Geekonomy: ESG nos games vai de toxicidade em redes a descarbonização

Nova geração de consoles vem marcada por esforços maiores com sustentabilidade que as versões anteriores, mas a indústria como um todo precisa caminhar a passos mais largos nos fatores de acompanhamento ESG

Existe uma lenda urbana no mundo dos games sobre a Atari. Dizem que, em 1983, a empresa precisou lidar com o encalhe monstruoso do fracasso comercial que foi o game ET, inspirado no filme homômino de Steven Spielberg. A suposta solução foi enterrar milhões de cartuchos em um aterro no Novo México. 

Virou mito, mesmo. Há muitas versões do ocorrido, algumas sobre a localidade, outras sobre a real quantidade de cartuchos. Há pouca documentação sobre o fato, mas muitas versões que o confirmam: o enterro, que funciona também como metáfora para marcar o fracasso da empresa, aconteceu.

Depois disso a Nintendo lançou seu NES no mercado (o Nintendinho, lembra?), retomando o crescimento da indústria de games no mercado e pavimentando o caminho para uma indústria multibilionária e que já movimenta mais dinheiro que cinema e música. 

Hoje, com a crescente tendência dos jogos em nuvem, sem cartucho, CD ou qualquer mídia física, estamos cada vez mais distantes de ver alguma empresa sair enterrando seu encalhe por aí, mas isso não quer dizer que o impacto ambiental desse mercado seja baixo. Jogar tem um custo ecológico. E optar pela versão digital de um jogo não necessariamente vai reduzir o custo para o planeta, visto que os jogos consomem cada vez mais energia e trazem uma perigosa trilha de emissão de carbono.

O tio do Homem-Aranha já nos alertava sobre as grandes responsabilidades que acompanham os grandes poderes, e ao longo dos anos os games passaram a carregar nas costas o peso de milhões de toneladas de descarte eletrônico, embalagens plásticas, consumo de energia e emissão de carbono em toda a cadeia produtiva.

Pensando nisso, no Earth Day de 2019 a ONU lançou a aliança Playing For The Planet, com membros da indústria capazes de impactar mais de 1 bilhão de gamers pelo mundo. Ao assinar, os participantes se comprometeram com uma série de objetivos, que vão desde ativações que favoreçam a consciência por sustentabilidade nos games à redução de suas emissões e apoio à agenda ambiental por meio de ações práticas, tais como plantar milhões de árvores e reduzir o plástico de seus produtos e embalagens.

Participam da aliança empresas como Twitch, Google Stadia, Ubisoft, Microsoft e Sony. Desde então, a maior parte dos participantes já se comprometeram com descarbonização de suas plataformas, criaram metas de redução de resíduos e gasto de energia. 

Embora o mercado ainda careça de metas globais mais claras e agressivas, não se pode negar que passos importantes foram dados em direção a uma indústria mais verde. O Playstation 5 (PS5), lançado em novembro de 2020, é o console mais eco-friendly da nova geração, emitindo cerca de um terço menos CO2 por hora que seu concorrente, o Xbox Series X, da Microsoft. 

Além disso, os materiais usados para a embalagem do PS5 e acessórios foram projetados para serem totalmente recicláveis. Dependendo do produto, a embalagem é livre de plástico entre 93% e 99%.

No que tange as práticas ESG, essa sigla de que se passou a falar tanto no último ano e que significa Environmental, Social e Governance, há um caminho ainda maior a ser percorrido. Esse conjunto de fatores que medem o índice de sustentabilidade e impacto social das empresas já vem sendo aplicado nos negócios há alguns anos, mas ganhou muito mais força e repercussão após a pandemia.

Claro, é necessário tomar cuidado para não se tornar mais uma buzzword vazia ou uma mera bandeira reputacional e sem impacto real. Mas a proposta do ESG é ser uma espécie de selo de qualidade que determina, a partir dessa análise ambiente, social e de governança, o posicionamento da empresa em relação à sociedade e ao planeta. 

Por isso, é essencial falar de ESG na indústria de games. Além da responsabilidade com o meio ambiente já mencionada e que cobre o E, existem, entre o S e o G, ao menos uma dezena de pautas relevantes.

Para citar dois, um para cada letra, não é de hoje que o mercado de games precisa lidar com a toxicidade de sua comunidade, muitas vezes esbarrando em sérios danos aos direitos humanos dentro de seus ambientes digitais. Ódio, racismo, misoginia e ameaças de morte são bem comuns nos games mais competitivos. Há uma série de ações individuais realizadas pelas empresas. 

A Riot Games, responsável pelo League of Legends, botou em prática um esforço concentrado em limitar o impacto negativo da conduta de alguns jogadores. Criou maneiras de prevenir e mesmo punir algumas atividades consideradas tóxicas. Segundo a companhia, em 2020 o índice de reincidência desse tipo de atitude caiu em 30%, e deve cair ainda mais. Como responsável por um dos principais jogos competitivos do mundo, é importante ver ações como essa acontecerem. Mas há muitas outras comunidades e títulos que passam longe dessas políticas. É urgente a criação de um índice de acompanhamento global dessas ocorrências e atuação das empresas (incluindo plataformas sociais como Twitch, YouTube e as redes sociais).

Na questão da governança, por sua vez, a indústria conta com inúmeros tetos de vidro sobre suas técnicas de manufatura em países com menos regulações trabalhistas. Isso sem falar na gestão de dados dos usuários, que de tempos em tempos precisa lidar com o vazamento de dados confidenciais.

A transformação causada pelo impacto positivo das empresas por meio do ESG, quando aplicadas de maneira efetiva, tem o potencial de elevar o padrão de qualidade da indústria de games. Por isso, na próxima vez que você for escolher uma plataforma para jogar, lembre-se sim de avaliar a capacidade de armazenamento, a velocidade de processamento, o potencial gráfico, a disponibilidade e variedade de jogos. Mas não se esqueça de verificar também os avanços da companhia por trás disso tudo nas práticas ESG.

*Cauê Madeira é sócio-diretor de Growth na Loures Consultoria

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