Gestão eficiente em infraestrutura garante cumprimento de metas regulatórias e prazos (Jirapong Manustrong/Getty Images)
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Publicado em 31 de março de 2026 às 17h00.
Por Leonardo Barrera*
Em setores regulados, especialmente o de infraestrutura, prazos estão longe de ser apenas metas internas ou indicadores de desempenho.
Eles representam compromissos legais, políticos e sociais, firmados com órgãos reguladores, governos e, principalmente, com a população.
Programas de grande escala, como os de universalização do saneamento, impõem cronogramas agressivos e inegociáveis.
Essa realidade eleva de forma significativa o nível de pressão sobre organizações públicas e privadas envolvidas em sua execução.
Por isso, a velocidade, que era um diferencial competitivo, se tornou fator de risco.
A urgência por resultados, quando não acompanhada de estruturas adequadas de gestão, tende a ampliar fragilidades existentes em vez de superá-las.
Quanto mais curto e rígido é o prazo, maior deveria ser a maturidade da gestão de projetos que o sustenta.
Acelerar sem governança não encurta caminhos, apenas antecipa problemas.
Falhas de coordenação, decisões tomadas com base em informações incompletas e a ausência de visibilidade integrada tendem a se multiplicar.
Isso ocorre quando a execução avança mais rápido do que a capacidade de gestão da organização.
O efeito prático é conhecido: retrabalho, conflitos entre frentes de obra, desalinhamento entre áreas técnicas, financeiras e regulatórias.
Além disso, ocorre a perda progressiva de controle sobre custo, prazo e escopo.
Um dos principais desafios atuais está na condução simultânea de múltiplos projetos interdependentes.
Programas regulatórios raramente são compostos por iniciativas isoladas; eles se materializam como portfólios complexos.
Nesses modelos, projetos disputam recursos, compartilham riscos e geram impactos cruzados.
Sem uma estrutura madura de Escritório de Projetos, capaz de integrar informações e priorizar decisões, a organização perde a visão sistêmica.
A consequência é que a empresa passa a reagir projeto a projeto, de forma fragmentada e defensiva.
De modo geral, o mercado tem avançado ao reconhecer a urgência dessas metas e a necessidade de acelerar investimentos e obras.
No entanto, ainda persiste um erro recorrente: concentrar o debate quase exclusivamente no nível operacional.
A pressão por execução costuma chegar antes da discussão sobre capacidade real de entrega e qualidade das informações que embasam o planejamento.
Quando metas são definidas de forma excessivamente de cima para baixo, desconectadas da maturidade organizacional, o resultado é uma pressão artificial.
Surgem atrasos ocultos, estouros de orçamento, perda de previsibilidade e a sensação constante de que “tudo está andando”.
Na prática, os riscos apenas se acumulam. Mesmo objetivos estratégicos legítimos acabam sendo comprometidos pelo custo silencioso da desorganização.
Dados da Wellingtone revelam que apenas 34% das organizações conseguem completar projetos dentro do prazo.
O mesmo percentual (34%) consegue mantê-los dentro do orçamento, e somente 36% entregam todos os benefícios originalmente previstos. Na prática, isso significa que menos da metade das organizações consegue entregar projetos com sucesso de forma consistente.
O relatório aponta que aquelas que apresentam melhor desempenho são justamente as que contam com práticas maduras de gestão de projetos.
Isso inclui visibilidade em tempo real sobre a execução e patrocinadores efetivamente engajados.
Esse cenário expõe um risco relevante para setores regulados: acelerar sem controle amplia a exposição regulatória.
Isso compromete a qualidade técnica das entregas e corrói a confiança das partes interessadas.
Por outro lado, há uma oportunidade clara para organizações que investem em maturidade do Escritório de Projetos.
Os benefícios incluem maior previsibilidade, melhor alocação de recursos e decisões mais rápidas sustentadas por dados confiáveis.
Diante disso, uma mudança de postura se torna indispensável.
As organizações precisam reconhecer a coexistência de dois esforços simultâneos.
O primeiro é manter a operação funcionando sob pressão, garantindo entregas imediatas e lidando com as urgências.
O segundo, frequentemente negligenciado, é estruturar os mecanismos de governança, processos e capacidades que elevam a maturidade da gestão.
Portanto, ao desenvolver esse “segundo motor”, a organização reduz sua dependência de improvisação.
Dessa forma, passa a construir metas mais coerentes, desafiadoras e sustentáveis.
Em um cenário cada vez mais exigente, não é a pressa que garante resultados duradouros, é a maturidade com que se administra o tempo.
*Leonardo Barrera é especialista em Saneamento Ambiental e Gestão de Projetos na Vizca Engenharia.