Equipes compostas por mulheres são mais diversas. Mas será que são inclusivas?

Mais de 58% das brasileiras acreditam que as propagandas não representam a mulher real. Uma equipe de trabalho diversa é o passo inicial para encarar esse problema

Hoje cedo, escutei de uma alta executiva que falava sobre diversidade no mercado de trabalho, que diversidade é fácil, você resolve com cota, mas o grande desafio é a inclusão, porque você precisa garantir que todos sejam acolhidos e se sintam bem no ambiente profissional.

Isso me fez refletir muito sobre mulheres que ocupam altos cargos de liderança. Enfim, ela chegou lá, mas esse espaço está preparado para acolhê-la de maneira integral, sem colocar em xeque suas decisões baseadas na sua vivência como mulher numa sociedade patriarcal?

Ano após ano, a gente lê, escuta e participa de eventos na “Semana da Mulher” sobre aquelas que se destacaram no seu mercado de atuação, contando suas trajetórias e seus obstáculos para chegar aonde chegaram.

E, apesar de discursos inspiradores, a evolução ainda acontece de forma morosa. Lentidão que interfere até mesmo no mercado publicitário, em que apenas 10% dos cargos de liderança das agências são ocupados por mulheres, seguidos por 25% dos cargos nas áreas de criação.

Isso talvez explique o porquê de 58% das mulheres que navegam pelas redes sociais acreditarem que as propagandas não refletem a mulher real e, também, enfatiza a diferença entre diversidade e inclusão. As marcas já se apropriaram do discurso da diversidade, suas campanhas já respondem à cota de incluir grupos étnicos e identitários, mas isso não é suficiente, pois dentro de cada um desses grupos há uma gama enorme de pessoas.

E quando mais da metade das mulheres presentes no ambiente digital está dizendo que não se sente representada, é preciso fazer um exercício interno para entender a necessidade de equipes mais diversas, que facilitem o olhar para campanhas mais completas.

Mulheres são maioria nos meios digitais, têm alto poder de decisão de compra e, vale lembrar, 64% das brasileiras já mudaram seus hábitos de compra por causa das redes sociais, segundo o paper sobre comportamento feminino nas redes sociais, produzido pela equipe de Dados & Insigths da Loures Consultoria. Ainda assim, elas se veem sem representatividade na publicidade. Esse cenário não deve acender somente um sinal de alerta, mas sim um sinal de urgência na cabeça de quem cria conteúdo.

Estamos atravessando, com certo êxito, a barreira da presença feminina, mas agora é hora de ter todos os tipos dessa presença nas campanhas, com diferentes corpos, cores, orientação sexual e histórias. Esse olhar apurado só é possível quando há um time diverso e capaz de trazer provocações que se aproximem das expectativas do público.

Se eu quero falar com uma mulher gorda, preciso saber quais são as suas dificuldades por não obedecer a um padrão imposto para ela; se eu quero falar com uma mulher negra, preciso saber as dores de viver numa sociedade historicamente racista; se eu quero falar com uma mulher com deficiência, preciso saber os obstáculos que ela enfrenta em seu dia a dia.

Essas respostas podem ser mais efetivas quando realmente alcançarmos espaços de trabalho mais diversos e inclusivos, e com lideranças dispostas a ouvir as vivências de cada uma das mulheres para além dos eventos anuais de Semana da Mulher.

* Head of Qualitative and Knowledge Governance da Loures Consultoria

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