O garimpo, apesar de ser prática permitida em pequena escala, se torna problema que une preocupações ambientais, humanitárias e políticas na Amazônia (getty/Getty Images)
Repórter
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 10h15.
O garimpo ilegal na Amazônia deixou de ser apenas um problema ambiental: passou a representar uma ameaça mais ampla à segurança, à saúde pública e, inclusive, à soberania territorial do Brasil, aponta um estudo de caso do think tank International Institute for Strategic Studies (IISS).
Escrito pelas especialistas Irene Mia e Fernanda Rios Herrera, o artigo analisa a expansão da extração ilícita de ouro e sua relação com crimes ambientais e com redes criminosas na região.
Segundo o levantamento, práticas insustentáveis de mineração de ouro respondem por entre 10% e 15% da perda total de floresta na Amazônia. A alta dos preços das commodities, combinada com a elevada informalidade do setor, ampliou os incentivos a novas operações e dificultou o combate às atividades clandestinas.
O Brasil ocupa posição central nesse cenário. Nosso território abriga mais de 60% da floresta amazônica e concentra cerca de 85% da perda florestal da região (apesar da queda recente no desmatamento), além de abrigar uma parcela significativa das atividades de mineração. A expansão do garimpo ocorre principalmente nos estados do Amazonas, do Pará e de Roraima.
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A mineração tem peso importante na economia brasileira e respondeu por quase 20% da receita total das exportações em 2024. Embora o ouro represente cerca de 2% desse total, sua produção cresceu 27,6% em relação ao ano anterior, impulsionada pelos preços internacionais e pela demanda global, já que é considerado um ativo estável e seguro.
Uma imagem aérea da região sudoeste do Pará destaca focos de fogo, desmatamento e garimpo em unidades de conservação. (Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Divulgação)
O problema está especialmente relacionado ao garimpo, atividade de pequena escala que, na prática, passou a operar em níveis de mecanização e escala próximos aos parâmetros da mineração industrial. Dessa forma, o modelo regulatório criado para operações menores e simplificadas acabou ficando defasado diante da transformação do setor.
O estudo estima que cerca de 34% do ouro produzido no Brasil entre 2021 e 2022 teve origem irregular. Apesar de medidas de rastreabilidade terem reduzido a produção oficial de garimpo entre 2022 e 2025 — reduzindo a cifra para cerca de 8% do total —, a atividade continuou dinâmica e avançou sobre áreas protegidas.
A expansão do garimpo também acelera o desmatamento, pois exige a abertura de áreas para chegar aos depósitos de ouro e a construção de infraestrutura para transportar equipamentos, combustíveis e minério.
A destruição de habitats agrava a perda de biodiversidade — a Amazônia concentra cerca de 30% da biodiversidade mundial — em uma região que também é essencial para o equilíbrio climático global.
Outro impacto crítico é a contaminação por mercúrio, utilizado para separar o ouro dos sedimentos. A substância chega aos rios, ao solo e ao ar e pode se transformar em metilmercúrio, substância altamente tóxica, que se infiltra facilmente na cadeia alimentar, afetando os ecossistemas e as comunidades que dependem da pesca, da caça e da agricultura.
Apesar de um banimento das importações de mercúrio pela Convenção Minamata de 2013, ratificada em 2016, muitas toneladas do elemento ainda chegam ao Brasil de maneira clandestina, provenientes de países como a Índia, o México e o Tajiquistão.
Uma vez em território brasileiro, o transporte e a distribuição do metal caem nas mãos de vastas redes do crime organizado, que têm forte presença e influência no setor do garimpo.
Operação policial: conforme a indústria do garimpo ilegal cresce, setor atrai atuação de facções criminosas na Amazônia (Alex Ribeiro/Ag.Pará/Divulgação)
A dimensão ambiental do problema está, portanto, acompanhada pelo crime organizado, o que aumenta o risco humano e os impactos diretos sobre as reservas indígenas.
