são fatores estratégicos de performance, sustentabilidade e vantagem competitiva.
Dessa forma, o cenário dialoga diretamente com o conceito de segurança psicológica e com o debate cada vez mais presente sobre riscos psicossociais, hoje incorporados de forma mais explícita à NR-1.
Ambientes emocionalmente inseguros não são fruto de fragilidade individual, mas de padrões culturais sustentados por comportamentos repetidos e, frequentemente, pela omissão ou despreparo da liderança.
A força dessas dinâmicas fica ainda mais evidente quando se considera a escala do próprio programa.
A edição de 2026 do Big Brother Brasil superou a marca de 1,7 bilhão de visualizações, consolidando-se como o reality show mais assistido e engajado já produzido pela Globo, segundo dados institucionais.
O impacto nas redes sociais, no streaming e nos canais digitais transforma o BBB em um fenômeno diário de repercussão massiva.
Nele, atitudes individuais e conflitos são amplificados em escala coletiva, exatamente como acontece, em menor visibilidade, dentro das organizações.
Garantir segurança psicológica exige olhar para o sistema como um todo, mas também identificar com clareza os pontos centrais de influência.
Em muitos contextos, o problema não está diluído na equipe, e sim concentrado em figuras que moldam normas informais e definem o que é aceitável no dia a dia.
Assim como no BBB, empresas que desejam construir culturas saudáveis precisam ir além de códigos de conduta e discursos institucionais.
É fundamental investir no desenvolvimento de competências como escuta ativa, autorresponsabilidade e regulação emocional.
No fim, o reality show apenas escancara aquilo que já acontece em muitos escritórios, fábricas e salas de reunião: culturas são criadas, ou destruídas, todos os dias, a partir do que se permite, do que se silencia e do que se escolhe enfrentar.
*Pablo Funchal é CEO da Fluxus Educação Corporativa, engenheiro e mestre pela UFSCar, com MBA em Inovação pela mesma instituição.