A incerteza não desaparece, mas empresas podem preparar pessoas para navegar melhor em cenários de mudança (DC Studio/Shutterstock)
Chairman da FESA Group - Colunista Bússola
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 13h00.
Carlos Guilherme Nosé, chairman da empresa FESA Group, afirma que a sobrecarga de informação e a incerteza ampliam a ansiedade e fragmentam a atenção no trabalho. Segundo a empresa de tecnologia Microsoft, profissionais mais conectados sofrem interrupções, em média, a cada dois minutos durante o expediente. O autor relaciona o problema à necessidade de segurança psicológica e adaptação às mudanças.
Na semana passada, ao conversar com um grande amigo, atual CEO de uma das maiores empresas de benefícios e bem-estar do Brasil, uma frase que ele disse ficou na minha cabeça: “Insegurança gera ansiedade. E o Brasil é o 2º país mais ansioso do mundo.”
Parece um dado simples. Mas, talvez, essa informação explique uma parte importante do que estamos vivendo. Insegurança financeira, insegurança jurídica, insegurança patrimonial (física), insegurança sobre o futuro, entre tantas outras…
E, para apimentar ainda mais o tema, vivemos uma enxurrada de informações para processar a cada minuto. Isso me faz pensar que estamos vivendo não apenas uma crise de saúde mental, mas também uma crise de sobrecarga de informação.
Cada vez mais, nosso cérebro precisa processar uma quantidade de informação, decisões, estímulos e incertezas. Nos últimos anos, a tecnologia aumentou brutalmente nossa capacidade de acessar informação, e nosso “hardware” não acompanhou a evolução na mesma velocidade.
O relatório especial "Breaking Down the Infinite Workday", do Work Trend Index da Microsoft, me ajuda a dimensionar isso. Baseado em dados agregados e anonimizados do Microsoft 365, a empresa identificou que os profissionais mais conectados são interrompidos, em média, a cada dois minutos durante o horário de trabalho por reuniões, e-mails ou mensagens.
Isso quer dizer que, em um dia normal, somos interrompidos em média 240 vezes em oito horas de trabalho. São 240 vezes que nos distraímos e mudamos o pensamento do que estávamos fazendo para processar outra coisa que também pode ser importante.
A cada interrupção, precisamos mudar de contexto, recuperar o que estávamos fazendo, interpretar uma nova informação e decidir se aquilo exige uma ação.
Isso fragmenta cada vez mais a nossa atenção, o nosso foco e custa muito, muito caro!
Mas a minha reflexão vai além. Nós sabemos que é um grande desafio processar tudo isso todos, mas, para mim, o grande ponto é a quantidade de coisas que não sabemos como vão terminar. Isso, sim, gera muito mais ansiedade. A incerteza exige vigilância.
Quando não sabemos se nosso emprego está seguro, se a economia vai piorar, se uma decisão poderá gerar consequências jurídicas, se a tecnologia vai substituir determinadas atividades ou se podemos falar abertamente dentro da organização, nosso cérebro permanece em estado de alerta. É aqui que a conversa sobre ansiedade no trabalho encontra a conversa sobre segurança psicológica.
Segurança psicológica não significa conviver em um ambiente sem cobrança, sem conflito ou sem responsabilidade, mas criar um ambiente no qual as pessoas possam fazer perguntas, admitir erros, discordar, pedir ajuda e trazer problemas à superfície sem medo de serem punidas ou humilhadas.
Nesse último mês, tive o retreat do meu Fórum do YPO. Entre nove executivos e empreendedores, fomos para Ilhabela, no litoral de São Paulo. Tínhamos marcado uma atividade dentro de um veleiro de competição para o sábado de manhã, por isso, na sexta à noite, já estávamos com o professor e especialista que nos acompanharia.
Ele nos orientou e entrou em vários sites de meteorologia que, segundo ele, eram confiáveis. Todos mostravam uma previsão de ventos fortes para velejar na manhã seguinte – o que seria ótimo para nós, mas que gerou ansiedade e preocupação na equipe, já que corríamos o risco de não ir para o mar, tamanho a força dos ventos previstos.
Na madrugada, ao irmos dormir, o vendaval começou. Mas, na manhã do sábado, onde estava o vento?
A ventania chegou antes e apenas passou pelo canal de São Sebastião e Ilhabela.
Isso nos mostra que não conseguimos eliminar a incerteza do mundo, mas conseguimos mudar a forma como lidamos com todas as mudanças que acontecem a todo momento.
Precisamos urgentemente saber lidar com a agilidade. Precisamos viver mais conforme o vento. Precisamos tirar a cabeça de dentro d'água e respirar um pouco.
O vento pode não aparecer no horário previsto, pode chegar antes ou pode chegar depois. O importante é sabermos que nosso barco está pronto para velejar e preparado para sair de um porto seguro para o outro.
O excesso de informação fragmenta a atenção e exige mudanças frequentes de contexto. Segundo Carlos Guilherme Nosé, cada interrupção obriga o profissional a recuperar a tarefa anterior, interpretar o novo estímulo e decidir se precisa agir.
Profissionais mais conectados são interrompidos, em média, a cada dois minutos por reuniões, e-mails ou mensagens, segundo o relatório “Breaking Down the Infinite Workday”, do Work Trend Index da Microsoft. Em oito horas de trabalho, isso equivale a cerca de 240 interrupções.
A incerteza exige vigilância e mantém o cérebro em estado de alerta, afirma Carlos Guilherme Nosé. Dúvidas sobre emprego, economia, consequências jurídicas, tecnologia e liberdade para falar dentro da organização alimentam essa sensação.
Segurança psicológica significa criar um ambiente no qual as pessoas possam fazer perguntas, admitir erros, discordar, pedir ajuda e apontar problemas sem medo de punição ou humilhação. Segundo Carlos Guilherme Nosé, o conceito não elimina cobranças, conflitos ou responsabilidades.
A preparação e a capacidade de adaptação ajudam a enfrentar situações imprevisíveis, segundo a reflexão de Carlos Guilherme Nosé. O autor defende que não é possível eliminar a incerteza, mas é possível mudar a forma de reagir às mudanças.