Em 2022, cerca de 77% das áreas de garimpo identificadas apresentavam sinais de ilegalidade, incluindo operações em territórios protegidos — como terras indígenas e reservas ambientais — ou sem as autorizações necessárias. A mineração concentrou-se especialmente nas terras dos Kayapó, Munduruku e Yanomami.
O problema é agravado pela própria geografia amazônica, marcada por grandes distâncias, fronteiras porosas e pela presença limitada do Estado.
A região apresenta, portanto, altos níveis de informalidade e pobreza, o que torna a exploração de recursos naturais uma alternativa econômica para comunidades sem acesso a outras fontes de renda, inclusive as indígenas.
A mineração ilegal também se tornou parte de uma crise de segurança mais ampla. O IISS identifica uma convergência entre garimpo, tráfico de drogas e de pessoas, trabalho forçado, exploração sexual, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de mercúrio e de armas.
Esse fenômeno, descrito por alguns especialistas como “narcogarimpo”, envolve grupos criminosos que não necessariamente extraem ouro diretamente, mas controlam a logística necessária para que as operações funcionem. Combustível, transporte, pistas clandestinas, equipamentos e até o acesso à internet podem ficar sob a influência das organizações.
O estudo cita os gigantes do crime organizado brasileiro, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), além de organizações estrangeiras, como as FARC, da Colômbia, e de grupos regionais. Nas áreas amazônicas, essas facções vêm ampliando sua atuação nas rotas, nas cadeias de abastecimento e nos mercados associados à mineração ilegal.
Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, durante cerimônia na COP30
Na avaliação do IISS, combater o garimpo ilegal exige mais do que apenas operações policiais.
A estratégia precisa combinar fiscalização, formalização da atividade e desenvolvimento econômico, por meio da compreensão das causas socioeconômicas que sublinham o contexto. Por exemplo, fontes de renda alternativas, regularizadas e estáveis podem impedir que populações locais dependam de mercados clandestinos para sobreviver.
Mesmo assim, garimpeiros têm uma influência considerável na política, do Congresso às autoridades municipais e até nas agências regulatórias, segundo as pesquisadoras.
Iniciativas legislativas recentes ilustram o problema: o controverso PL 191/2020 permitia a mineração e projetos hidrelétricos em terras indígenas, mas foi arquivado em 2023, após intensos protestos.
Apesar de não estar mais em vigor, a rápida ratificação da lei demonstra a influência desses grupos na política: outro exemplo dessa tendência, apontam as especialistas, é a Lei 15.190/2025, que estabeleceu um marco geral para o licenciamento ambiental no país.
Elas avaliam que a norma reduz o nível de análise para uma série de atividades, incluindo projetos de infraestrutura e de agronegócio considerados de baixo ou médio impacto ambiental, e permite a autodeclaração dos empreendedores, sinalizando uma flexibilização das regras alinhada às prioridades de desenvolvimento econômico.
O Brasil ampliou as operações contra o garimpo desde 2023, especialmente após a crise humanitária no território Yanomami. Mais de 9 mil operações foram realizadas desde então, e o estudo aponta uma queda de 27,6% nas mortes registradas na área, além da interrupção de pelo menos US$ 112 milhões em fluxo que poderia ter entrado no mercado de ouro.
Ao mesmo tempo, Brasília tenta tornar mais rigoroso o controle sobre a origem do ouro. O governo avançou em mecanismos de rastreabilidade, enquanto a Polícia Federal desenvolveu o programa Ouro Alvo, que utiliza análise isotópica para identificar a provável origem geográfica do metal e ajudar a localizar áreas de mineração ilegal.
Além disso, dada a escala de atuação do crime organizado, o estudo defende que a resposta deve ir além das fronteiras brasileiras.
A criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em operação desde 2025, e as iniciativas da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica buscam ampliar o compartilhamento de inteligência e coordenar operações contra crimes ambientais.
Para o IISS, o desafio agora é transformar avanços pontuais em uma política duradoura.
Isso passa por harmonizar as regras entre os países amazônicos, ampliar a capacidade de fiscalização, melhorar a rastreabilidade do ouro e enfrentar as causas econômicas da informalidade, sem perder de vista a proteção da floresta e dos povos indígenas.