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Ricos devem pagar por faculdade pública, diz Barbara Bruns

Para economista-chefe do Banco Mundial, a iniciativa reduziria o gasto do governo e democratizaria o acesso à universidade pelos mais pobres

Barbara Bruns, economista-chefe do Banco Mundial na área de Educação para América Latina e o Caribe no EXAME Fórum Educação 2015 (Fabio Rizzato/BioFoto/EXAME.com)

Raphael Martins

Publicado em 17 de setembro de 2015 às 10h56.

Última atualização em 2 de agosto de 2017 às 13h24.

São Paulo – Entre as resoluções do Plano Nacional de Educação está a que pretende investir 10% do PIB brasileiro em educação. Para Barbara Bruns, economista-chefe do Banco Mundial na área de educação para América Latina e o Caribe, mais dinheiro não adianta sem produtividade.

Em entrevista exclusiva a EXAME.com, Bruns diz que um dos fatores que colocam em perigo a qualidade do ensino superior público é a forma atual de financiamento, em que o governo arca com todos os custos das universidades que abrigam apenas os alunos de famílias mais ricas e que poderiam pagar mensalidades.

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"Sou completamente favorável ao sistema em que alunos de classes sociais mais altas paguem por seus estudos, mesmo que proporcionalmente à renda — quanto mais rico, maior a mensalidade", diz. "Essa é a solução que dá a melhor cobertura de acesso à universidade, com o menor custo para o Estado em porcentagem do PIB ."

Na educação básica, a economista defende a escola em tempo integral, com aumento da carga horária de estudos, e uma reforma do currículo de disciplinas. Bruns indica o sistema chileno como modelo a ser seguido. Com regimento semelhante, professores seriam certificados por avaliações governamentais e aqueles com melhor desempenho ganhariam bônus.

" Peru , Equador , México e Colômbia estão seguindo esse caminho e colhendo resultados", afirma. "Não é possível melhorar a qualidade dos professores sem saber quem são os melhores e dar o devido incentivo e apoio a eles."

Veja abaixo a íntegra da conversa.

EXAME.com: Qual o pior defeito na educação brasileira?
Barbara Bruns:
Não há uma política nacional para incentivo aos bons professores. Ao olhar para países que estão tentando melhorar a formação do professor, nota-se que estão introduzindo planos de carreira mais estruturados e novos sistemas de avaliação de desempenho individual — com promoções baseadas em desempenho, não anos de serviço.

São mudanças radicais, que não vejo nenhuma das esferas de governo fazer no Brasil — nem federal, nem estadual ou municipal. Não sei se falta coragem política, mas é preciso tocar nesse assunto. Por outro lado, Chile, Peru, Equador, México e Colômbia estão seguindo esse caminho e colhendo resultados. Não é possível melhorar a qualidade dos professores sem saber quem são os melhores e dar o devido incentivo e apoio a eles.

É possível dizer que o país está no caminho certo para ser uma "Pátria Educadora"?
Eu diria que não.

Qual o país da América Latina que está no rumo mais correto?
O Chile é o que tem o melhor desempenho, segundo provas internacionais como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Foi fruto de uma série de mudanças nas políticas educacionais que vem desde 1998. Mas esses elementos de avaliações, com feedback de especialistas e bônus individuais foram inseridos pela presidente Michelle Bachelet. O país também gasta muito menos com educação que o Brasil, em porcentagem. Equador e México estão, agora, copiando essas reformas.

Por que vamos tão mal nos rankings internacionais? Em relação aos países da América Latina, estamos tão mal?
De fato, os nove países da América Latina que participaram do Pisa tiveram desempenho pior do que seria esperado dado o nível de renda per capita. Mas dentro de cada um há tendências diferentes. O Brasil chegou a melhorar, mas desde 2009 o ritmo de crescimento estagnou. O Chile vinha na mesma crescente, mas em vez de parar, acelerou.

