A inovação já começa a se materializar em iniciativas práticas (pixdeluxe/iStockphoto)
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Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Por Marcos Fernandes*
A hiperpersonalização deixou de ser um diferencial competitivo no setor de seguros e passou a representar uma expectativa clara do mercado. Em um ambiente no qual consumidores já estão habituados a experiências digitais rápidas, contextuais e com baixa fricção, a comparação com a jornada oferecida pelas seguradoras tornou-se inevitável.
O desafio, no entanto, não está na falta de tecnologia. O setor já utiliza inteligência artificial há anos em aplicações como análise de fraude e cálculo de risco. O principal entrave ainda está em gargalos operacionais que limitam o uso estratégico de recursos mais avançados, como a IA generativa.
Por ser um mercado orientado à gestão de risco, é natural que existam complexidades adicionais na operação. Esses mecanismos funcionam como garantias para mitigar incertezas, mas não precisam ser sinônimo de experiências rígidas ou pouco personalizadas para o cliente.
Durante décadas, o mercado segurador operou com ofertas padronizadas, desenhadas para atender perfis médios. A transição para um modelo centrado na jornada individual exige a capacidade de processar e interpretar grandes volumes de dados de forma contextual e em tempo real.
A IA generativa amplia esse potencial ao incorporar dados não estruturados, como interações em call centers, padrões de uso, informações externas fornecidas pelo próprio cliente ou compartilhadas com consentimento e governança. No Brasil, o avanço do Open Insurance cria um ambiente regulado que favorece esse intercâmbio de dados.
Ao combinar esses sinais, as seguradoras passam a enriquecer a avaliação de risco com mais contexto, inclusive qualitativo, mantendo trilhas de auditoria e espaço para revisão humana quando a decisão impacta diretamente o consumidor.
O resultado são produtos mais aderentes à realidade de cada cliente, como seguros automotivos baseados no uso efetivo do veículo ou seguros residenciais com coberturas focadas em riscos específicos.
Além de eficiência operacional, a hiperpersonalização cria uma oportunidade relevante de inclusão no setor. Ao ajustar produtos às necessidades e ao orçamento individual, seguradoras conseguem atender perfis hoje fora do mercado.
Um exemplo é a frota de veículos não segurados no Brasil, que poderia ser parcialmente incorporada ao sistema por meio de produtos mais flexíveis e personalizados. A tecnologia permite sair da lógica do “tamanho único” para soluções financeiramente viáveis e mais alinhadas ao risco real.
Essa abordagem amplia o acesso ao seguro e fortalece a relação de confiança entre empresas e consumidores, ao oferecer propostas mais transparentes e compreensíveis.
A hiperpersonalização não se sustenta apenas em dados e automação. Parte relevante da jornada do cliente em seguros envolve interações humanas, especialmente em momentos de vulnerabilidade emocional, como a ocorrência de um sinistro.
Nesses contextos, o contato humano é essencial para gerar acolhimento e segurança. Quando adotada como copiloto, a IA pode apoiar atendentes com informações personalizadas em tempo real, orientando conversas mais empáticas e menos engessadas por scripts fixos.
O mesmo vale para a contratação de seguros, marcada por vocabulário técnico e decisões complexas. A tecnologia atua como apoio à tradução dessas informações, sem substituir o papel consultivo do profissional.
Corretores também se beneficiam desse modelo. Ao automatizar tarefas operacionais, a IA libera tempo e capacidade cognitiva para que esses profissionais se concentrem no relacionamento e na orientação estratégica ao cliente.
Para que esse cenário se consolide, o setor ainda precisa superar desafios estruturais, como sistemas legados, dados desorganizados, processos fragmentados e pressões regulatórias que adicionam camadas de complexidade à operação.
Apesar disso, a inovação já começa a se materializar em iniciativas práticas. Projetos recentes mostram o uso de copilotos de IA para apoiar equipes de atendimento com informações e argumentos em tempo real, além de soluções conversacionais para reengajar clientes e esclarecer dúvidas.
Mais do que adotar novas tecnologias, o fator decisivo será a capacidade das organizações de cultivar uma cultura de adaptação contínua. A transformação impulsionada pela inteligência artificial não é um evento pontual, mas um estado permanente para empresas que desejam manter relevância e liderança no setor de seguros.
*Marcos Fernandes é diretor executivo da CI&T.