Não existe futuro sem mulheres, nem prioridades sem igualdade de gênero

Pesquisas mostram que, quanto mais mulheres na política, menores os índices de corrupção

Por Isabela Rahal*

A igualdade de gênero e a representatividade feminina perpassam todas as mudanças estruturais que no Brasil precisa desesperadamente

O ano era 2018, e eu indagava a uma colega se ela votaria mesmo em um candidato com falas machistas. “Temos de ter prioridades” foi a sua resposta, “por mais que eu me importe com os direitos das mulheres, agora é mais urgente consertarmos a economia e combatermos a corrupção”.

Mesmo sem entrar no mérito de que, em minha opinião, o candidato em questão dificilmente cumpriria as expectativas que ela expressava, a frase doeu muito em mim. Não porque eu não acreditasse na importância do desenvolvimento econômico ou do combate à corrupção, longe disso. São questões prioritárias ao Brasil, com certeza. Mas sim porque as premissas sob as quais ela fazia as afirmações eram profundamente erradas e falaciosas. Esse é o discurso que ouvimos, vez após vez, e que só beneficia àqueles que já estão no poder e querem mantê-lo. Não é possível falar em “prioridades” quando falamos de igualdade de gênero.

Não existe combate à corrupção sem mulheres. Uma pesquisa realizada em mais de 125 países já mostrou que, quanto mais mulheres na política, menores os índices de corrupção. Ao mesmo tempo, foi a senadora Simone Tebet, na CPI da Covid, que fez com que a testemunha finalmente falasse o nome do deputado acusado de superfaturar os contratos de compra de vacinas. Senadora esta que nem é membro oficial da Comissão– já que a comissão tem 22 membros e nenhuma mulher entre eles. Mesmo assim, o papel das parlamentares na CPI vem sendo fundamental.

Melhorar a economia também é importantíssimo – mas não existe desenvolvimento econômico sem mulheres. A economia mundial ganharia US$ 28 trilhões até 2025 se incluíssemos mulheres no mercado de trabalho em uma posição de completa igualdade. Empresas com maior diversidade de gênero em posições de liderança têm 25% mais chance de lucratividade que a média. Tampouco existe combate à pobreza sem mulheres -- não quando 57% das 11 milhões de mães solo no Brasil vivem abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Instituto Locomotiva.

No entanto, como país, seguimos no caminho contrário. Retrocedemos tanto nos últimos anos de pandemia: com aulas remotas e creches suspensas, mulheres passaram a ter uma jornada dupla ainda maior. Entre o primeiro e o quarto trimestre de 2020, 5,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho e não estão sequer buscando novas vagas de emprego, frente a 3,4 milhões de homens.

Por falar em pandemia, também é impossível falar de saúde sem falar em mulheres. Elas são maioria na linha de frente, são 65% das médicas, enfermeiras e outros profissionais. Além disso, foram os países liderados por elas que obtiveram os melhores resultados tanto em número de casos quanto em número de mortes, segundo estudo comparativo de 194 países feito pelo Fórum Econômico Mundial.

E, principalmente: se hoje você está insatisfeita ou insatisfeito com a política, precisamos urgentemente falar de representatividade feminina. Mulheres são 15% das cadeiras no parlamento e apresentaram 40% mais proposições, segundo um estudo do instituto Vamos Juntas. Aprovam até três vezes mais proposições que os homens. Elas vêm demonstrando, dia após dia, o quanto não só merecem como precisam estar ali, para o bem de nossa sociedade.

Nós, da Elas no Poder, acreditamos profundamente nisso. Nós lutamos, hoje, pela inclusão de mais mulheres na política como prioridade absoluta porque sabemos que não conseguiremos superar esta crise sem uma mudança profunda no nosso sistema político. E essa mudança é absolutamente impossível sem representatividade e igualdade de gênero.

Apesar disso, seguimos no sentido contrário. Retrocedemos. O Fórum Econômico Mundial estima que demoraremos 145,5 anos para atingir igualdade de gênero na política. Antes da pandemia, essa estimativa era de 95 anos. No Brasil, nas últimas eleições, apenas uma capital elegeu uma prefeita.

Reverter esse quadro é urgente. A política brasileira não conseguirá representar de fato a população do nosso país enquanto não tiver a nossa cara, não sentir as nossas dores. Enquanto não tiver mulheres em pé de igualdade. A luta por mais mulheres na política é também uma luta por um país mais humano, menos desigual, mais desenvolvido e menos corrupto. E, justamente por isso, não deve ser uma luta apenas de nós, mulheres, mas de todos. O país que desejamos será impossível sem lideranças femininas.

A partir de hoje, nós escreveremos mensalmente nesta coluna, e usaremos esse espaço para contar um pouco mais sobre como a igualdade de gênero pode mudar os rumos do nosso país.  Com isso, começamos convidando você a se juntar a nós nessa luta tão importante para a construção de um futuro melhor.

*Isabela Rahal é coordenadora de parcerias da ONG Elas no Poder

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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