O crescimento dos mercados autônomos ilustra bem essa transformação (AdobeStock/Reprodução)
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Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 10h00.
Em um país onde o consumo das famílias tem peso decisivo no desempenho do PIB, poucos setores traduzem tão bem os movimentos da economia quanto o varejo.
Mais do que um canal de vendas, o comércio funciona como um termômetro sensível da renda, da confiança do consumidor e da capacidade de adaptação das empresas a ciclos econômicos cada vez mais complexos.
Com base nos números divulgados em dezembro de 2025, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes à Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de outubro, a Confederação Nacional do Comércio de Bens Serviços e Turismo (CNC) projeta crescimento de 3,66% para o varejo em 2026.
Trata-se de uma trajetória de expansão gradual, mas consistente, que reflete um ambiente de inflação mais controlada e retomada moderada da atividade econômica.
Esse avanço, no entanto, ocorre em um contexto diferente de outros ciclos de crescimento. O consumidor brasileiro está mais cauteloso, mais informado e mais exigente.
O aumento do consumo não vem do impulso, mas do planejamento. Preço segue relevante, mas conveniência, eficiência e clareza de valor passaram a pesar tanto quanto a etiqueta.
Essa mudança estrutural ajuda a explicar por que o varejo não cresce de forma homogênea, e por que alguns formatos avançam mais rapidamente do que outros.
O crescimento dos mercados autônomos ilustra bem essa transformação.
Inseridos em condomínios residenciais, empresas e hubs urbanos, esses pontos de venda atendem a uma demanda clara por proximidade, compras rápidas e jornadas sem atrito.
Ao reduzir custos operacionais, deslocamentos e desperdícios, esse modelo se mostra particularmente aderente a um ambiente econômico em que eficiência deixou de ser diferencial e passou a ser condição de sobrevivência.
A tecnologia é um elemento central dessa equação. Segundo a Fortune Business Insights, o mercado global de automação no varejo deve ultrapassar US$ 64 bilhões até 2030, com taxa média de crescimento anual de 12,9%, impulsionada por soluções de inteligência artificial, sensores e visão computacional.
O Brasil desponta como um mercado emergente nesse movimento, especialmente na adoção de tecnologias voltadas à eficiência operacional e à personalização da experiência de compra.
Mais do que uma tendência global, a automação no varejo brasileiro responde a desafios locais muito claros, margens pressionadas, custos elevados e um consumidor altamente sensível a preço e conveniência.
Nesse contexto, o uso de dados para prever demanda, ajustar estoques, personalizar ofertas e reduzir desperdícios passa a ser um reflexo direto do estágio da economia, e não apenas uma aposta em inovação.
O varejo, portanto, não apenas espelha o momento econômico, mas antecipa seus próximos passos. Quando o setor cresce de forma gradual e seletiva, revela um consumidor mais racional e um mercado em processo de amadurecimento.
Quando novos formatos ganham escala, sinaliza mudanças profundas na forma como as pessoas vivem, trabalham e consomem.
Observar o varejo hoje é entender como a economia brasileira está se reorganizando. E, cada vez mais, são os modelos baseados em eficiência, proximidade e tecnologia que apontam para onde o consumo, e o crescimento, tendem a seguir.
*Eduardo Córdova é CEO e sócio-fundador do market4u, empreende há 19 anos, já fundou diversas empresas e hoje está à frente da maior rede de mercados autônomos da América Latina e maior microfranquia do Brasil.