Valparaíso (GO), 06/10/2024 - Eleitores durante dia de votação nas eleições 2024. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil (Bruno Peres/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 06h00.
A eleição presidencial de 2026 deve repetir o ambiente de insatisfação institucional que marcou a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, na avaliação de Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia.
Para o cientista político, a percepção de que “o sistema está quebrado” segue elevada no Brasil e continuará a moldar o discurso dos principais candidatos. O eleitor, segundo Garman, buscará um nome antissistema.
“Desde 2018 temos um ambiente com desejo e uma revolta contra o sistema muito forte. Uma descrença do Judiciário, da mídia, de partidos políticos. E vemos que, para ser competitivo, o candidato precisa ter credibilidade de lutar contra o sistema”, afirmou em entrevista à EXAME.
Segundo Garman, tanto Flávio Bolsonaro (PL) quanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) devem disputar esse terreno.
“Será uma outra eleição com pano de fundo de percepção de que o sistema está quebrado”, diz.
De um lado, a oposição deve reforçar críticas ao Judiciário e à imprensa. De outro, Lula tende a insistir na narrativa de taxação dos mais ricos e defesa da classe trabalhadora.
Apesar do ambiente de contestação institucional, o cenário econômico é distinto do observado em 2018. O país registra aumento de renda real de 19% e desemprego em torno de 5%. Ainda assim, Garman avalia que a economia deixou de garantir vantagem confortável ao incumbente.
“A economia virou condição necessária, mas não suficiente”, afirma. Para ele, se Lula vencer, será em função do desempenho econômico, mas em uma disputa estruturalmente competitiva.
“Se não tivéssemos esses ganhos, ele estaria abaixo de 45% de aprovação e perderia”, diz.
O diagnóstico da Eurasia indica mudança no foco das preocupações do eleitor. Se em 2022 o debate foi dominado por desigualdade e efeitos da pandemia, agora segurança pública e corrupção voltam a ganhar espaço, em linha com o perfil observado em 2018.
“O perfil do que o eleitor está preocupado está mais com uma pinta de 2018 do que 2022”, afirma. Ao mesmo tempo, o custo de vida permanece sensível. Garman lembra que a queda de popularidade de Lula no primeiro semestre do ano passado esteve ligada à alta nos preços dos alimentos.
Para o diretor da Eurasia, o governo tenta ajustar o discurso. A defesa da taxação dos mais ricos, apresentada na disputa sobre o IOF, e medidas como isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil, ampliação do Minha Casa Minha Vida e debate sobre redução da jornada 6x1 miram a classe média que ganham entre dois e cinco salários mínimos — segmento onde a gestão petista enfrenta maior resistência.
Ainda assim, a segurança pública é apontada como principal fragilidade. “Essa é a principal preocupação eleitoral. O Lula não é crível eleitoralmente nesse tema”, afirma.
A estratégia, segundo ele, será reduzir danos, com ações contra o crime organizado e reforço de pautas no Congresso.