A compra da casa própria passou a ser, cada vez mais, um gesto pessoal, ligado ao uso e não necessariamente ao investimento (d3sign/Getty Images)
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Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 10h00.
Por Thiago Muramatsu*
O debate entre comprar ou alugar sempre existiu, mas ganhou mais atenção nos últimos anos. A relação entre renda e preço dos imóveis cresceu de forma desproporcional e o crédito, apesar de mais acessível, ficou mais caro.
O que antes parecia uma etapa quase automática da vida adulta passou a exigir cálculo e, sobretudo, paciência.
Para quem acha que isso acontece só no Brasil, vale olhar para os Estados Unidos, onde o crédito tem custo mais baixo e, mesmo assim, metade dos millennials ainda não comprou o primeiro imóvel.
Lá, um imóvel costuma custar entre cinco e seis vezes a renda anual de uma família. Aqui, esse número pode chegar a dez, doze ou até quinze vezes, dependendo da região.
O movimento do mercado imobiliário é, sim, global e tem raízes simples. Para gerações anteriores, a compra era acessível. Hoje, não é.
Quando o esforço cresce dessa forma, o sonho não morre. Ele apenas muda de ritmo. E esse novo cenário atinge três grupos de maneiras distintas.
O primeiro grupo, que é influenciado positivamente, é o da baixa renda. Muitas dessas famílias, que nunca tiveram a chance de comprar, passaram a ter com o avanço dos programas de habitação com subsídios e crédito alongado.
Em muitos casos, a prestação cabe no bolso e concorre com o valor do aluguel.
O segundo grupo, também positivo, é o da alta renda. Depois de quase uma década com poucos lançamentos, o mercado de luxo ganhou força.
Produtos exclusivos voltaram a aparecer e existe um público disposto a pagar pela diferenciação e pela segurança de um imóvel único.
O terceiro grupo é o da classe média, que sente a maior pressão e, obviamente, de forma negativa. Antes, se conseguia comprar com mais facilidade e agora se vê espremida entre preços elevados, crédito caro e ausência de incentivos.
Então, nada mais claro que, para essas pessoas, o aluguel virou uma ponte. Ele oferece mobilidade e permite mudar de bairro, cidade ou até país sem amarrar a vida a uma decisão precipitada.
Mesmo assim, o aluguel no Brasil enfrenta limitações. O mercado ainda é pouco profissionalizado e não entrega variedade de produtos, gestão de qualidade e contratos equilibrados.
Em países onde o aluguel institucional é maduro, morar de aluguel virou experiência e serviço. Aqui estamos no meio do caminho, mas a mudança começou.
Existe ainda outra mudança importante. Quem antes comprava um segundo imóvel para investir, hoje encontra alternativas mais eficientes.
Os fundos imobiliários e os instrumentos de crédito do setor permitem aportes de forma estratégica e com risco diversificado, sem a dor de cabeça de administrar manutenção, obras, inquilinos e afins.
A compra da casa própria passou a ser, cada vez mais, um gesto pessoal, ligado ao uso e não necessariamente ao investimento.
No futuro, esse ciclo dá uma nova volta. É comum que pessoas, ao chegar aos setenta anos, simplifiquem a vida, vendendo o imóvel maior e buscando mais praticidade.
Em muitos países, morar em residências com serviços especializados é visto com naturalidade. No Brasil ainda existe resistência cultural, embora ela venha diminuindo à medida que surgem produtos melhores e que novas gerações encarem essa etapa com outros olhos.
Comprar ou alugar não é um dilema permanente. É uma decisão de ciclo. Depende da renda, do momento de vida, do mercado e do futuro desejado.
A propriedade continua sendo um bom investimento e, na maior parte das vezes, continua valorizando. A única diferença é que o caminho até ela ficou mais longo e, por isso, requer mais cuidado.
Talvez estejamos vivendo uma reorganização. A moradia deixou de ser um roteiro fixo. Hoje ela funciona como uma negociação contínua entre o que se pode, o que se deseja e o que faz sentido naquele instante.
Nesse intervalo, quando há estrutura, o aluguel desempenha um papel essencial. Ele segura as pontas enquanto o bom negócio amadurece.
*Thiago Muramatsu é CEO da SYN.