Só copiar o Chile resolveria nosso problema?
É um começo. É preciso dar um novo padrão nacional aos novos professores. Aumentar os critérios para certificá-los à profissão. Essa foi a reforma que há 30 anos revolucionou o sistema de educação finlandês, que aconteceu nos países asiáticos e agora começa a mudar a América Latina a partir do Chile. Por aqui, essa certificação ainda não é obrigatória, mas deveria ser.

Quando ministro, o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, recomendou que houvesse um exame nacional para avaliar professores. Mas ele, infelizmente, não foi atendido. É um passo fundamental para o Brasil.

Como criar uma avaliação de professores em âmbito nacional que dê certo?
O exemplo mais relevante é do próprio Brasil, que é o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), uma prova nacional aplicada ao 5º e 9º ano do Fundamental e 3º ano do Ensino Médio.

É uma prova muito bem desenhada, muito bem implementada e é fundamental para o Brasil estabelecer um sistema de acompanhamento dos resultados em escolas. De tão bom, é um exemplo de medição de resultados que levo a outros países. Sei que houve alguns escândalos com relação ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas não invalida a ideia.

O Enem 2014 revelou que 48% das escolas não alcançaram média 500 na prova, que é o índice de aprovação estabelecido pelo MEC. Como melhorar desempenho dos alunos, além de maior capacitação de professores?
A escola em tempo integral é uma boa opção. Um fator fundamental para melhorar o aproveitamento dos alunos é aumentar o dia letivo. Quatro ou cinco horas é muito pouco, comparado com países referência em educação. Deve-se encontrar uma maneira de ampliar esse turno, em especial para o ensino médio, que tem currículo mais intenso.

Diminuir os cursos noturnos também é importante. Ainda há 35% dos alunos de ensino médio nesse horário. Não há outro país na América Latina com situação parecida. Tem que haver, para aqueles que não podem de forma alguma se dedicar 100% aos estudos, mas não se pode esperar que dali saia um aluno de ponta.

Por último, o currículo. Está planejada uma reformulação da grade curricular feita pelo MEC e eu espero que haja um enxugamento de disciplinas. Não excluindo, mas vale condensar e consolidar os cursos, focando nas competências mais importantes. Não é preciso separar sociologia, antropologia, história, geografia... É melhor juntar em ciências sociais, com aprofundamento no ponto mais fundamental. É uma perspectiva mais integrada e uma tendência global.

Sabe-se que os alunos que tem renda mais elevada têm muito mais condições e acesso à educação de qualidade. Qual sua sugestão para reduzir essa diferença para os alunos mais pobres?
Há uma distorção muito grande nesse sentido, em especial no Ensino Superior. É muito injusto que aquele que faz o fundamental privado tenha mais acesso a universidades públicas. Você está subsidiando a educação dos ricos.

Sou completamente favorável ao sistema em que alunos de classes sociais mais altas paguem por seus estudos, mesmo que proporcionalmente à renda — quanto mais rico, maior a mensalidade. Pode ser por empréstimos também, como o Fies. Essa é a solução que dá a melhor cobertura de acesso à universidade, com o menor custo para o Estado em porcentagem do PIB.

É certo que esse modelo de financiamento reforçaria o orçamento das universidades públicas, mas esse sistema de pagar pelo ensino público ainda tem muita resistência por aqui. É uma questão cultural? Como driblar esse problema para desafogar os cofres?
É uma questão histórica. Todos os beneficiados desse sistema atual querem que se mantenha assim. Querem manter suas vantagens. Mas não é justo. Se houver uma pesquisa, fica claro que os alunos de famílias mais ricas que têm acesso ao ensino público. Então, eles devem pagar ou pegar empréstimos.

Em um sistema incrível que existe na Austrália o aluno pega o empréstimo e paga progressivamente. Ele estuda de graça e, quando se forma, paga de acordo com o salário que vai receber. Uma profissão que paga bem, retorna mais dinheiro. Se não ganha tanto, paga menos. Não vejo porque o Brasil não pode fazer algo assim, mas o desgaste político para aprovar algo assim seria grande.

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