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Datafolha: 68 milhões vivem em bairros dominados por facções e milícias

Nas capitais, 55,9% afirmam que há atuação de facções ou milícias nos bairros onde vivem

Megaoperação no Rio de Janeiro resultou em 64 mortos nesta terça, 28 (Mauro Pimentel /AFP)

Megaoperação no Rio de Janeiro resultou em 64 mortos nesta terça, 28 (Mauro Pimentel /AFP)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 11 de maio de 2026 às 10h06.

Cerca de 68,7 milhões de brasileiros dizem viver em bairros com presença de facções criminosas ou milícias ligadas ao tráfico de drogas e outros crimes.

O dado faz parte de uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que investigou a percepção da população sobre a atuação do crime organizado no cotidiano das cidades brasileiras.

Segundo o levantamento, 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam reconhecer a presença de grupos criminosos organizados em seus bairros. Outros 51,1% disseram não identificar essa atuação, enquanto 7,2% afirmaram não saber responder.

Para o FBSP, os números indicam que a presença de facções e milícias deixou de ser percebida como fenômeno restrito a áreas periféricas ou grandes capitais e passou a integrar a experiência cotidiana de uma parcela significativa da população.

A pesquisa mostra ainda que a percepção sobre a presença desses grupos varia conforme o perfil territorial dos municípios. Nas capitais, 55,9% afirmam que há atuação de facções ou milícias nos bairros onde vivem. Nos municípios de regiões metropolitanas, o índice cai para 46%. Já nas cidades do interior, alcança 34,1%.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados reforçam um processo de interiorização e difusão territorial do crime organizado observado nos últimos anos.

O estudo aponta que facções como PCC e Comando Vermelho expandiram operações para cidades médias e pequenas a partir de rotas logísticas, alianças locais e disputa por mercados ilícitos.

O levantamento também mostra que a percepção da presença criminosa vai além da associação com violência armada ou tráfico de drogas.

Entre os entrevistados que reconhecem a atuação desses grupos, apenas 9% classificam essa presença como “nada visível”. Outros 43,4% dizem que ela é “pouco visível”, enquanto 21,1% consideram “visível” e 25,3% “muito visível”.

Na prática, os dados indicam que o crime organizado passou a influenciar hábitos cotidianos, circulação e relações sociais em parte dos bairros brasileiros.

Segundo a pesquisa, 81% dos entrevistados que vivem em áreas com presença desses grupos afirmam ter medo de ficar no meio de confrontos armados. Outros 74,9% evitam frequentar determinados locais e 65,2% mudam horários de circulação por receio da violência.

O impacto também aparece sobre o comportamento político e social. O estudo mostra que 59,5% evitam falar sobre política em seus bairros, enquanto 64,4% relatam medo de sofrer represálias ou punições por denunciar crimes.

Crime organizado influencia regras de convivência nos bairros

Outro dado central do levantamento aponta que 61,4% dos entrevistados que identificam a presença de facções ou milícias afirmam que esses grupos influenciam “muito” ou “moderadamente” as decisões e regras de convivência locais.

Para o FBSP, esse cenário se aproxima do conceito de governança criminal, expressão usada na literatura acadêmica para definir situações em que organizações criminosas passam a exercer controle social sobre territórios, impondo regras, restrições e padrões de comportamento.

O estudo afirma que, em muitos casos, a atuação desses grupos não depende necessariamente de presença ostensiva permanente, mas da capacidade de impor medo, restringir circulação e influenciar a rotina dos moradores.

A pesquisa também identificou aumento nos indicadores de vitimização entre pessoas que vivem em áreas onde há presença percebida de facções ou milícias.

Enquanto a média nacional de pessoas que sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses foi de 40,1%, o índice sobe para 51,1% entre moradores desses territórios.

Os maiores aumentos aparecem em crimes patrimoniais e episódios ligados à violência urbana. Entre moradores de bairros com presença do crime organizado, 21,4% relatam golpes financeiros pela internet ou celular, ante 15,8% da média nacional. Já os relatos de roubo ou assalto na rua sobem de 6,5% para 10,3%.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados sugerem que a presença do crime organizado funciona como marcador de intensificação da insegurança e da violência cotidiana, afetando tanto a circulação quanto as relações sociais e a percepção de proteção institucional nos territórios.

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